Em 2019 foi lançado o livro Três famílias e o fogo: um encontro no Cerrado. Essa publicação foi o resultado de um trabalho para o Projeto “Queimadas e Recursos Hídricos” que analisou o impacto ambiental das cinzas produzidas pelas queimadas.
O trabalho foi um desafio interessante. Afinal, ainda que o fogo, especialmente o incêndio, seja um assunto presente no notíciário, é algo um tanto distante do cotidiano da maioria dos alunos. Especialmente os estudantes de nível fundamental de área urbana. Assim, era preciso descrever a relação do fogo com a agricultura e seus impactos ambientais com uma linguagem simples e direta. Um exemplo de algo simples que não é fácil. Como agravante eu, como autor, não sou alguém do campo e falaria de gente que não convivo, os produtores rurais. E tudo isso ainda tomando o cuidado para evitar a armadilha de reforçar estereótipos negativos, como demonizar o agricultor.
Os contos de fada
Uma das soluções foi me inspirar nos contos de fada. Eles podem parecer bem prosaicos mas tem um grande potencial pedagógico, longamente explorado pelas escolas.
Os contos de fada são histórias curtas, relatos em prosa de histórias fictícias. As fadas seriam seres que orientam ou alteram o destino dos seres humanos, a palavra vem do termo latino fatum que significa “destino” (Machado, 1994 p.44). Suas origens são variadas e boa parte vem do folclore de diferentes culturas, algumas muito antigas. A primeira coletânea desses contos foi feita pelos famosos irmãos Grimm, publicada no início do século XIX. Para saber mais desse aspecto histórico, recomendo uma excelente revisão de literatura sobre o assunto escrita por Ana Maria Silva.
Tais contos trabalham com um linguagem simbólica que facilita o entendimento. Podem parecer como mera fantasia ou brincadeira, mas brincar é uma das coisas mais importantes que uma criança pode fazer, é seu modo de aprender e entender o mundo. Os contos de fada trabalham para incentivar a curiosidade e, dessa forma, atrair a atenção. Por meio da fantasia desses contos as crianças aprendem conceitos novos. A leitura oferece uma oportunidade para a criança entender o mundo em um nível dentro de sua capacidade de entendimento. Através dos personagens fantásticos, como crianças heróicas, gigantes, bruxas de lobos que representam não apenas aspectos da mente humana, mas também conflitos, problemas e soluções para problemas reais. Como bem explicado por Bruno Bettelheim em: “A psicanálise dos contos de fadas” (2007, p.13):
“Para que uma estória realmente prenda a atenção da criança, deve entretê-la e despertar sua curiosidade. Mas para enriquecer sua vida, deve estimular-lhe a imaginação, ajudá-la a desenvolver seu intelecto e a tornar claras suas emoções; estar harmonizada com suas ansiedades e, ao mesmo tempo, sugerir soluções para os problemas que a perturbam.”
Hoje essas histórias aparecem em diferentes plataformas, como cinema, teatro, desenhos animados. As pessoas adora histórias, tanto que storytelling já virou uma necessidade corporativa uma forma consolidade para ajudar as pessoas a aprender e memorizar
O comportamento humano
O outro aspecto interessante é que foi possível fazer esse livro de forma “científica”. Eu não sou alguém com vivência no campo, sou um sujeito urbano. Como falar em detalhes sobre o comportamento de pessoas que vivem numa realidade diferente da minha sem ser superficial ou mesmo preconceituoso?
A resposta veio do próprio projeto. Um dos elementos do trabalho foi uma pesquisa sobre o comportamento do produtor em relação ao fogo, que foi publicada no boletim de pesquisa e desenvolvimento Aspectos motivacionais para o uso do fogo na agricultura no Distrito Federal e Entorno. A primeira parte de uma pesquisa como essa é justamente a coleta de dados demográficos, que definem coisas como idade, sexo etc. A partir desses dados foi possível criar personagens produtores rurais mais verossímeis similares à realidade do campo. A segunda parte tratou justamente das crenças e opiniões dos produtores rurais em relação ao fogo, os fatores que influenciam seu comportamento. O que foi uma rica fonte de informação para o livro. Isso foi muito importante, afinal um dos objetivos era justamente mostrar como pensa o produtor rural e como ele vê a questão do fogo.
As ilustrações
Esse foi mais um dos meus trabalhos incomuns, mas garanto que fazer o projeto gráfico de um livro de minha autoria é sempre um prazer. Nesse aspecto é preciso se segurar e dar espaço para o ilustrador trabalhar. Um erro comum na relação entre autor e ilustrador é achar que o ilustrador deve materializar a imagem que está na mente do autor. A obsessão por controle mais atrapalha do que ajuda, melhor selecionar um bom ilustrador do que cair numa armadilha do microgerenciamento.
Conclusão
No mais, o trabalho foi lançado num momento necessário, com toda a controvérsia sobre as queimadas da amazônia. O lançamento serviu para chamar a atenção para o trabalho do Projeto Cinzas, além de servir como uma forma de abordar o assunto nas escolas. O programa Terra da Gente, do G1 publicou uma entrevista em que eu falo do livro com uma boa descrição sobre o seu processo de criação. Uma rara chance de falar sobre o “iceberg” que é a produção de um livro.
Referências
BETTELHEIM, Bruno. A Psicanálise dos contos de fadas. Rio de Janeiro: Paz e terra, 2004.
MACHADO, Irene A. Literatura e redação. São Paulo: Scipione, 1994.
Fonte da imagem
Ilustração de Renato Palet/Embrapa