Outros tempos: sobre um jogo de tabuleiro e uma epidemia


Hoje estamos lidando com os milhares de mortos pelo COVID-19. Dentre os vários desafios para enfrentar a situação, manter a disposição e a saúde mental é algo difícil. Nesse aspecto o uso de jogos de tabuleiro pode soar como algo banal, mas a história mostra seu valor até mesmo nesses momentos. Na verdade, Alexander B. Joy mostra que tem até jogo que surgiu para lidar com epidemias e não estou me referindo ao Pandemic.

Outros tempos outra doenças

Há mais ou menos 70 anos uma outra epidemia se alastrava pelos Estados Unidos, a poliomielite. Graças às vacinas a pólio foi praticamente erradicada. Mas seus sintomas eram sérios e já foi, com razão, muito temida. O vírus ataca os nervos e destrói o controle muscular, resultando em fraqueza ou mesmo incapacidade física, ou mesmo a morte quando os nervos afetados impediam o funcionamento do diafragma e acabavam com a capacidade respiratória. Muitas vítimas sobreviviam ligadas à equipamentos respiratórios chamados pulmões de aço. Como agravante, não havia cura e não se conheciam os mecanismos de contágio na época.

Como crianças eram especialmente vulneráveis, com efeitos para toda a vida, a doença também se tornou conhecida como paralisia infantil. Nos anos 50, um surto de pólio varreu os Estados Unidos e a situação levou muitas famílias a manter seus filhos em casa. Os mesmos pais dos tempos do mertiolate que ardia e do brincar livre me parecem ser muito mais espertos que certos negacionistas e antivacina de hoje em dia. Assim, enquanto muitas crianças estavam em casa para evitar a infecção, várias outras foram confinadas em hospitais para se tratar a doença.

Um jogo contra a pólio

Numa enfermaria de pólio de San Diego a professora Eleanor Abbott criou um jogo de tabuleiro para facilitar a vida, nada fácil, dessas crianças sob quarentena. A própria professora contraiu a doença e passou um tempo de tratando junto com as crianças. O que certamente ofereceu uma visão clara da situação, necessidades e limitações das crianças em tratamento. Tudo isso somado à experiência como professora.

Imagine como deve ter sido estar num hospital. Entre crianças despreparadas para lidar com o tédio e a separação de seus familiares (doença contagiosa e outros filhos são em casa para cuidar, provavelmente) e para piorar, em alguns casos confinadas à uma cama ou, pior ainda, a um pulmão de aço. Foi nesse contexto que ela desenvolveu seu jogo, que foi testado no mesmo hospital. O que ilustra como situações ruins podem render soluções inovadoras.

O tabuleiro de Candy Land, cortesia do Museu Strong, Rochester NY.

Candy Land é um jogo de corrida, com aquele visual típico de jogo tabuleiro com um caminho sinuoso a ser percorrido. O jogo requer pouca leitura ou estratégia e depende de sorte, o que o tornava adequado para o seu público-alvo infantil, pois é bem fácil de aprender. Pode soar bem clichê hoje, mas é preciso considerar que o jogo foi criado no final dos anos 40. O objetivo era oferecer um momento de diversão e interação entre várias crianças com limitação de movimento sob quarentena, descrevendo um mundo além dos limites de um hospital. O objetivo era ser um passatempo, similar aos jogos causais de hoje. Algo que pode soar banal, mas para os pacientes era um privilégio distante devido à doença. O jogo logo se tornou um sucesso e se tornou o principal jogo a Milton Bradley Company, que foi comprada pela Hasbro nos anos 80 e continua sendo vendido até hoje.

Experiências em primeira mão

O caso mostra como certas soluções podem se mostrar úteis em condições similares. O uso de jogos de tabuleiro nessa situação faz todo o sentido e me lembrou do meu próprio e saudoso trabalho voluntário no hospital da criança, que rendeu alguns eventos no dia da criança e em alguns natais. Eu só parei porque o dia só tem 24 horas e as aventuras na escola comunitária tomam tempo.

Na minha experiência no Hospital eu observei essas características legais dos jogos de tabuleiro que funcionam bem nesse ambiente. Eles permitem interação entre famílias e outros pacientes. Acredito que os jogos de tabuleiro são mais eficazes que os jogos eletrônicos, eles são mais sociais. Um jogo desses é um passatempo num lugar onde tempo livre pode ser um fardo, cria uma situação que iguala pais e filhos e é um momento em família em que a doença que os levou ao hospital não é o assunto. Para quem está fora do hospital, os jogos também são um excelente passatempo familiar. Especialmente nesses tempos de confinamento e para quem está em família com crianças. Ainda que a variedade de parceiros de jogo seja menor.

Conclusão

O momento pode parecer inadequado para algo que soa escapista (que pode ter lá sua função) como jogos de tabuleiro, mas a realidade de hoje e de ontem sugere o contrário. O aspecto psicológico influi no sistema imunológico, nas chances de cura e entreterimento é especialmente importante para quem tem que passar muito tempo isolado. Como nesses tempos de pandemia.

Referência

Candy Land Was Invented for Polio Wards de Alexander B. Joy. disponível em https://www.theatlantic.com/technology/archive/2019/07/how-polio-inspired-the-creation-of-candy-land/594424/
acesso em 6/5/21

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