No último episódio contei um pouco sobre minha experiência em incentivar a leitura por meio de RPG para um grupo de alunos de nível fundamental. As aventuras com meu pequeno grupo continuam. Os jogos estão rendendo muita prática de leitura, demanda para que eu evolua minha forma de narrar o jogo e alguns aprendizados inesperados, para mim e para eles.
Sobre aprendizagem e jogos
Uma das belezas da aprendizagem baseada em jogos é que o erro não é algo a ser evitado, mas uma fonte de experiência e aprendizado. Essa abordagem me abre espaço para ser razoavelmente impiedoso. Para eles é emocionante porque há risco, já que podem perder um personagem com o qual criam mais vínculo emocional a cada aventura e ao mesmo tempo eles estão num ambiente seguro onde podem experimentar. O que significa aprontar o que quiserem e ver o que acontece. Essa consciência do que podem fazer é variável mas eles também aprendem com a experiência dos colegas, o que aumenta ainda mais as oportunidades de aprendizagem. Da minha parte, eu evito corrigi-los, meu foco está deixar fazerem o que quiserem e obrigá-lo a lidar com as consequências de seus atos. O que me rende uma abordagem de narração próxima ao teatro do improviso.
Dentre as características legais do RPG está o fato de ser um jogo de equipe: eles planejam, cooperam, discutem e percebem que em grupo vão mais longe do que iriam sozinhos. Como observado por Peter Gray, a prática de brincar entre mamíferos cumpre uma função evolutiva ao promover o desenvolvimento de habilidades e e aumentar os vínculos sociais. Um dos diferenciais de uma certa espécie de primatas da planície africana da qual todos fazemos parte. E o RPG se enquadra perfeitamente nesse tipo de brincadeira.
Claro que o trabalho em equipe também demanda gerência do narrador, especialmente quando o objetivo é que todos aprendam alguma coisa. A habilidade de leitura dos jovens aventureiros é variável e percebi que, em momentos de tensão, eles tendem a se especializar deixando a leitura para os que lêem mais rápido. Para nivelar as oportunidades e obrigar todo mundo a ler passei a definir que certas informações só estariam disponíveis de acordo com as características e competências de cada personagem: questões de magia seriam lidas por magos, de natureza por druidas e de armas ou táticas por guerreiros. Aproveitei a motivação para manter meu foco em incentivar eles a ler, disposição e leitura são fundamentais para jogar.
Os jogos
A cada crise os meus jovens jogadores conversam com o mesmo afinco dos engenheiros tentando salvar a Apolo 13. Particularmente gosto muito de assistir as discussões, os livros buscados e folheados e os planos montados em cima da hora. Muitas vezes eu nem precisei me preocupar em criar a aventura, pois eles mesmos já arranjavam a própria encrenca. O que é um bom sinal, pois mostra a disposição de tentar, explorar, inovar e arriscarem juntos.
Um aspecto divertido é ver como eles se mostram durante a experiência. É como ser um antropólogo numa tribo ou um cinegrafista de natureza, eu tento me tornar invisível para que eles fiquem a vontade. Quando surgem os palavrões que geralmente não seriam pronunciados nas conversas com um adulto presente eu sei que estão no jogo. O descolado pode se mostrar inseguro e evitar riscos, o análitico apresenta rompantes de empolgação e parte para cima enquanto o tímido se dispõe a manobras arrojadas e imprevisíveis. Alguns tentam ser líderes enquanto outros se mostram hábeis em procurar consensos e acabam dirigindo o grupo. É impressionante ver o que eles conseguem fazer quando o adulto de plantão para de tentar controlar as coisas, como diria o Peter Gray, um conhecido defensor o livre brincar e referência comum por aqui.
As surpresas
A motivação para a leitura já rendeu frutos divertidos. Um jogadores dos que mais reclamava de precisar ler para jogar um dia me perguntou o que eu faria se o pai dele comprasse o livro de regras e ele lesse o livro todo. Meras 350 páginas para quem está sofrendo com parágrafos. Eu respondi com uma fingida cara de mau humor, daquelas de vilão com o seu ponto fraco descoberto, dizendo que não poderia impedir ele de usar o que aprendesse no jogo. Admito que fiz um grande esforço para não sorrir. Outra foi um dia em que vi o aprendizado de padrões. Se numa determinada sessão caíram em uma emboscada, semanas depois foram capazes de perceber os discretos sinais de uma outra que armei cuidadosamente e, para minha surpresa, eles perceberam e armaram um contra armadilha para pegar seus pretensos atacantes.
