Introdução

Terminei de ler o livro “A arte da imperfeição” da pesquisadora Brené Brown. Admito que foi uma leitura difícil para mim. Não pela densidade ou obscuridade do texto, já que a autora se esforça para que essa seja uma leitura acessível, mas por ter sido uma leitura conflituosa para quem, como eu, tem problemas com livros de autoajuda: ou me parecem aqueles doidos baseados em “vozes da própria cabeça” ou coachs oportunistas do tipo “oportunidade única para comprar meu curso”. Aquela mistura de soberba com messianismo de quem diz que vai mudar sua vida me dá nos nervos.
O que me atraiu mesmo para a leitura do livro foi a indicação de uma pessoa em que confio e que me sugeriu começar com uma palestra no formato TED sobre vulnerabilidade. Assim, venci minha bronca com o gênero e resolvi arriscar.
Minha estratégia de leitura
Se você tem os dois pés atrás em relação ao gênero autoajuda, sugiro uma estratégia para este livro em específico: inicie a leitura pelo último capítulo. Foi o capítulo que me comprovou que a autora não é alguém que segue as vozes da própria cabeça. Suas conclusões seguem um longo trabalho de pesquisa. Nesse capítulo está a base teórica e a metodologia de pesquisa. Os conceitos e achados descritos ao longo da leitura ficaram muito mais sólidos e, consequentemente, relevantes, tornando possível ver a beleza do processo de construção do conhecimento. Li com olhos de quem lê divulgação científica sobre psicologia.
Assuntos espinhosos
Os temas que ela aborda: vergonha, vulnerabilidade e autocompaixão são importantes e úteis demais para serem derrubados por ceticismo exagerado. A vergonha pode ser entendida como a incapacidade de aceitar a própria vulnerabilidade, uma baixa autocompaixão ou aceitação de si mesmo. Esse primeiro ponto que surgiu em suas pesquisas se tornou um de seus grandes temas:
“A vergonha é universal, além de ser um dos sentimentos mais primitivos que experimentamos. As únicas pessoas que não se envergonham são as que não têm capacidade de sentir empatia e de estabelecer vínculos humanos.” (Brené Brown)

Não é à toa que um dos primeiros livros dela se chama “Eu pensava que isso só acontecia comigo“. Como bem demonstrado em Divertida Mente 2, a vergonha não é uma emoção básica; ela floresce na interação social. Como primatas sociais que somos, a conexão é nossa moeda de sobrevivência. Ao longo de milhares de entrevistas, ela observou o quanto essa conexão com outras pessoas é fundamental para nós, como espécie.
Saímos das cavernas porque fomos capazes de colaborar, mas a vergonha atua justamente abalando esse vínculo, nos forçando a vestir máscaras de suposta perfeição que nos distanciam de quem realmente somos. Mesmo que consigamos vencer com essas máscaras atendendo certas demandas sociais, provavelmente serão vitórias que vão valer pouco justamente porque não é o que a pessoa quer, mas o que ela acha que é esperado dela. Isso que explica a obsessão de alguns por crescimento constante, mais dinheiro, mais status, mais aceitação.
Conforme a autora, há três elementos que fazem esse sentimento crescer e fugir ao nosso controle: segredo, silêncio e crítica. Quando acontece alguma coisa vergonhosa e nós escondemos a situação, a vergonha é alimentada e nos consome.
O medo de ser visto como fraco, incapaz ou como um impostor demonstra o impacto da vergonha sobre o ser humano. O resultado pode ser ansiedade, procrastinação, impulsividade e, principalmente, se perder: perdemos a autenticidade ao negarmos o que somos por acreditarmos que aceitarmos nossa imperfeição nos deixa vulneráveis. Isso explica a proposta da autora de que não existe coragem sem assumir a própria imperfeição. Nesse aspecto, assumir a própria vulnerabilidade não é uma fraqueza, muito pelo contrário.
Uma vida menos ordinária
Ao longo do livro a autora cria uma ligação entre vergonha, assumir a própria vulnerabilidade, autocompaixão, autenticidade, coragem e, por fim, uma vida mais plena e equilibrada. Se a vergonha nos impede a autocompaixão, construir a resiliência a esse conhecimento é o que ela descreve como “vida plena”. Ao longo de suas entrevistas ela passou a tentar isolar os elementos característicos demonstrado por essas pessoas de vida plena. Dessa forma o assunto é desdobrado na forma de dez diretrizes para cumprir esse objetivo. Foi interessante reparar que as diretrizes me parecem muito mais uma jornada de aceitação do que de superação.
A vida plena proposta é que a pessoa não será invencível ou que “a prosperidade baterá à porta”, mas que é possível ter uma vida mais feliz e menos dependente das circunstâncias. Reagindo de forma mais equilibrada e permitindo planejar uma vida melhor.
