Das naves para as sementes: desvendando um prefixo da pesquisa brasileira


Um detalhe que provavelmente nunca vai te ocorrer é o que significa o prefixo “USS” do nome da famosa nave espacial “USS Enterprise” da série Star Trek, especialmente se você não for muito nerd. Na série iniciada nos anos 60, essa sigla significa United Space Ship, que pode ser traduzido literalmente como Nave Espacial da União, uma referência para identificar de onde veio uma embarcação. São os prefixos navais usados para identificar navios, que vou detalhar logo mais. Apesar de ser uma série de ficção científica, Star Trek usa muitas metáforas baseadas na lógica naval.

Outro detalhe interessante, é que a primeira nau a ostentar o nome, foi a nau francesa L´Enterprise. Capturada pelos ingleses em 1705 e renomeada HMS Entreprise e começou a tradição que passou pelo porta-aviões nuclear USS Entreprise, um ônibus espacial e a famosa nave da série de ficção.

Do espaço para o mundo real

Esse tipo de prefixo vem da marinha real inglesa, que até hoje nomeia os seus navios com o prefixo HMS, que significa His/Her Majesty Ship, e pode ser traduzido como “navio de sua majestade”. Como os EUA começaram como uma colônia britânica, adotaram o prefixo USS (United States Ship) em seus navios, traduzido como “navio dos Estados Unidos”.

Como a marinha real foi “a marinha” por vários séculos, essa tradição se tornou global. Os argentinos usam ARA, que significa Armada da República Argentina; o antigo império Austro-Húngaro usava o SMS, ou “embarcação de Sua Majestade” (alemão: Seiner Majestät Schiff); os indianos usam INS, ou Indian Navy Ship, que significa navio da marinha indiana.

A marinha brasileira não usa esse tipo de prefixo para identificar a nossa marinha, preferindo apenas prefixos de uso interno indicando a função combinando letras e números. Como por exemplo V34 para a corveta Barroso, F41 para a fragata Defensora ou A40 para o navio aeródromo multiuso Atlântico.

Dos mares para a terra: a pesquisa nacional

Foto: Paulo Lanzetta.

A mesma lógica de identificação se estendeu a outras áreas e funciona como um selo de qualidade para produtos dos quais um certo se orgulha. As cultivares produzidas pela Embrapa, por exemplo, são acompanhadas do prefixo BRS, que significa Brazilian Seed ou semente Brasileira.

O BRS passou a ser empregado a medida que a produção da Embrapa aumentou e se diversificou. O prefixo é exigido para os produtores que trabalham com cultivares desenvolvidas pela empresa. Serve para diferenciar sementes de alta tecnologia que são resultado de anos de pesquisa. Diversos países para os quais o Brasil exporta produtos agrícolas também exigem esse tipo de prefixo para identificar a origem das cultivares. A pequena amostra abaixo ilustra como a frota de cultivares brasileiras é vasta e variada:

Certos itens muito importantes não tiveram o BRS, como a cultivar de soja Doko, por uma questão temporal. Ainda assim, a Doko que remonta os anos 80, é muito importante por mostrar que era possível plantar uma cultivar de ambiente temperado nos trópicos. O que mudou a vocação agrícola brasileira e nos tornou um dos maiores produtores de soja do mundo. Se um dia você passar por uma dessas grandes plantações de soja, saiba que sua produção, em boa parte do Brasil, era considerada comercialmente inviável até essa cultivar surgir.

Assim, sempre que fizer compras no mercado ou na feira, procure os itens com um BRS no início do nome. Se encontrar, lembre-se de que aquele não é apenas um produto plantado no Brasil; foi pesquisado, desenvolvido e patenteado por pesquisadores brasileiros. Talvez você se surpreenda.

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