Sobre alguns tesouros aleatórios do RPG


Introdução

Minhas aventuras narrando RPG para (agora) pré-adolescentes continuam. O que começou com um grupo de 5 jovens aventureiros que precisavam de motivação para ler e ver alguma utilidade na matemática se expandiu para dois grupos em histórias separadas. Sim, eu tive spin-offs.

No total foram 12 jogadores, incluindo a mãe de um deles que pediu para jogar um pouco. A participação de meninas teve um aumento de 100%. Entendia isso como sinais promissores o suficiente, Mas graças a uma conversa com uma simpática e querida neuropsicóloga, aprendi que eles estão ganhando ainda mais.

Adendo para quem estranhar o título

Uma das características de um bom jogo de RPG é ser um pouco, ou muito, imprevisível. Tanto para os jogadores como para quem narra a aventura. Como diz o Luiz Claudio em seu livro Homo Regulans: o RPG é um jogo e também uma criação de história coletiva.

Um exemplo tipíco de recurso para manter essa imprevisibilidade são tabelas de tesouro aleatório. Onde o mestre de jogo joga um dado e compara o número resultante com o resultado da tabela. Aproveitando essa metáfora, o texto a seguir vai descrever alguns dos tesouros que me foram apontados.

Primeiro tesouro: o anel da convivência com a incerteza

Dentre as perguntas que mais faço para os jogadores durante as partidas estão:

  • O que você decide?
  • Eu sei o que você acha. Agora quero saber: o que você vai fazer? (sim, a segunda pergunta é uma ênfase da primeira)

De vez em quando, um grupo ou jogador faz um plano mas simplesmente empaca para executar. Eles tem dificuldade em avançar porque acreditam haver algo a ser definido ou que falta saber para poder agir. Esse loop de indecisão me parece uma paralisia por análise. Essa tendência ainda parece ser agravada porque no jogo a incerteza é algo bem visível, muitas ações e consequências são roladas no dado. Eles sabem que é possível que saia um resultado ruim e, a depender da situação, os personagens dos jogadores morrem.

Nesses momentos, minha resposta para eles é que tudo na vida é desse jeito: não importa quão bem planejem, algo pode dar errado. Sempre vai haver uma variável que podem ter ignorado. Se existisse planejamento perfeito, a coragem seria desnecessária e nem o melhor estrategista consegue prever tudo. A vida real é planejar e se adaptar de acordo com a situação. Eu explico para eles que, às vezes, a clareza só aparece depois do agir.

O que os assusta é algo que na vida adulta chamamos de segunda-feira no trabalho. Você planeja, cria procedimentos, alinha estratégias e executa. Se der certo ótimo, senão adapta, pede ajuda, resolve… enfim, vai vivendo. No jogo eles podem praticar isso de forma segura e objetiva

Segundo tesouro: a bússola da exploração social

Ainda na conversa com a neuropsicóloga, comentei sobre um dos pilares do RPG: a interação social dos personagens. Descrevi como é possível simular algumas situações sociais e usá-las para ensinar algo. As situações parecem fáceis de serem percebidas por um adulto (eu achava), mas tenho dois exemplos de como isso pode ser difícil para os mais novos

  • Eles encontraram um grupo de bandidos, que começou a tentar intimidá-los com uma série de ameaças veladas. Na verdade, os bandidos eram um bando de covardes que iriam desistir se eles mostrassem resistência. Minha ideia foi mostrar ao grupo que existem diferença entre gente que se faz de perigosa e realmente perigosa e que saber essa diferença é muito importante.
  • Fiz o grupo lidar com alguns seres que foram extremamente elogiosos, à beira do submisso, mas na verdade eram traiçoeiros. Um membro do grupo avisou isso, mas o resto se deixou levar. Serviu para eles entenderem que nem todo mundo que te trata bem é seu amigo.

Segundo minha simpática amiga, experiências com situações variadas, muitas das quais seriam perigosas no mundo real, servem para dar instrumental para os jogadores aprenderem de forma ativa e depois levarem essa experiência para o mundo real. É o que já conheci como aprender através de experiências em primeira mão, a aprendizagem experiencial. Essa experiência em primeira mão, tem um impacto muito maior que qualquer conselho de adulto. Esse instrumental que eles ganham aumenta a capacidade de adaptação.

Terceiro tesouro: O manto da experimentação

Segundo o rpg.terapia no momento em que os jogadores estão interpretando personagens eles podem experimentar comportamentos que geralmente não teriam. Mais do que fazer, eles podem sentir, assumir esses comportamentos num ambiente seguro como um mundo de fantasia.

A beleza do jogo é que existe a sensação de risco porque há o vínculo emocional entre jogador e personagem, mas ele é apenas uma sensação. O que torna a simulação muito mais motivante. Um introvertido pode experimentar um bardo extravagante ou uma pessoa falante pode experimentar um monge silencioso e aprender. Algo especialmente interessante para adolescentes procurando seu lugar no mundo.

Quarto tesouro: A coroa da flexibilidade cognitiva

Essa flexibilidade é definida como a capacidade de um ser humano adaptar crenças e ações diante das mudanças no seu ambiente. Quanto maior a flexibilidade cognitiva maior a capacidade de resolver problemas de formas variadas, adaptar-se a situações diferentes da própria experiência ou mesmo mudar o foco de uma tarefa para outra.

Acredito que essa flexibilidade é essencial para conseguirmos lidar com a dissonância cognitiva. Um fenômeno psicológico que ocorre quando nossas crenças ou atitudes são questionadas o colocadas em cheque. Pode parecer algo simples, mas quanto mais arraigada a crença, mais sofrida essa dissonância se torna.

A pandemia de covid-19 ilustrou muito bem para mim o estrago que a dissonância pode provocar. Pessoas morreram porque preferiam se expor a um vírus em vez de mudar seus hábitos comuns, como fazer exercício em academias, encontrar pessoas ou a usar máscaras. Mesmo uma alta inteligência pode falhar em lidar com a dissonância se houver pouca flexibilidade cognitiva. Pessoas inteligentes passam a inventar ou acreditar em teorias de conspiração intrincadas no esforço para manter suas crenças no lugar frente à um evento incomum. A retórica delas pode piorar a situação.

Lembrando da teoria de Darwin: a evolução não privilegia o mais forte ou o mais esperto, mas aquele que melhor se adapta. A meu ver, a evolução humana se deve não apenas a inteligência, mas também a essa flexibilidade cognitiva.

Dentro de um jogo de RPG, acredito que um bom narrador é capaz de criar inúmeras situações que vão exercitar a flexibilidade cognitiva dos jogadores, seja em criando situações sociais, experimentação ou a convivência com a incerteza.

Conclusão

Comecei para incentivar esses grupos a praticarem um pouco de matemática, leitura e probabilidade de forma divertida. Porém, como comentou a minha querida amiga neuropsicóloga, o aprendizado potencial oferecido nessas situações é imenso. Um exemplo de estudo desse potencial é o projeto de extensão Homo Ludens, realizado pelo departamento de psicologia da Universidade de Brasília (UnB).

Claro que muitos narradores e jogadores sequer imaginam que isso pode ocorrer dentro de uma prosaica diversão com dados e papel. Portanto, espero que além do incentivo ao jogo os jogadores e narradores experientes percebam a incrível oportunidade que tem à sua disposição.

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