Mineração e explosões no tabuleiro: jogando Quartz com crianças


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Tempos atrás levei meus mais e meu filho para uma noite na Ludoteca BGC, onde gosto de jogar e conhecer novas opções de jogo de tabuleiro. Geralmente pergunto para o pessoal o que me recomendam para crianças e a sugestão foi o Quartz, um jogo de mineração onde cada jogador é um anão fazendo mineração de pedras preciosas em uma mina subterrânea.

O jogo é mais um bom trabalho da dupla brasileira Sergio Halaban e André Zatz, que já tem mais de 30 jogos no currículo. Em essência, é um competitivo jogo de cartas e tabuleiro, onde se deve coletar pedras para obter o maior valor possível depois de 5 dias de mineração. Ganha o jogo quem acumular mais dinheiro até o final. Porém, existem pedras explosivas que podem expulsar o jogador da mina e ainda é preciso lidar com cartas dos jogadores adversários, que introduzem novas dificuldades e acumular cartas de experiência para se defender.

Aprendendo a jogar

A grande vantagem para jogar com crianças é que o aprendizado é fácil, é o típico jogo casual para jogar em família. As habilidades requeridas envolvem sorte, noção de probabilidade e gerência de risco, sendo especialmente útil para fazer crianças começarem a entender esses dois últimos.

Como o meu filho ainda não está alfabetizado foi preciso ler as cartaz para ele, mas o coaching necessário para ele jogar foi menor do que eu esperava. Depois das primeiras cartaz lidas ele passou a memorizar pelos diferentes desenhos e perceber que era preciso gerenciar não apenas as gemas coletadas, mas também as possíveis ações dos outros jogadores. No geral a diferença de idade teve pouco impacto e os adultos também conseguiram se divertir. É um jogo simples e como depende muito do comportamento dos jogadores, o que torna possível fazer diversas partidas.

Um dos aspectos divertidos do jogo são as gemas, que são bem atrativas para as crianças e as ajuda a trabalhar as idéias de valores e de quantidade. A mineração básica é feita coletando as gemas de um saco sem ver o que será pego. O que é legal, pois dá aquele caráter tátil ao jogo, que é um dos diferenciais do jogo de tabuleiro.

O que poderia ensinar

Como de praxe, gosto de abordar o potencial pedagógico de um jogo. Nesse aspecto, já de início é possível observar que este é um jogo sobre gerenciamento de recursos. Não basta simplesmente coletar pedras, é preciso obter combinações de pedras mais rentáveis, eventualmente colocar os outros para trabalhar para você, até mesmo roubar pedras alheias e ainda se defender da rapinagem alheia. É um típico caso em que se cria uma limitação de ações, o jogador deve escolher entre coletar pedras, usar cartas ou sair da mina. E como a aprendizagem é fácil é uma excelente forma de ensinar essa habilidade para as crianças.

O outro gerenciamento exigido é a capacidade de  lidar imprevisível, as estratégias são curtas e simples, o que iguala o jogo para crianças e adultos e demanda flexibilidade de pensamento e capacidade de adaptação. Não há como saber que pedras ou cartas virão, é preciso se virar com os itens à disposição. E eu acho isso uma excelente habilidade a ser aprendida, especialmente nesses tempos cheios de brinquedos e aversão à frustração ao qual as crianças são submetidas. Portanto, é um jogo que ensina o jogador a lidar  com probabilidades, como demonstrado abaixo sobre a  matemática envolvida no jogo.

Algo que demanda um certo cuidado ao jogar com crianças é a questão dos ataques entre jogadores. Existem cartas que permitem roubar gemas ou obrigar outro jogador a coletar para outro e isso é um dos elementos que fazem parte do desafio do jogo. Mas conversar sobre ética e o que é aceitável dentro do ambiente de jogo e fora dele pode até render uma discussão interessante.

O que não gostei

A identidade visual certamente foi escolhida para dar um tom nórdico ao jogo. Porém a tipografia tem uma semelhança entre os números 2 e 5 que irrita em certos momentos e pode atrapalhar os cálculos de valor, especialmente nas primeiras partidas. Um dos pontos importantes do jogo é entender as diversas combinações possíveis de cristais, que também é uma ótima oportunidade de ensinar matemática para quem não sabe, mas que é prejudicada pela tipografia, bonita e adequada ao tema, mas de legibilidade ruim.

Um problema parecido ocorre com os cristais, em suas cores. Os cristais instáveis e as esmeraldas são do mesmo matiz (verde) com uma leve diferença de luminosidade. O que cria um pouco confusão entre as duas. E uma expansão introduziu cristais cor de rosa que criam a mesma confusão.  Isso fica ainda mais grave se ambiente do jogo tiver menos luz. Geralmente diferenças de luz dão um bom contraste, mas a cor funciona impressa em papel não necessariamente funciona do mesmo jeito em resina plástica.

Enfim, apesar das artes serem muito bonitas e cuidadosas, tanto na tipografia quanto nas cores vi o pecado da falta de contraste, um daqueles casos em que a forma, a estética, sobrepujou a função, o que interfere na aprendizagem do jogo.

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Cristais parecidos, com funções muito diferentes. fonte: tabulaquadrada.com

A resina também se desgasta rapidamente com o atrito dentro do saco, mas imagino que o uso de material mais resistente ia encarecer os custos. Outro material, além de mais caro poderia aumentar o preço de distribuição pelo aumento do peso. Da minha parte, eu vou adorar comprar pedras em alguma cidade de mineração, como Alto Paraíso, Diamantina ou Cristalina, para criar uma versão luxo do jogo.

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Eu ainda vou tentar jogar com pedras desse tipo. fonte: Dhonella loja virtual

Conclusão

Ainda que o tema escolhido sejam anões europeus, uma decisão de marketing que faz todo o sentido considerando as preferências da clientela de jogos de tabuleiro, eu adoraria ver uma versão de Quartz ambientada em serra pelada, a Minas Gerais dos tempos coloniais, ou mesmo os garimpos brasileiros atuais. O aspecto “sorte” do processo me lembrou a biografia de um garimpeiro chamada “O Bandeirante Urbano” que li tempos atrás, presente do próprio autor.  Assim, acho que o jogo pode até ser base para uma simulação convincente da mineração de pequeno porte que deve ocorrer nesse Brasil afora. Versões com esses temas poderiam ser usadas para aumentar o interesse dos estudantes em história ou geografia do Brasilou descrever determinados momentos históricos.

No saldo geral, o jogo vale a pena. É divertido, pode ser jogado diversas vezes, é de fácil aprendizagem e oferece excelentes situações potenciais de aprendizagem e tem uma boa relação custo-benefício, para o atual mercado de jogos de tabuleiro.

2 comentários em “Mineração e explosões no tabuleiro: jogando Quartz com crianças

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  1. Eu estava pesquisando na internet sobre um jogo que eu tinha quando era criança (acredito que isso foi no final da década de 90 pra início da década de 2000) e vim parar aqui pois achei esse jogo parecido com o que eu tinha! O jogo era parecido com este porém as pedras eram reais, praticamente igual às pedras que tu colocou que gostaria de jogar! Por um acaso tu não sabe qual era o jogo que eu estou procurando? Faz tantos anos que procuro ele!!! Será que eles não se basearam no jogo antigo que eu tinha quando fizeram o Quartz?

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    1. Olá Andrea, que eu saiba o Quartz tem um predecessor do mesmo estúdio chamado Ouro de Tolo. Os designers de ambos os jogos são Sérgio Halaban, André Zatz mas eles são publicações de 2007 em diante.

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