
Nome científico do ser humano é homo sapiens sapiens. Eu acho o segundo “sapiens” especialmente importante porque deixa claro que não apenas sabemos, mas que temos consciência disso. Nossa espécie “sabe que sabe” e é capaz de refletir sobre isso. O que talvez seja uma das nossas características mais singulares.
Um dos efeitos da capacidade de refletir é que podemos pensar no longo prazo. Pensar além da sobrevivência e do momento presente. Refletir sobre o rumo tomado e, como diriam os executivos, pensar no estratégico dos anos, ir além do tático dos dias e do operacional do momento presente.
Por força das circunstâncias tive uma pequena pausa no trabalho para respirar e aproveitei esse momento para refletir e perceber que estou na mudança de eras descrita no título acima. Essa é uma reflexão especialmente profissional, com uma inevitável salpicada do pessoal.
O mestrado
Se nos anos 00 eu estava lutando para me consolidar como um designer gráfico e posso dizer que minha última mudança de “era” foi em 2011. Para ser mais exato, esse ano foi o final de um ciclo que teve seu auge em 2010, quando fiz o mestrado em Southampton. Ele marcou uma mudança definitiva de direção na minha carreira, do Design Gráfico para a Educação.
Sou um sujeito que gosta de mudança incremental, não houve ruptura. Afinal, até a mudança é um processo e não uma marca arbitrária em que tudo muda de um período e outro. Acrescentei o foco em educação que já vinha se delineando desde 2006, quando fui professor numa universidade particular. Descobri que gostava de ensinar as pessoas e ainda acredito que esse país realmente precisa educar melhor. Porém, sempre achei que haviam formas mais eficazes de fazer isso.
Eu continuei trabalhando com design, mas meu foco passou a ser desenvolver materais educacionais inovadores, como foram os jogos. Meu ano em Southampton foi justamente para desenvolver um desses materiais: o jogo sobre Cerrado que seria a base do projeto alguns anos à frente. De volta ao Brasil, eu não apenas finalizei o jogo, como também apresentei minha dissertação me casei e tive um filho. Realmente foi um ano animado e o tempo das festas e baladas acabou. Submergi feliz na construção de uma família e de outras coisas mais.
O pós-mestrado
Nos anos seguintes fiz a experiência render na forma de alguns artigos e passei a minha fase de campo, participando de vários eventos com o jogo. Descobri que produzir um jogo educativo é parecido com a escrita de um livro: Se escrever um livro já é um trabalho, conseguir que o livro seja lido é outro completamente diferente e tão importante quanto. O pessoal de marketing diria que ser lido é até mais importante que escrever.
Essa foi a fase de participar de eventos, alguns foram ótimos, em outros vi as limitações de uso do jogo. Foi uma fase um tanto solitária, levando uma ou duas unidades, aplicando entre algumas pessoas e indo embora. As reações eram boas, mas sentia que faltava algo. Foi quando percebi que seria preciso estudar estratégias para emprego de materiais educativos em escolas.
O projeto
Apesar de também pensar em outras iniciativas, ainda faltava algo mais ousado e rigoroso. A literatura técnica fala muito sobre o uso de jogos educativos mas existem poucos estudos se eles funcionam e, como já havia observado, qual a melhor forma de fazer um jogo funcionar em sala de aula. Após algumas tentativas fracassadas consegui me tornar líder de um projeto de divulgação científica. Entre 2017 e 2020 criei uma equipe, fizemos muitas dezenas de unidades do jogo, alguns milhares de unidades de livros e percorremos escolas públicas aplicando o jogo e livros por escolas públicas. Descobri que existe um mundo muito maior que qualquer escritório ou livro possa descrever. Ainda estou escrevendo sobre os resultados, que foram vários. Mas acredito que fechei o ciclo: criei, apliquei e avaliei se o jogo era uma experiência positiva (é).
