
Participar de uma escola comunitária leva a situações interessantes. Lidar com muita gente significa muitas ideias diferentes e várias delas serão bem contrárias às nossas crenças pessoais. Nesse aspecto eu acho o dissenso algo natural. Gosto de dizer que foi nas aventuras na escola comunitária que descobri que a democracia é um esporte competitivo e de contato.
Porém, é visivel nas reuniões que alguns se ressentem desses momentos. Há quem considere a dificuldade para chegar ao consenso como um sinal de imaturidade da comunidade. Alguns acreditam que o debate é a solução, mas a experiência tem me sinalizado outro fator ainda mais importante.
Sobre debates
Entendo que o consenso é um objetivo desejável, mas não dá para queimar etapas. A discordância não é uma fase a ser superada ou, pior, contornada. Nesses casos alguns conflitos simplesmente são abafados e não resolvidos.
Algo que de vez em quando encaro nas reuniões é que é plenamente possível pessoas terem opiniões honestas, informadas e opostas. Como diz um provérbio filipino, a paz não é a ausência de conflito, mas a solução pacífica deles, sem emprego de violência ou sua ameaça. O escritor israelense, pacifista e veterano de guerra Amoz Oz, também tinha uma visão particularmente pragmática da paz que vale para contrabalançar essa utopia de consenso que costumo ver nas reuniões:
O oposto de guerra não é amor, é paz. No Ocidente, é comum a fantasia sentimental de que todo conflito no mundo é em essência apenas um mal-entendido. Bastaria um pouco de terapia de grupo para resolver tudo e deixar todos felizes. Mas não há mal-entendido algum entre judeus israelenses e árabes palestinos. Ambos querem ficar nesta terra e têm razões muito fortes para isso. Não é um mal-entendido, é uma tragédia. A saída é assumir compromissos e fazer concessões, e isso será doloroso para ambos os lados.
fonte: O Globo
Na escola comunitária as coisas são mais leves e ainda não pegamos em armas. Quando não se chega a um consenso, entramos nas votações e aí ganha-se por maioria. Pode parecer algo simples e óbvio, mas antigamente na escola havia um entendimento tácito de que um ponto de discórdia deveria ser resolvido por debate. O que levava a reuniões intermináveis ou simples vitória pelo cansaço e o emprego de táticas de obstrução que arriscam até intoxicar as relações na comunidade. Por mais iluminadas que as comunidades gostem de se achar, elas rendem muita fofoca.
Hoje em dia, como o grupo é maior e chega um momento que decisões tem que ser tomadas vamos para as votações. O que surpreende alguns dos mais antigos com a “velocidade” das resoluções. Alguns críticos argumentam que pode não estar ocorrendo debate o suficiente ou que o debate não está sendo estimulado.
Essa preocupação com a velocidade excessiva é válida. Afinal a “velocidade correta” ou o tempo adequado para debater um assunto é extremamente subjetivo. De fato, o debate é importante, significa a disposição em colocar as próprias ideias e crença à prova. A ideia da refutabilidade, como proposta por Karl Popper, passa por aceitar que ideias são hipóteses e que podem, e devem, ser testadas e eventualmente refutadas à luz dos fatos. O debate não enfraquece uma proposta mas a reforça de forma similar à uma ferreiro martelando o metal para transformá-lo em uma ferramenta.
Assim, acredito que o objetivo de um debate honesto deve ser testar, refutar ou mesmo melhorar propostas. Há algo de imprevisível nele que envolve a humildade e um certo desapego das próprias crenças, como a disposição em aceitar a visão de outras pessoas.
Como todo recurso, há tem limites e acredito que o consenso não necessariamente é a medida de sucesso. Acreditar que toda discordância é apenas um mal-entendido contornável por uma boa conversa ou um argumento matador (também conhecido como “lacração”) me parece apenas irreal.
Gosto da ideia do debate como negociação, muitas vezes a solução que melhor atende os dois lados pode ser medida como a que vai deixar todo mundo infeliz de forma equilibrada. As vezes as pessoas parecem acreditar que solução é algo agradável, enquanto eu acredito que solução é apenas o que resolve. Muitos remédios são amargos.
Além dos debates
Acredito que existe uma pergunta fundamental: como influenciar as pessoas a concordar comigo?
Depois de alguma experiência e observação descobri como algumas pessoas na comunidade conseguem isso. Também envolve a capacidade de se articular e convencer, mas tem um fator que é realmente determinante: o trabalho. O que mais move as pessoas não é a qualidade do argumento ou o carisma de quem apresenta a proposta, mas a disposição de fazer as coisas acontecerem. Eu faço parte de um grupo de trabalho e observei que as pessoa importantes são as que marcam as reuniões, escrevem as atas, encaminham os resultados e (realmente) leem os documentos produzidos. As que fazem aquele trabalho chato que pouca gente observa e pouco brilha nos debates.
Nesses tempos de trabalho multitarefa, economia da atenção e variadas atribuições, manda mais quem leu os e-mail e documentos com mais atenção. Quem assumiu a tarefa e entregou define quais são os rumos. Existem sugestões ou resistências? Claro que sim, mas a vida é definida muito mais por quem faz do que por quem fala. Eu até trabalho, mas não tenho ilusões de que tem gente lá que faz mais que eu. Diversas vezes e já me flagrei tendendo a concordar com essas pessoas justamente porque sei que elas fazem.
A maioria das pessoas está disposta a ajudar. É esse tipo de pessoa que o trabalho comunitário atrai, mas existe um abismo a ser superado entre quem ajuda e quem lidera. A cabeça, e a espinha dorsal, desse tipo de comunidade está em líderes relutantes, aqueles que assumem as coisas porque sabem que se não o fizerem as coisas não vão acontecer. Eles conseguem o apoio dos que desejam ajudar, em seus diferentes graus, e assim as coisas acontecem.
Existe resistência? Claro que sim! Mas em atividades baseadas em trabalho voluntário, geralmente o resistente tende a desistir. Especialmente se não conseguir angariar apoio entre os outros membros do grupo. Mesmo conhecimento técnico pode não ser suficiente comparado à disposição em trabalhar.
Em reuniões já vi gente resistindo a uma determinada proposta. Por motivos honestos, seja por mais conhecimento técnico, crenças diferente ou mesmo atender interesses específicos (sim, também acredito que entra no rol de objetivos justos). Mas para conseguir, a pessoa tem que estar presente nas reuniões para argumentar, assumir responsabilidades e entregar resultados. Sem isso não existe debate ou argumento que resolva.
Conclusão
Portanto, acredito que não é o debate ou o conhecimento o principal fator ao definir os rumos de empreendimentos coletivos, mas a disposição de fazer, de produzir. O objetivo cumprido, o resultado sempre vai ser o ultima ratio, o argumento definitivo. E essa regra vale para empresas, governos, quermesses ou certas atividades comunitárias.