Nossa história na escola comunitária começou com um desafio clássico de pais que procuram uma escola: só havia vaga no jardim de infância no horário da tarde. Não era nosso horário preferido, mas, como a escola era concorrida, conseguir a vaga já foi motivo de comemoração. Assim, meio que por acidente, nos tornamos membros do Jardim D, a única turma do período vespertino.
Foi uma boa época e muito do meu interesse por esse tipo de escola surgiu nesse período, como ter uma alternativa ao dilema escola pública x particular, a sensação de pertencimento, como a provocada ao participar dos mutirões para melhorar a escola, ter excelentes aulas sobre democracia, uma visão muito mais apurada sobre relacionamentos em grupo.
Em Netuno
Lembro-me de uma reunião em que alguém comentou que a turma tinha pouco contato com o resto da escola devido ao horário. A comunicação interna nunca foi o forte desse tipo de instituição. A professora observou até que havia conversas na gestão da escola sobre acabar com a turma, justamente por esse afastamento. Eu perguntei de forma bem humorada se estávamos tão distantes assim. A resposta, direta e bem humorada, foi que, se o foco da gestão da escola fosse o sol, nós devíamos estar em Netuno. A reunião seguiu em frente, mas uma semente começou a brotar.
Eu fazia parte de um grupo um tanto inquieto, observamos várias demandas, entendemos que era preciso nos organizarmos e, principalmente, tomar iniciativas que nos atendessem. Assim, entramos em diversos grupos que a escola tem, instâncias para organizar as atividades:
- Uma mãe entrou no conselho de famílias, que fazia a ponte entre as famílias e os professores.
- Um pai com experiência como operador financeiro se ofereceu para entrar na instância de administração;.
- Outro, muito competente em processos, começou a criar alguns para a gestão.
- E eu entrei num grupo que depois se tornou a comissão de comunicação. Justamente para lidar com o problema com a comunicação opaca que observei no início dessa história.
Uma liga um tanto quanto ordinária
Fomos cuidando de nossos filhos, nossa turma e da escola no que nos cabia. Fizemos contatos, organizamos processos e enquanto os dias se passavam o assunto “fim do jardim D” simplesmente não se criava. Não me lembro de sequer precisarmos nos organizar para lidar com o problema, o tópico simplesmente não surgia nas reuniões. Não falta coisa para fazer nesses lugares.
Porém, o tempo foi passando, alguns se mudaram, os filhos de outros cresceram, entraram no primeiro ano do fundamental e o grupo se desfez. A própria professora saiu da escola e criou sua própria iniciativa, de sucesso, gerindo uma escola infantil. Minha família estava entre os que foram para o primeiro ano. O novo período foi cheio de desafios e adaptações, demandando muito envolvimento.
A queda
Creio que um ano depois, durante uma reunião genérica, descobri que o Jardim D acabou e os alunos remanescentes foram remanejados para o período matutino. Nesse período eu continuava a criar instrumentos de comunicação dentro da escola e meu último trabalho em relação à finada turma foi garantir que ela não sumiria em silêncio. Publicamos uma notícia no jornal interno. Perguntei se a professora que ficou com a turma gostaria de comentar o assunto e assim fiz a minha última homenagem com uma matéria. Além de diagramar já estava até escrevendo no jornal.
Quando paramos de nos concentrar, o Jardim D simplesmente acabou. Suponho que havia N motivos, mas também sei que a gestão nesse tipo de organização depende das prioridades de quem está trabalhando no momento. Organizações comunitárias mostram claramente aquela máxima de Platão de que se você não gosta de gestão ou política vai ter que seguir a cartilha de quem gosta. Então, se quer poder fazer as coisas acontecerem segundo seus planos é sempre importante ter disposição para fazer.
O grupo que se formou em torno do Jardim D se organizou de maneira meio orgânica, não foi algo planejado. Simplesmente fomos fazendo o que achávamos necessário e nos entendemos em grupo. Creio que nem percebemos o impacto que tivemos. Assim, não nos ocorreu passar nossos aprendizados e organização para as famílias que vieram depois de nós. Algo que descobri ser recorrente nesse tipo de organização mais horizontal, a perda de aprendizados anteriores.
A lição que fica
O aprendizado que fica é que numa escola feita pela comunidade tudo o que acontece é consequência da nossa capacidade e disposição em se organizar e fazer com que as coisas aconteçam. Esse é um aprendizado quase óbvio, mas esconde outro: como explicado por um colega que trabalha com agroecologia e mobilização popular, também é preciso pensar na sucessão: em como garantir que iniciativas perdurem além da participação daqueles diretamente envolvidos.
Para quem participa de escolas do tipo ou outra iniciativas comunitárias vale a questão: suas iniciativas são pensadas para durar além da sua participação ou intervenção? O que é necessário fazer para garantir que as coisas passem do nível pessoal e se tornem institucionais? Se preparar para esse desafio pode render uma escola mais estável e capaz de crescer de forma sustentável. É um desafio que está longe do trivial.

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