Dos aprendizados que tive, observei que só podemos fazer algo maior que nos mesmos em equipe, com o agravante de serem equipes multidisciplinares. O que significa que é preciso lidar com pessoas com conhecimentos, agendas e valores diferentes de você. Isso enriquece muito o trabalho, pois pessoas diferentes pensam coisas que a gente nunca pensaria. Por outro lado, isso demanda a humildade de aceitar que não se sabe tudo, diposição para navegar por mares desconhecidos aceitando outras pessoas como guia e foco para não se perder dos seus objetivos. Em uma palestra me perguntaram qual era a capacidade que mais me foi demandada nesses meio tempo. Suponho que esperavam algo como criatividade ou determinação, mas a minha resposta sincera foi negociação. Como meu pai me ensinou uma vez: todo mundo negocia para ganhar (atender os seus objetivos) mas não se pode ganhar tudo ou não negociam mais com você. Assim, é preciso dar algum espaço para o outro.
Os livros
O lado bom foi que meu trabalho começou a ser notado, rendendo oportunidades que eu não esperava, como o livro paradidático, A Macaúba Amiga. Nunca havia me ocorrido voltar a escrever histórias, coisa que eu não fazia desde os tempos que escrevia contos na universidade. Aliar o gosto por escrever, com o conhecimento adquirido em educação e a prática em design rendeu situações inusitadas. Como ser um dos raros caras que escreveu e diagramou o próprio livro. Não ilustrei, mas a experiência tornou a seleção e a conversa com os ilustradores bem mais fácil. Além de ser uma mudança de papel interessante, ser o designer que instrui outros designers. Algo que se repetiu com o Mundo Aquático Submerso e 3 Famílias e o Fogo. Vou me dar por feliz se não tiver sido o tipo de cliente que eu detestava: aquele que acha que os profissionais são essencialmente impressoras de coisas bonitinhas que eventualmente reclamam.
Por consequência, passei a ver o uso de ficção como ferramenta de divulgação científica algo promissor. Consegui ter um conto publicado no concurso da ABIPTI. Seriam dois, mas as regras não permitiam. De qualquer forma, eu tenho outras ideias que precisam que novos projetos para fazer ninho.
Os marcos divisores
No final das contas, passei a ser chamado quando alguém precisa pensar em material de divulgação científica para público infanto-juvenil, até consegui escrever sobre o assunto. Também fui procurado quando a ressurgiu a demanda por Ensino a Distância (EaD), um dos vários efeitos da pandemia. Creio que é justo dizer que consegui me tornar uma referência em material educativo entre os meus pares.
Nesse meio tempo comprei uma casa, a maior parte foi financiamento, o banco devolveu minha alma quando tudo foi pago. Piadas à parte, fazer isso como casal é muito mais eficaz e seguro que pagar solitário. Questões economicas à parte eu também sou muito feliz casado. Tanto que nesse meio tempo a família até aumentou, o que foi ótimo mas dá um trabalho do cão, e a demanda por uma nova casa surgiu. O que se tornou um excelente divisor entre as minhas eras.
Conclusão
Saber de onde eu vim é muito útil para saber se quero continuar nessa estrada e definir para onde eu vou. A reflexão é excelente esboçar quem somos, nos tornamos e o que queremos ser no futuro.
Agora, além de uma casa e uma família maior preciso tentar algo mais. Pretendo aumentar a escala de pessoas atendidas pelos meus materiais. Ainda não me decidi como, estou entre cursos online, contos de ficção científica e jogos digitais. O que eu conseguir está valendo. E creio que essa foi uma das coisas que funciona comigo. Eu não tenho um plano megadetalhado, mas algumas diretrizes estratégicas que me norteiam e minhas táticas geralmente envolvem incrementos e desenvolmento suave e de pouco risco. A vantagem é que isso me abre espaço para aproveitar oportunidades e a desvantagem é que o progresso pode ser lento. O que demanda uma determinação de longo prazo.
De qualquer forma, chego ao fim dessa era cumprindo minhas diretrizes razoavelmente bem. O que não é pouca coisa se considerar o estado deprimente do país e do mundo em volta. Agora é momento de planejar e avançar de novo.
Excelente relato irmão. Emocionante, vou compartilhar o link!
CurtirCurtido por 1 pessoa