RPG e Crianças


Um amigo estava preocupado com o pouco interesse do filho com leitura. Tenho que concordar que esses tempos atuais e sua infinidade de vídeos e jogos digitais são uma concorrência pesada para nossos pobres livros infanto-juvenis e brincadeiras.

Procurar um assunto interessante poderia ajudar, mas pensei que seria ainda mais útil arranjar uma situação em que a leitura se demonstre interessante e útil. Assim, começei a narrar uma campanha jogo de RPG de mesa para alunos do 5o. ano do ensino fundamental de uma escola particular, ou como diz o jargão da área “mestrar”.

O RPG

RPG se refere ao termo inglês, Role Playing Game ou jogo de interpretação. É um gênero surgido nos anos 70 onde os jogadores assumem o papel de personagens em um cenário fictício, geralmente de fantasia ou ficção científica. O jogo funciona por meio de dados e fichas que definem a capacidade dos personagens apoiados por livros que descrevem o ambiente e detalham as regras. Na versão “de mesa” ou “papel e lápis” as disputas são resolvidas nos dados, o ambiente é descrito de forma simplificada pelo narrador ou mestre e as características dos personagens anotadas em fichas. Quem dá todo o colorido ao processo é a imaginação e interação entre os participantes. Geralmente são jogos cooperativos: os jogadores lutam contra o ambiente proposto pelo narrador. No caso do RPG o foco é narrativo, uma história é proposta pelo narrador, os personagens dos jogadores interagem com essa história e o resultado é uma história construída de forma coletiva. Algo que já vem até influenciando a forma de se produzir histórias, como demonstrado em Vox Machina. O qual me diverte, mas não recomendo para meus jogadores de jeito nenhum.

Aviso: há boas razões para a idade recomendada ser bem alta.

Como existem muitos sistemas de regras eu escolhi o Dungeons and Dragons (D&D), o primeiro sistema criado e ainda o mais jogado do mundo, atualmente em sua quinta edição. Isso não significa que ele seja o melhor e há milhares de outras opção. No caso, eu o escolhi pela diversidade de material e porque nessa edição houve um certo trabalho de simplificação, que torna o jogo mais ágil e convidativo para iniciantes. O que seria interessante para um grupo que nunca jogou e provavelmente não tem grande fluência com leitura. O D&D se apóia em três características principais:

  • exploração (do ambiente proposto pelos livros e pelo narrador);
  • interação social (entre outros jogadores e personagens não jogadores interpretados pelo narrador) e
  • conflito (combate e superação de obstáculos dentro do ambiente de jogo).

O objetivo principal de um jogo de RPG é divertir os participantes. Da ambientação aos livros de regras, tudo está focado em que a experiência seja divertida. Como proposto pela “regra do legal” (rule of cool): se o narrador ou os jogadores quiserem fazer algo legal, que o façam. Mesmo que isso vá além das regras, não seja coberto por uma mecânica de jogo estabelecida ou quebre alguma regra. Obviamente isso deve ser feito com parcimônia para não desmanchar o jogo todo.

O RPG está num bom momento. Além do trabalho de milhares de pessoas oferecendo sugestões a comunidade se adaptou bem aos atuais recursos de comunicação. Alguns sites, canais de video e podcast feitos por gente competente e carismática capaz de captar essa vibe que faz o jogo ser tão ou mais divertido que uma noite de poker e muito mais do que apenas rolar dados e mover miniaturas.

O potencial pedagógico

Existe muita gente boa que pode falar do assunto em mais detalhes do que eu. O jogo é altamente imersivo e por não ser um jogo digital, várias atividades mentais não podem ser terceirizadas para um computador. Para conseguir jogar é preciso não apenas ler, mas também pesquisar, navegar por diversos livros, aprender a usar um índice remissivo, escolher as informações relevantes (tem informação para todo o lado), avaliar probabilidades (o jogo depende de vários tipos de dados), conversar com o narrador, jogadores e fazer as quatro operações matemáticas básicas, com muita frequência.

Dessa forma, o jogador fica motivado. Para jogar será preciso exercer várias atividades que são simples para um adulto, mas um esforço para os mais novos e um bom exercício de fixação de habilidades recém aprendidas e que geralmente não costumam mostrar muita serventia fora dos muros da escola. Com a vantagem de que os jogadores estão exercitando esses conhecimento e habilidades num ambiente de grupo, há uma dimensão social nessa aprendizagem que faria a alegria de Vygostky.

