
Depois de alguns anos de aventuras, como mutirões e seus poréns, cheguei a algumas conclusões. Na escola, eu já vi todo o tipo de reunião: produtiva, improdutivas, única ou que se repetiram diversas vezes, algumas não cumpriram seus objetivos até hoje. Já vi pessoas alegando que os eventuais problemas com a tomada de decisão, muuito lenta, refletem a imaturidade da comunidade e como tudo seria melhor quando a comunidade amadurecer e se tornar mais coesa. Eu acho essa ideia muito complicada, para dizer o mínimo.
Comunidades coesas… demais
Conforme estou lendo no livro “De onde vem as boas ideias“, a diversidade pode ser uma fonte de conflito, mas também é excelente para trazer renovação e inovação. O problema de comunidades excessivamente coesas é que os conflitos podem ser mínimos, mas também tornam o grupo inflexível. Se coisas derem errado ou surgir algo imprevisível vão todos para o abismo, como uma manada coesa e determinada. Afinal, o consenso também poder ser tóxico, a armadilha do groupthinking descreve bem isso. Outro dos efeitos é que se formam grupos de interesse dentro dessa comunidade que podem controlá-la com uma discreta mão de ferro e passam a conduzir o grupo com a prioridade de se manter no topo. Parece algum país que você conhece?

Diferenças são inevitáveis
Eu acredito que em qualquer comunidade que passe das dezenas de pessoas as discordâncias serão inevitáveis. Alguns acreditam que é possível chegar a um consenso sempre se o assunto for muito discutido. Apesar de achar isso desejável, me soa um tanto utópico. As pessoas tem interesses, visões e prioridades diferentes, que eventualmente vão entrar em conflito. A questão é: como se resolver a discordância honesta?
Dizer que é através da democracia e do diálogo é uma resposta. Porém, essa resposta é genérica e esconde a complexidade envolvida no processo para se chegar a esse resultado. Porque o operar da democracia é feito através da política. E a política passou a existir a partir do momento em que se aceita o contraditório: que levar seu opositor até a submissão não é uma boa solução (a quantidade de gente pensando diferente nesse ponto está se tornando preocupante). O que me lembra uma definição do meu pai sobre negociação, consequência de longos anos de negociações com sindicatos. As pessoas negociam para ganhar, mas não pode ser uma vitória arrasadora ou baseada em mentiras. Pois nesse caso o outro lado não irá mais aceitar você como negociador. Completando com uma frase de Guerra dos Tronos: uma boa negociação é aquela em que ambos os lados saem igualmente infelizes devido às concessões que tiveram que fazer.
A tomada de decisão
No caso de uma escola comunitária, essa democracia opera através de diversas comissões temáticas, grupos de trabalho e as chamadas instâncias: como a diretoria da escola, conselho deliberativo, conselho de professores etc. A última instância de uma escola como essa é a Assembleia geral, onde todos podem opinar, participar e as decisões ocorrem por voto. O erro que eu já cometi foi achar que essa última opção é a única. Na verdade, a assembleia é apenas parte de um processo, a ponta do iceberg do processo decisório.
A vida em comunidade e voluntariado tem suas semelhanças com o empreendedorismo. Ambos demandam ação e resultado. O carisma, talento e criatividade podem ter sua importância, mas no final quem decide é quem faz, analisa, escreve proposta, se articula com quem concorda, convence ou negocia com quem discorda. Palavras são vento, mas atos são de pedra e são decisivos. Eventualmente é preciso lutar, mas com diplomacia e um certo desapego. Hoje em dia quando alguém na escola propõe alguma ideia, mesmo que ela seja genial a minha pergunta é “Ok, a ideia é excelente, mas o que você está disposto fazer para essa ideia funcionar?” Convencer os outros a participar de algo é importante, mas o melhor argumento é o exemplo. Dificilmente alguém vai assumir uma ideia em que nem o próprio proponente se engajou.
Antigamente eu achava suspeito e ficava eventualmente indignado quando votações aprovavam uma determinada proposta, beirando a unanimidade. Por mera coincidência eu me incomodava mais quando não concordava com o resultado. A questão é as assembleias são o final de um processo e já existe uma forte “inércia” para determinada direção. Geralmente a questão foi discutida e articulada e os interessados vão em peso para assembleia. Afinal, é legítimo um grupo lutar para atender seus interesses. Ainda assim, os resultados estão longe do previsível. Se isso é “aparelhamento”, “combinar o voto” ou “criar uma claque” a pergunta que considero correta é: E daí? Como disse Platão “Não há nada de errado com aqueles que não gostam de política, simplesmente serão governados por aqueles que gostam”. O gosto do grupo por reunião pode me dar nos nervos de vez em quando. Um dos efeitos é que o tempo para que decisões sejam tomadas pode ser muito lento. Especialmente quando é uma reunião que poderia ser resolvida por e-mail, mas isso não é sobre os meus gostos.
Dá trabalho? Certamente, mas o resultados também podem ser incríveis, como um observatório sobre Covid-19 regido por pais de uma escola do DF. Eles compilaram dados públicos e fazem uma série histórica, tudo feito por voluntários. Detalhe, os voluntários tem experiência em medicina e vigilância sanitária. Outro grupo está fazendo um trabalho similar rastreando casos na escola, com relatos semanais. Quantos locais contariam com um aparato desses que não custasse uns bons milhares de reais? Que outra escola poderia conseguir algo assim?
Conclusão
A democracia tem um certo grau de concorrência e contanto que não se torne uma opressão da maioria, o resto faz parte do jogo, por isso a necessidade de regras. Não é o sistema que garante as melhores decisões, mas certamente deve ser o que garanta as decisões mais legítimas. Como diria Churchill: a democracia é o pior sistema à exceção de todos os outros.
Por isso acredito que democracia é um “esporte de contato” eventualmente vai ocorrer algum encontrão, você vai se sentir derrubado por alguém que nem havia visto e assim segue o jogo. Eventualmente alguém vai dizer que você fez a mesma coisa. Como todo o bom esporte você precisa assumir o risco de perder e levar isso na esportiva. Como bem descrito pelo professor Wilson Gomes, também é a arte de engolir sapos “(…) O pluralismo político implica que há outras posições legítimas além da sua. Compor, negociar, ceder, isso é Política.”
Por isso mesmo a vida numa escola comunitária é uma tremenda aula de gestão, política e, principalmente, cidadania. O que envolve tomar decisões e assumir lados. E a necessidade de desenvolver as habilidades para lidar com isso me levaram a entender porque tanta gente coloca seus trabalho voluntários nos currículos, especialmente em cargos de gestão.