Como 8 de março é dia internacional da mulher vou aproveitar a ocasião para exercitar meu hábito de divulgar histórias que considero incríveis e pouco contadas. Como o caso de Nieves Fernandes, uma professora filipina que teve sua vida transformada em 1941 quando os japoneses invadiram seu país durante a segunda guerra mundial.
A ocupação foi truculenta até para os padrões de uma ocupação. Os japoneses tomaram posse dos bens dos filipinos, que foram proibidos de terem negócios e de ensinar qualquer coisa que não fosse expressamente autorizada. Para provar seu ponto, soldados japoneses chegaram a mergulhar donos de negócios em água escaldante, entre outras torturas. Segundo Nieves, os japoneses podiam pegar o que bem entendessem, inclusive pessoas. Quando os soldados chegaram em Tacloban, capital da província da Leyte e ameaçaram matar seus alunos a professora fez algo que parecia suicídio.
Vestida de preto, descalça e armada com uma espingarda improvisada, uma faca bolo (facão de uso comum nas Filipinas, similar à machete, geralmente usado em agricultura e jardinagem) a até então maternal professora foi para a floresta e começou a atacar soldados inimigos. Essas armas eram, outra “especialidade” filipina. Como é um país marcado por invasões e ocupações existiam restrições severas sobre o uso de armas. Assim os Filipinos aprenderam improvisar, as espingardas eram feitas de canos, pólvora e pregos. Adequadas para tiros a curtas distâncias e demandavam pouca mira. Além da desagradável e notória familiaridade local com lâminas. Assim, essa professora seguiu a longa tradição local de guerrilhas e durante anos emboscou soldados sozinha na floresta e ficou conhecida como “A assassina silenciosa”. O estrago provocado por essas emboscadas foi sentido pelos ocupantes, que chegaram a oferecer uma recompensa para quem a entregasse.
Suponho que a floresta era o local perfeito para a guerrilha, ainda mais com o conhecimento de terreno que ela tinha. Os fuzis e longas baionetas japonesas deviam ser desajeitadas no ambiente fechado da floresta e a visibilidade reduzida devia ajudar uma pessoa disciplinada o suficiente para se aproximar sem fazer barulho. O termo “silenciosa” sugere que ela devia usar sua faca bolo com frequência, uma prática que pode ter vindo das artes marciais filipinas e também da jardinagem. Ainda assim, a coragem e habilidade de “Miss Fernandes” é impressionante os riscos eram enormes e os oficiais japoneses tinham katanas (espadas japonesas). Ela era conhecida por sua precisão em acertar a carótida ou a jugular, garantindo uma morte rápida.

Mas além de uma guerreira habilidosa é preciso lembrar que ela também era uma professora. Várias pessoas da região de Tacloban se juntaram a ela suas habilidades didáticas treinaram uma força de guerrilha. Aos 38 anos, a então capitã Nieves liderava uma força de 110 guerrilheiros que ficou conhecida como “The gas pipe gang” (A gangue do cano de gás) em referência às armas que usavam. De armas de fogo reais eles tinham apenas 3 fuzis americanos e o que fosse capturado dos japoneses. Além de emboscadas e ações de sabotagem, Nieves libertou prisioneiros de guerra, vilas inteiras e dúzias das infames “mulheres de conforto”, cidadãs que foram transformadas em escravas sexuais pelas forças do império japonês.
Como em outros casos essa foi outra heroína pouco lembrada. Um artigo da Associated Press escrito quando os americanos retomaram as Filipinas em 1944, foi o único registro conhecido da época. Na entrevista a própria Nieves disse que aquelas eram histórias do tempo em que ela era “a Capitã” e que com o fim da guerra voltaria a ser apenas “Miss Nieves”.
Professora é um estereótipo feminino bem comum. Porém, como demonstrado nessa e em outras histórias, mulheres foram capazes de se adaptar e crescer frente à situações impensáveis, muito além do que era esperado. É justo que essas histórias não sejam esquecidas e se tornem uma inspiração para o futuro.
foto: A capitã Nieves demonstrando sua técnica para um soldado americano, em 1944. foto: Stanley Troutman.
Excelente tópico, cara! Conheço pouco sobre a ocupação das Filipinas, a não ser a informação de q os japoneses conseguiram, em cerca de três anos, matar dois milhões de pessoas, o que acabou produzindo um dos maiores movimentos de resistência de todo o teatro do Pacífico, e q um dos poucos oficiais japoneses executados por crimes de guerra foi o comandante de lá.
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Legal saber que gostou. Como as Filipinas são um arquipélago eles tem uma longa história de invasões, ocupações. Só na época moderna foram os espanhóis, americanos e japoneses. Porém, o ambiente e a experiência geraram um povo bem adaptado à luta de guerrilha. Tanto que criaram seu próprio grupo de artes marciais, com ênfase no uso de armas improvisadas. Mas confesso que não sabia que o número de mortos da Segunda guerra foi tão alto.
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