Sim, eu sou um desses que gosta de ir à feira. Meus motivos vão além de economizar no restaurante, ter comida fresca e fugir dos ultraprocessados. Ainda que já sejam boas razões. Apesar do esforço despendido, admito que até sinto falta quando não vou.
Há anos eu vou à feira todo o fim de semana. Para ter muitas opções, gosto de ir à Ceasa, as centrais de abastecimento, criadas nos anos 60. Lá encontro orgânicos, produtos de agricultura familiar, frutas de gigantes do agronegócio; tem de tudo. Se for calcular o trabalho todo, eu carrego uns 20 quilos por umas boas centenas de metros e ainda pago por isso.
Hoje em dia é possível resolver tudo no supermercado, sem intermediários entre eu e os produtos e usando um carrinho para carregar as coisas. É muito mais confortável do que carregar nos braços e ainda posso pagar com ticket alimentação. Porém, com o tempo, eu descobri meus motivos, os óbvios e os nem tanto.

Os benefícios óbvios
O primeiro aspecto é da exploração e experimentação: testemunhar esse pequeno milagre cotidiano de viver em um país continental, com grande biodiversidade e uma poderosa produção agrícola ao descobrir uma fruta, legume ou hortaliça nova (para o meu cardápio). Também há um certo orgulho e sensação de pertencimento em ver os resultados do trabalho em pesquisa e transferência de tecnologia chegando à sociedade. Como ver a sigla BRS em certos produtos (todo mundo tem suas vaidades).
Do ponto de vista sensorial tem muito estímulo, como tocar, cheirar, sentir para ver se determinado produto presta para consumo. Ver a variedade de comidas de outras regiões ou mesmo de outros países que são adaptadas às condições e gostos locais, conhecer temperos diferentes ou degustar queijos e produtos novos. Essas experiências que explicam por que todo bom restaurante começa seu trabalho na seleção dos ingredientes.
Os benefícios não tão óbvios

Outro aspecto me influencia até mais, as pessoas: Caminhar pelas bancas de feira significa cumprimentar, conversar, eventualmente negociar, pagar, agradecer, desejar bom fim de semana e seguir para repetir o mesmo processo na próxima banca. Algo que os mineiros sintetizam com o belo verbo prosear.
O hábito de prosear é tão arraigado que, em certos lugares do interior, é praticamente uma regra de etiqueta prosear um pouco com o feirante a cada compra. Quando meu pai ia fazer compras em Minas Gerais, me lembro que o vendedor de leite (o dono da vaca) sempre nos convidava para entrar em casa, tomar um café e conversar amenidades. Essa era a “rede social” da época e do local.
Com os anos, descobri que esse exercício de simpatia, mesmo com desconhecidos ou pouco conhecidos, faz bem para a saúde mental. Apesar da carga nos braços e da distância eu geralmente saio da feira de fim de semana com ótimo humor e o esforço ainda vale como exercício leve.
Simpatia, empatia e socialização
A psicologia considera simpatia como uma predisposição emocional para se conectar à pessoas de forma positiva. Essa prática de conexão social reduz o estresse, incentiva a confiança mútua e aumenta a sensação de pertencimento a um grupo. A expressão de simpatia e o retorno positivo, também ser tratado com simpatia, melhora a até a autoestima e autoconfiança.
Junto com essa capacidade de se conectar vem a empatia, a capacidade de perceber e entender os sentimentos de outras pessoas. Juntas, simpatia e empatia disparam diversos processos em nosso cérebro, que melhoram ainda mais as habilidades de comunicação, negociação e também podem nos tornam mais compassivos.
Outro aspecto que é construído com esses pequenas conexões positivas é a sensação de pertencimento. No caso da feira, a sensação que você faz parte de uma comunidade, que se está cumprindo um papel social positivo naquele ambiente. Não é só perceber e tratar bem o outro, é ser percebido e bem tratado, ser visto como alguém digno de estima. A nossa própria noção de identidade é influenciada pela como somos vistos pelos outros. A sensação de pertencimento nos influencia positivamente.
A capacidade de criar conexões sociais positivas está profundamente enraizada no ser humano. Não nos tornamos mais capazes e inteligentes para cooperar, é a cooperação que nos tornou mais capazes. E por isso a simpatia e a experiência social positiva nos faz tão bem.
Somos seres sociais. Como diz o Yuval Hariri foi a nossa capacidade de cooperar nos ajudou caçar grandes animais, plantar e ter um excedente de nutrientes que nos permitiu desenvolver civilização, escrita, cidades e até foguetes hoje em dia.
Uma outra forma de observar esses benefícios está no impacto da ausência deles. A falta de contato humano, o isolamento a falta de convivência positiva pode ser o início de uma caminhada para a depressão.
Meu exemplo pessoal foram os tempos no Reino Unido durante as férias de inverno em que a maioria das pessoas não estava na universidade e eu com família e amigos vivendo há um oceano de distância. Houve dias em que eu falaei umas 30 palavras no dia, muitas delas com o caixa de supermercado. Entendi perfeitamente o conceito de winter blues, ou tristeza de inverno. Não cheguei a ter, mas se tornou uma possibilidade combatida, com ligações online e exercícios e ocupação. Tanto que nesse período, nos mesmos mercados eu ignorava o autoatendimento e preferia esperar a fila para o caixa.
Benefícios educacionais
Apesar de levar crianças acrescentar outra carga de preocupação e trabalho. É muito comum ver crianças na feira. Os estímulos sensoriais são imensos, é uma experiência de diversidade biológica e humana e é uma boa oportunidade para mostrar que a comida que elas comem não nasce no mercado. Eu vejo algumas olhando maravilhadas, ou assustadas, para os feirantes anunciando seus produtos em canto e prosa.
Acho que dá uma noção mais positiva de trabalho além de despertar interesse por biologia, economia e logística.
Conclusão
Sei que meu passatempo de fim de semana pode soar estranho. Ainda mais nesses tempos de redes sociais e polarização política, a arte da etiqueta ou simples demonstração de simpatia pode soar antiquada ou mesmo como fraqueza. Coachs recomendam a assertividade e parece ser comum a associação entre grosseria com a sinceridade.
Tratar as pessoas como pessoas, entendê-las e tratá-las de forma positiva é o que levou a humanidade tão longe. É a melhor forma que temos de resolver conflitos. A guerra é arriscada, custosa e deixa cicatrizes e rancores duradouros.
Esse pequeno milagre cotidiano e semanal de ir à feira, conviver com as pessoas traz benefício que vão além da fruteira e geladeira cheia, essas estranhas felicidades da vida adulta.
Vá a feira, mesmo que seja a da vizinhança. Vai ser mais saudável no sentido alimentício e psicológico.
Referências
https://psimarcia.com.br/glossario/o-que-e-sentimento-de-pertencimento/
https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0028393221001767