A preparação

Passei os dias antes do jogo enviando alguns materiais bem resumidos para eles pensarem nos personagens que queriam fazer. Evitei oferecer todo o leque de opções disponível mas achei importante dar espaço para eles pensarem nos personagens. Mesclei isso com informações sobre a situação em que eles viviam e como se conheceram para dar mais contexto para eles pensarem.

Optei por essa “liberdade limitada” para que eles criassem os vínculos com os personagens e também deixar o trabalho de criação de ficha simples o suficiente não afastá-los. O aprendizado do mínimo de regras necessário para começar um jogo é um dos assuntos mais subestimados nos jogos em geral e um dos grandes limitadores na difusão de jogos de tabuleiros e RPG’s. Como dito em Homo Regulans: a leitura e explicação de regras requer uma habilidade e disposição específica. Tanto que muitos jogadores costuma a ser ou ter um amigo explicador de jogos. Alguém que está para os jogos como um bom churrasqueiro está para o churrasco da galera.

Eu emprestei para os futuros jogadores alguns livros da Coleção Jovens Aventureiros que soam um tanto básicos para adultos, mas são excelentes para despertar o interesse dos novatos. Não são livros essenciais para quem quer começar a jogar, apenas são menos áridos que os livros básicos e servem mais como material de estímulo. Em paralelo, eu voltei a ler sobre o assunto para compensar os mais de 10 anos que não narrava um jogo. Nesse aspecto o espírito de cooperação existente na comunidade de RPG ajuda muito. Vários amigos meus deram excelentes dicas sobre regras e referências. Esforços como o D30 RPG também são excelentes para difundir o jogo. Além dos livros básicos do D&D li:

Logo eles começaram a ler os livros juntos e soube que conversavam sobre o assunto no recreio. Soube que alguns queriam saber o que “dava mais ponto” mas eu respondia que isso era irrelevante, o mais importante era escolherem personagens que achassem divertidos. Joguei algumas coisas mais para eles pensarem: como avisar que os personagens deles obrigatoriamente se conheceriam, que devem ser uma equipe e deveriam inventar uma história para explicar isso. Também passei a instigá-los com perguntas do tipo:

  • “Como é você? “
  • “O que te levou a ser assim?”
  • “O que você acha do mundo à sua volta e tudo que está conhecendo?”

Eles passaram a comparar as informações de livros diferentes e começaram a criar suas histórias em conjunto. Quer dizer que estavam desenvolvendo habilidades de pesquisa e resolvendo questões em equipe. O que já significa que estavam valendo o investimento.

Não sei se eles já sabem, mas também conversei com a professora deles para saber se a turma abordaria algum conteúdo de história antiga e medieval. Um dos efeitos já observados é que estudantes tendem a ficar mais amigáveis a conteúdos de aula que já viram em jogos.

O jogo em si

Suponho que meus jogadores esperavam algo como nos videogames, com muito combate, mas nas primeiras sessões trabalhei bem a exploração e interação social. Com esse processo começaram a surgir as oportunidades de aprendizagem.

Quase todos escolheram personagens não-humanos, alguns bem incomuns ou que sofrem preconceito social. Uma escolha que achei interessante e me parece refletir o desejo de exploração. Em uma das primeiras partidas um deles reagiu indignado quando percebeu a reação preconceituosa de alguns personagens não-jogadores que eu criei. “Estou sendo discriminado!” ele disse. Foi quando eu percebi que tinha uma excelente oportunidade de mostrar o que é preconceito para um grupo de alunos de classe média-alta que estudam em uma escola particular no centro da cidade.

Como eu observei nos eventos do D30, jogar com crianças demanda habilidade, o tempo de concentração é curto. Houve momentos em que eles ficavam tão animados que levantavam e quase corriam em torno da mesa. Como meu objetivo não é transformar a jogo numa aula, deixava eles gastarem o excesso de energia um pouco e depois puxava de volta para o jogo. Felicidade de mestre é ver a aventura rendendo. Deixei eles terem o medo do combate, o prazer da vitória e o risco da derrota.

Conclusão

Até o momento a experiência tem sido excelente. Eles estão adorando e praticando habilidades úteis para o futuro. Conheço gente que considera o RPG uma experiência positiva na carreira profissional, especialmente em gestão. Nesse aspecto, tem até empresa que advoga seu uso para desenvolver equipes de alta performance e, claro, eu estou me divertindo também.

2 comentários em “RPG e Crianças

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    1. Bondade sua Zé, fica meu agradecimento pelo serviço público (no sentido amplo) feito por você e a galera do D30. Ao difundir os RPG vocês estão oferecendo uma opção de diversão, aprendizagem e saúde mental.

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