Os últimos tempos saíram da curva do cotidiano: pela primeira vez na vida não apenas entrei em uma UTI como também fiquei nela. Não como paciente, mas como acompanhante: uma cirurgia do meu pai teve intercorrências que resultaram em alguns dias de internação. Mais recentemente, o amor da minha vida passou mais de uma semana internada com dores intensas, praticamente implorou pela internação.
É uma perspectiva inusitada estar num ambiente em que se é acompanhante, a experiência de ser secundário. Suas acomodações e necessidades estão nas sobras de tempo e espaço do hospital. Reuniões online param para acompanhar a aplicação de medicamentos; alarmes tocam em momentos que parecem aleatórios. Em contraste, é obrigação central do acompanhante fazer a vida lá fora continuar funcionando, decidir sem ter a companhia para discutir possibilidades, fazer e acontecer para que os problemas de fora não atrapalhem a prioridade que é a recuperação do paciente.
Para agravar a situação, afora um desvio de coluna, eu creio ser uma pessoa até bem afortunada em termos de saúde. Raramente preciso ir ao médico, e consultórios se restringem aos exames periódicos. Os problemas de nervo ciático estão adormecidos há tempos, e o exercício os mantém assim. Essa tranquilidade também mostrou como eu sou inexperiente frente a esse mundo hospitalar. Se tivesse escolha preferia continuar assim, mas não é dessa forma que a vida funciona.
Sobre Hospitais e Saúde
O hospital é um lugar estranho; como definido pelo antropólogo Marc Augé, pode ser considerado um “não lugar”. Um ponto transitório por onde todos passam, mas poucos ficam e com o qual não criamos raízes. Além do hospital, outro exemplo de não lugar é o aeroporto. Sob essa perspectiva o olhar de uma profissional desse mundo como apresentado no Naquele Instante fica ainda mais interessante.
É um local funcional, objetivo e impessoal. Médicos, enfermeiros e outros funcionários seguem escalas, e vários trabalham em mais de um local. Dependendo de quantos dias se ficar no hospital, é capaz de não se reencontrar os mesmos plantonistas ou enfermeiros. Os pacientes, então… querem sair desse local o mais rápido possível.
Ao mesmo tempo, senti o contraste imenso entre a frieza do ambiente e a intensidade dos sentimentos que passamos nesses locais que não são apagados por paredes claras ou luzes brancas: angústia enquanto o diagnóstico não surge, ansiedade após a aplicação de um medicamento, esperança de ir embora que surge ao ver o sorriso do médico ao citar o termo “alta” e, por fim, o tédio salpicado ao longo do tempo.
Lembrei dos meus tempos de vigilância sanitária e saúde coletiva enquanto via in loco o modelo hospitalocêntrico em funcionamento. Alguns tocam e conversam com o paciente, outros mal levantam os olhos dos exames. Cada médico acompanha uma parte do paciente. Em algum lugar oculto eles se reúnem e conversam sobre os pacientes, conferem exames e prontuários.
As evidências de ontem, que pareciam tão certas, podem se provar erradas ao se empilharem contra as evidências de hoje. Medidas adotadas com forte certeza são abandonadas com o desapego de um budista. O foco está na doença ou no sintoma mais imediato, um modelo cartesiano e mecanicista. Adjetivos à parte, todo o modelo tem o seu momento certo e, nesses dias, vi suas qualidades e limitações. Tem horas que é preciso um remédio forte combinado com exames diários para saber se o fígado vai dar conta. Os protocolos são excelentes remédios para a indecisão e resolvem problemas pontuais sob uma impiedosa definição de prioridades.
Por outro lado, mais conhecimento sobre o histórico do paciente pode ganhar algumas etapas na formulação de hipóteses e evitar surpresas desagradáveis. O processo quebrado entre vários especialistas pode ser lento e tortuoso, especialmente enquanto não se fecha um diagnóstico ou quando a demora entre um e outro especialista atrasa a conclusão, porque pode ser necessário “esperar a opinião do outro médico” para se tomar uma decisão.
O outro aspecto desse tempo foi ver que, se os hospitais seguem em seu próprio tempo e ritmo, a vida lá fora continua e o acompanhante faz a ponte entre o hospital e o mundo. Ainda há filhos para cuidar, notícias a dar, contas a serem pagas e trabalhos a serem cumpridos. Somos primatas altamente adaptativos, e esse é nosso grande diferencial. De um dia para o outro, meu cotidiano foi sair de casa, deixar os filhos na escola e ir para o hospital. Apesar do apoio do pessoal do trabalho, eu sabia que fazia falta e vi que a dinâmica do hospital é pouco permeável às demandas do mundo externo.
Das soluções
A situação começa a melhorar quando se supera o susto; ao se aceitar esse novo normal, é possível encontrar as oportunidades para que ele seja menos penoso. Aos poucos fui me adequando, e foi um exercício de humildade assumir minhas limitações dentro desse período. Não há altruísmo em disfarçar os próprios problemas, e sou grato por trabalhar com uma equipe que me ajudou até nesse aspecto.
Entre meus irmãos, a reação foi totalmente a nossa cara. Poucas conversas, decisões objetivas, acordos rápidos. Todo mundo se apertou onde conseguia, ninguém reclamou. Creio que organizamos toda a rotina de revezamento em menos de uma lauda de conversa.
A vida lá fora precisa invadir os procedimentos hospitalares em alguns momentos para ela funcionar. A rede de apoio, com outras pessoas confiáveis em volta com menos envolvimento direto, me fez muita diferença. Pacientes e acompanhantes têm poucas opções frente a recomendações ou procedimentos-padrão. Uma prima médica deixa as conversas com os médicos em outro patamar. Precisei que uma amiga com experiência sindical me apontasse o óbvio absurdo de um prazo de 48 horas para a visita de um especialista para que eu acordasse e pressionasse a ouvidoria do hospital sobre esse absurdo.
E esse foi um momento em que as competências corporativas são úteis para lidar com organizações sem rosto. Uma coisa que aprendi de décadas de RH dos meus pais foi que não adianta pressionar o operador que está na ponta, no “chão de fábrica”, para lidar com problemas que são desenho de sistema. Nessas horas é preciso subir a hierarquia e se preparar para lidar com uma organização sem rosto ou sentimentos.
É preciso não se distrair com a conversa fiada, procurar indicadores claros e pontos focais para assumirem a responsabilidade pela instituição. É impressionante como corporações conseguem fazer pingue-pongue com responsabilidades e a solução é criar pequenos contratos para garantir que as coisas funcionem. Saber fatiar os problemas é uma arte.
Conclusão
No caso do meu pai, os problemas já estão resolvidos. No caso da minha esposa, a recuperação ainda será uma pedregosa caminhada. É preciso ser empático, dar segurança e ser positivo. Crises são excelentes momentos para perceber as próprias limitações: como processar o sofrimento alheio. Observo como tenho pouco instrumental para cuidar, para me conectar com quem está doente ou sofrendo por alguém próximo doente.
Olhando para trás, percebo que muitas vezes devo ter soado insensível por não saber o que dizer ou como lidar com alguém numa fase ruim. Esperava pelo momento em que tivesse algo de útil para dizer ou fazer, mas esse momento simplesmente não surgia por minhas limitações em processar a situação.
Não sou versado em consolar e percebo que nós, homens, temos pouco instrumental para isso. Sartre disse que somos aquilo que fazemos com o que fizeram de nós. Assim, a vida não é o que nos acontece, mas o que fazemos a partir do que nos acontece. Espero que ao menos eu saia uma pessoa melhor depois de todo esse perrengue.
Deixe um comentário