Para educar pelo exemplo, muitas das próprias vulnerabilidades da Dra. Brown são abordadas ao longo do livro: como a sua relação com festas e bebidas, ilustrando como as descobertas das pesquisas influenciaram suas próprias visões de mundo e de si mesma. Funciona como um bom vislumbre dos diários de pesquisa que devem ter sido produzidos ao longo dos anos.
É claro que não é preciso ser ingênuo e expor suas vulnerabilidades para qualquer um, mas o próprio fato de ter pessoas em que se possa confiar já significa mais conexões, mais saúde mental e mais chances para uma vida melhor.
Para homens
No caso masculino, acredito que a dificuldade em lidar com esse sentimento de vergonha e a aversão que temos a encarar nossas vulnerabilidades provavelmente ajudam a explicar nossa expectativa de vida encurtada por finais violentos e idiotas. Em termos de gênero somos o grupo que mais sofre, mata e morre por causa de vergonha. O medo de parecer fraco, imperfeito é o que faz muitos homens serem impulsivos, agindo sem calcular os riscos ou se colocando em situações perigosas para demonstrar força.
Um exemplo prático são os casos de feminicídio. Muitos casos envolvem família ou pessoas envolvida em relacionamentos. Desenvolver relacionamentos, ter filhos e constituir família são coisas que naturalmente nos deixam vulneráveis. É preciso se abrir para ter um relacionamento e eventualmente eles terminam. Acredito que a péssima forma como somos ensinados da lidar com a vulnerabilidade, a exigência social que existe sobre o formato desejado de família e a eventual vergonha de não se alinhar ao formato idealizado, aumentam em muito o risco dos finais violentos que vemos nos jornais.
Portanto, aprender a lidar com a vulnerabilidade e vergonha de forma mais equilibrada provavelmente faria muito bem aos homens e a própria sociedade.
Conclusão
Apesar do verniz por vezes exagerado da autoajuda, acredito que foi um bom exercício superar meus preconceitos com o gênero. O que me permitiu encontrar um trabalho com uma base sólida e uma série de conselhos úteis.
Aceitar a si mesmo passa por reconhecer as próprias imperfeições; fazer esse movimento de autoconhecimento é fundamental para que possamos tomar decisões conscientes, sem estarmos reféns do medo. Acredito haver um potencial libertador e revolucionário nessa ideia. Especialmente nesses tempos em que as pessoas são pressionadas a “vibrar sucesso”, “performar” ou alguma outra pérola da positividade tóxica.
Como comentado na palestra, desenvolver resiliência à vergonha abre caminho para a alegria e a criatividade. Não se inova sem arriscar e para tanto é preciso lidar com a vulnerabilidade. Demanda muito mais coragem tomar uma decisão consciente dos riscos do que agir por impulso.
Brené Brown é professora e pesquisadora na Universidade de Houston, onde ocupa a cadeira da Huffington Foundation. Sua carreira é dedicada ao estudo da coragem, vulnerabilidade, empatia e vergonha, temas que a transformaram em uma das vozes mais influentes da psicologia aplicada ao desenvolvimento pessoal e às relações humanas.
Ela está muito longe de ser autora de livros de auto ajuda. Apesar de que não sabendo como a qualificar, como a editar, ela termina nessas prateleiras das livrarias.
Ela decidiu de traduzir de maneira mais coloquial os resultados de suas pesquisas acadêmicas para que elas não sejam lidas só por algumas centenas de acadêmicos, mas para que um público vasto possa aproveitar dos resultados.
Inicialmente, os acadêmicos não gostaram de ver suas pesquisas retranscritas de modo tão acessível. Mas os livros dela trouxeram dinheiro para pesquisas também, então pararam de reclamar.
No livro de 2021, Atlas of the Heart, que é o resultado de 20 anos de pesquisa e milhares de entrevistados (por ela e suas equipes), ela demonstra que a maioria dos seres humanos identifica apenas entre 6 e 12 emoções (que era sobre o quê a maioria das pesquisas acadêmicas trabalhavam há decadas). A pesquisa dela e sua equipe descreve 87 emoções.
Não saber identificar e nomear as emoções é um dos grandes problemas das relações humanas e comunicação.
A coleta de dados de pesquisa dela é extensiva e segue regras cientificas claras. Ela tem mais de 23 anos de pesquisas extensivas e qualitativas desde o final da tese dela.
Em certas obras, ela explica a metodologia. Mas sobretudo os artigos acadêmicos dela (sem sensação de auto ajuda) estão disponíveis também, mas a leitura é muito mais técnica.
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Uau, esse foi um comentário riquíssimo. De fato, o livro e a palestra formam o meu primeiro contato com o trabalho dela e concordo que está muito acima no nível médio do gênero auto ajuda. Até entendo a inserção no gênero, afinal o trabalho dela em fornecer instrumental para as pessoas lidarem com suas emoções bate com a proposta da auto ajuda. Não conhecia o Atlas of the Heart e a ideia de existirem 87 emoções é praticamente uma expansão de consciência. Vi entrar para minha lista de leituras futuras.
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