Democracia e o menos pior


A pior forma de governo

Uma coisa que eu gosto no Winston Churchill é que, como um excelente orador, seus discursos rendiam excelentes frases. Dentre elas, uma que sempre me marcou muito foi a que dizia que a democracia é a pior forma de governo, à exceção de todas as outras. Ele queria dizer que o sistema que chamava de democracia, a liberal, tem inúmeros problemas Ele lidou com esses problemas diversas vezes, seja ganhando, perdendo ou conduzindo o país durante crises. Mas, ainda assim, é o melhor sistema que conseguimos produzir até o momento para atender às necessidades da maioria.

Carisma, dinheiro e o risco das escolhas

Dentre os problemas, um tanto agravados nos tempos atuais, estão as fragilidades do sistema de escolha: temos o impacto do carisma sobre as escolhas do público. Não podemos esquecer que até o partido nazista ganhou eleições democraticamente. Recomendo especial atenção para o resultado dessa eleição para a Europa no longo prazo.

O poder econômico também influencia muito. Quem tem mais recursos consegue fazer mais propaganda, contratar apoiadores e criar uma força que não teria sem tanto dinheiro. Desde o início do século XX a propaganda política e comunicação de massa se tornaram objetos de estudo e se sofisticaram em um nível assustador no século XXI. O que pode ser observado por certos tiros no pé de um povo, como o Brexit. O Brasil apostou no financiamento público e não me parece ter melhorado as coisas.

Legitimidade não garante boa escolha

Claro que deixar as massas escolherem é um dos pontos fundamentais da democracia liberal, mas não é o único. A escolha da massa apenas garante maior legitimidade. Não que a escolha seja a melhor. O outro ponto fundamental é que existam sistemas de freios e contrapesos para garantir que as democracias não se tornem ditaduras da maioria. Algo que alguns regimes com desejos autoritários recentes mostraram excelência em corroer.

Decidir com a razão ou com os vieses?

O comportamento do eleitor é tema de vários estudos, dentre eles existem 3 modelos de análise:

  • o focado no aspecto sociológico (coletivo e histórico),
  • o psicológico, focado no individual e
  • o econômico, que considera análises de custo-benefício para o indivíduo ou seu grupo.

Também existem diversos atalhos cognitivos que nos ajudam a lidar com o fato de que temos que tomar uma decisão de impacto sobre um assunto complexo do qual raramente temos informações suficientes. De qualquer forma, os atalhos e vieses cognitivos já demonstram muito bem que o processo de decisão eleitoral é muito menos racional do que gostamos de imaginar.

Minha receita pessoal

Eu gosto de considerar que meu voto não é uma expressão de meus valores e visão de mundo, mas apenas uma escolha sobre o menor pior, considerando que quaisquer pessoas têm defeitos. Gosto dessa visão especialmente para o caso de escolhas de candidatos para cargos majoritários. O impacto desses indivíduos é maior que o dos colegiados, como Câmara dos Deputados, Assembleias Legislativas e Senado.

Foto: Montagem Thiago Fagundes.
Fonte: Agência Câmara de Notícias

Um dos meios de se fazer essa análise é ver a propaganda contra. Mesmo quando ela fala mal do meu candidato preferido e me enfurece. Eu acho um bom exercício. A compensação é que ajuda a doer menos quando meu candidato perde. O mais importante é que a experiência me ajuda a superar o viés de confirmação e me dá consciência de que não existem messias (de jeito nenhum) ou salvadores da pátria. No final das contas, todos os candidatos têm defeitos. O contexto histórico, político e econômico em que estão inseridos importa e muitas vezes decide.

Para um fascista, ser liberal ou de esquerda é mais ou menos a mesma coisa, ambos são inimigos. Entender essa diferença entre moderação e extremismo é especialmente importante, os extremistas precisam ser derrotados por frentes amplas, até porque eles não aceitam dissenso, apenas submissão ou eliminação. Não se pode ter ilusões: o moderado também é um alvo do extremista. A única diferença é a ordem na fila. O John Cleese fez um ótimo vídeo em 1987 sobre a psicologia do extremismo (veja abaixo).

Considero essa visão sobre o voto especialmente importante para os mais críticos. Aqueles que não se identificam com nenhum candidato e preferem se abster. No caso de eleições majoritárias considero isso uma omissão e desperdício de capacidade crítica. Já bastam as pessoas sem noção votando animadas. O voto nulo não é um voto de protesto. Afinal, ele não altera nenhum resultado. A escolha do menos pior, ou voto útil, demanda o reconhecimento de que os problemas de um governo vão muito além do momento da urna, mas exige a coragem de assumir que se omitir e deixar o candidato pior não vai melhorar as coisas, muito pelo contrário. Sim, existe o direito de ser votar nulo ou branco, mas acredito que ele pode ser uma ideia muito ruim, especialmente quando o próprio direito de escolha está em risco.

É triste, mas às vezes é preciso votar apertando o nariz. Os franceses já fizeram isso como o José Bové votando no conservador Chirac para evitar a ascensão de um extremista de direita do tipo Le Pen. Acredito que votar não é apenas sobre valores e expressão pessoal, mas especialmente sobre responsabilidades e o melhor para o país, dentro das opções possíveis.

Deixe um comentário

Blog no WordPress.com.

Acima ↑