O caso que mais me supreendeu foi quando eles conseguiram capturar dois goblins e começaram a interrogá-los. Eu passei a atuar conforme a descrição do livro sobre o comportamento de goblins nessa situação: mentir, bajular e trair seus captores assim que surgir uma chance. Aproveitei anos de experiência corporativa observando aspones atuando e usei contra a equipe: cobria eles com elogios, bajulação rasa e asquerosa dizendo obviamente o que eles queriam ouvir. Eu pelo menos achava que estava sendo óbvio.
Porém, bastaram alguns minutos e um deles já estava com o peito tão estufado de orgulho que achei que iria virar um pombo. Outros dois começaram a criar afeição pelos prisioneiros. Apenas um, que havia lido sobre o comportamento das criaturas avisou de que os goblins não eram confiáveis e certamente iriam trair todo mundo assim que pudessem. Mas a única voz da razão foi voto vencido. Eles não apenas aceitaram os goblins no grupo como resolveram que iriam enfrentar o líder deles para libertar seus “novos amigos”.
Para ilustrar o impacto dessa decisão: o grupo estava voltando para um local seguro e mudou tudo por causa de dois pequenos calhordas flagrantemente enganadores, apontando para o que era uma armadilha óbvia. Eu queria ver como isso ia continuar e segui dando corda, mas por dentro estava simplesmente abismado.
Para deixar claro, já ocorreram várias sessões de jogo, eles já tem alguma experiência e me vêem mais como um antagonista do que um narrador neutro. Chegavam a discutir planos entre eles e me apresentarem o plano apenas no último segundo, pois desconfiavam de mim. Mera inexperiência com o jogo ou a história, não explica a reação do grupo. Eles já haviam enfrentado goblins antes e leram várias vezes sobre as características das criaturas. Os jogadores não são idiotas, pelo contrário, até aquele momento já haviam demonstrado ter boa articulação, táticas e argumentos. Um deles já havia até me corrigido, com razão, em uma questão de regras e escaparam de emboscadas. Considerando a idade, acho que todos são inteligentes e racionais, mas estava vendo em primeira mão como desenvolvimento cognitivo e desenvolvimento emocional não necessariamente seguem juntos. Estava sendo lembrado que eles podem estar no limiar da adolescencia, mas ainda há muito de criança neles.
Eu segui dando dicas das reais intenções dos goblins, mas o grupo seguiu confiante, apenas um seguia desconfiado. Os outros estavam tão embebidos pelos elogios que chegaram a dar um cobertor para os goblins na hora de dormir. A imensa ironia é que o jogador que desconfiou está no espectro do autismo, eu achei que ele seria justamente quem não perceberia uma sutileza social e emocional como essa quando, na verdade, foi o único capaz de usar informação para referendar sua decisão. O resto seguiu enganado por seus sentimentos.
Como eu havia me decidido desde o início a ensinar através da experiência e não do direcionamento, deixei as coisas seguirem. O impacto educativo da consequência geralmente é muito maior que o do conselho. O resultado foi que eles entraram no covil dos goblins e foram pegos pelo líder goblin e seus capangas, sob a risada maléfica dos pequenos traidores. Deixei eles passarem uma semana com o gosto do problema que arranjaram por terem confiado em quem não deviam. Pode soar cruel, mas acho muito mais seguro que isso ocorra no ambiente seguro de um jogo. Assim, eles aprendem como os elogios podem manipular nossas vaidades e quem nem todo mundo que te trata bem é seu amigo.
Sim, eles conseguiram sobreviver à encrenca que arranjaram.
Conclusão
Os aprendizados seguem e todos estão satisfeitos, inclusive eu. Entendo cada vez melhor porque jogos são tão usados para diagnóstico e tratamento em psicologia e a incrível vantagem disponível para os pais que jogam com seus filhos. É possível perceber atitudes, novas habilidades, limitações que eles nunca conseguiriam verbalizar ou que os adultos seriam capazes de perceber de outra forma. Sem contar que é uma forma poderosa de criar vínculos significativos e ensinar sem sermões.
