
Introdução
Dentre as muitas controvérsias existentes da área de educação, uma que rende discussões particularmente acaloradas é a aquela entre o ensino público x ensino privado ou mais especificamente se as escolas devem estar sob controle do estado ou de empresários. Não é uma discussão simples e afeta radicalmente a gestão das escolas. Inclusive a discussão ganhou outro ingrediente com a proposta das escolas charters, que seriam escolas privadas, que recebem recursos do governo para atender os alunos.
Pública x Privada
Não vou entrar no mérito de qual é a melhor, já existe muito gente abordando a discussão muito melhor que eu. Seja lutando contra o que considera a destruição do ensino público ou, pelo contrário, promovendo o que acredita ser a reforma do sistema educacional . Porém o que chamamos de sistema público, controlado pelo estado me parece ser muito centralizador, onde a burocracia me parece algo inevitável e a participação dos pais vai sendo alienada ao longo do processo. Pessoalmente acredito que quanto maior a distância entre a “cúpula”, o nível estratégico onde estão os tomadores de decisão de uma sistema e a “base”, o nível operacional, onde está quem faz o dia-a-dia e é atendido por esse sistema, maior vai ser a burocracia e a dificuldade em se fazer o sistema funcionar a contento. O risco do sistema se tornar algo como a fábrica de pregos soviética é sempre possível.

O sistema privado não é me parece muito melhor. O objetivo de lucro cria um conflito de interesses inevitável. Creio que o maior problema de se transformar a educação num serviço é que os pais tem pouco acesso ao que está sendo feito. Eles recebem o mínimo de informação necessária, com o agravante que os resultados dessa educação só poderão ser sentidos muitos anos depois de sua aplicação, sejam os bons ou, especialmente, os ruins. A relação causa x efeito do ensino é dificil de ser análisada e mensurada. Assim, é muito difícil para tanto para os pais quanto para os alunos tomar uma decisão informada sobre a escola. Até mesmo a pesquisa científica sobre o assunto é difícil de ser feita, impacto é algo que leva tempo para ser avaliado.
Em ambos os casos o sistema escola trata alunos como objetos. A metáfora industrial impera e essa lógica acaba dominando tudo. Individualidades são ignoradas numa instituição onde as pessoas (os alunos) são reduzidas à estatística. Nada contra o uso de abordagens quantitativas para analisar os alunos, mas algo importante é perdido quando pessoas são reduzidas à resultados de prova.
Também, falta espaço e demanda para a participação dos pais na educação dos filhos. A escola se torna um “depósito de gente” especialmente nos primeiros anos, aquele considerado o mais importante na formação do indivíduo e com maior impacto para sociedade (recomendo especialmente o gráfico 4 do link). Nos dois casos perde-se a noção de comunidade. Escola e vida familiar são compartimentalizadas e se tornam grupos separados. O que é ruim para as escolas por que acabam assumindo um papel muito maior na educação dos alunos e para os pais que ficam, ou se deixam ficar, alienados da educação dos filhos e, principalmente, para os alunos que viram objetos de uma transação entre adultos sob a qual tem pouco o que opinar.
A alternativa comunitária
Uma escola que não visa lucro, mas ao mesmo tempo deve ser economicamente sustentável e não está engessada numa grande estrutura burocrática. Um escola comunitária. Em termos gerais é uma organização sem fins lucrativos criada com o objetivo de gerir uma escola. Pais fazem parte do corpo diretor da escola, bem como professores e funcionários eleitos por meio de assembléia. Ações e decisões específicas ficam à cargo de comissões criadas para assuntos como: infraestrutura, comunicação, matrículas, bolsas de estudo, finanças, compras e etc. Essa estrutura é razoavelmente fluída, podendo até incluir comissões para resolver problemas específicos como uma infestação de bicho geográfico que ocorreu no parque da escola.
Um exemplo de diferença que observei numa escola comunitária: a assembléia de orçamento. Sim, o orçamento e o valor da mensalidade do próximo ano é aprovado numa assembléia com participação de pais e professores. A do ano de 2017 especialmente interessante porque o orçamento foi apresentado algumas semanas antes, foram feitas emendas e as propostas quanto e onde seriam feitos os investimentos foram aprovadas pela assembléia. O resultado é que a proposta inicial de aumento de uns 14% acabou ficando abaixo de 9% com cortes aprovados em assembléia. Acho isso um tremendo avanço, considerando que nas escolas particulares a escolha é pagar ou procurar outro lugar. No máximo fica o direito a espernear.
Outro exemplo foi uma reclamação dos pais num início de ano de que as salas estavam beeeem usadas e era preciso fazer manutenção. A resposta da professora foi bem tranquila, ela concordou que a sala poderia ser melhorada. Portanto, ela se prontificou a vir num fim de semana antes das aulas para arrumar as salas, que a escola ofereceria o material e que todos juntos, pais e professores poderiam arrumar a sala em mutirão. Assim, enquanto um pai cuidava das crianças; outros costuravam novos brinquedos , como frutas de tecido; e outros passaram parte de uma tarde de domingo com uma furadeira prendendo prateleiras e trilhos de cortinas enquanto essas eram lavadas numa máquina de lavar da vizinhança. O envolvimento dos pais na educação dos filhos muda muito depois de experiências como essa. A escola comunitária é um lugar onde se pode propor mas é, principalmente, um lugar para fazer.
É a partir de atividades como essa que se forma a comunidade da escola. E, como dizem os ingleses “é preciso uma vila para criar uma criança”. O desenvolvimento infantil vai muito além do que pode ser oferecido por apenas uma família, expandir o grupo envolvido no crescimento de uma criança é expandir os horizontes dela. Esse tipo de atividade é o momento em que se conhece as outras crianças e os pais delas. É possível perceber como é o comportamento do seu filho com outras crianças, saber quem são as crianças legais, quais são as complicadas e etc. Todo um novo universo de informações às quais a maioria dos pais sequer tem acesso fica disponível para quem quer observar e vai levar a decisões melhores.
Esse tipo de escola também pode ser um terreno fértil para o desenvolvimento do capital humano do seus membros, já que a estrutura decisória é bem horizontal. Isso abre espaço para o empreendedorismo interno ou corporativo já que sempre se pode convencer um grupo, formar uma comissão para desenvolver e/ou aplicar uma inovação na escola.
Porém…
Apesar de meu entusiasmo em relação a essa modalidade é óbvio que ela não é perfeita. Uma organização com estrutura horizontal como uma escola comunitária tende a ser menos ágil que uma empresa porque o processo decisório baseado em comissões é mais lento, já que diversas pessoa devem ser consultadas. O que pode levar a muitas reuniões, longas e eventualmente pouco produtivas. A distância entre uma proposta aprovada e aplicada pode ser longa. Estruturas horizontais e flexíveis também podem sofrer dificuldades em administrar prazos e responsabilidades. Afinal, se todo mundo faz, quem é o responsável. A ausência de governança pode se tornar um problema.
A participação das pessoas na comunidade é desigual, tem gente que se envolve muito enquanto outros “pegam carona”e participam o mínimo possível e a existência dos dois perfis me parece inevitável. O que pode se tornar um problema sério num grupo que só existe devido a participação de seus membros. Se o número de pessoas “carregando o piano” for muito menor que o de “caronas” a escola se tornaria simplesmente inviável. Mas esse é um problema que pode ser mitigado na entrada dos alunos na escola, seja através de capacitação dos pais ou mesmo através de seleção, no caso de uma organização privada.
Como toda a atividade coletiva, a armadilha do groupthinking é um risco presente e pode ser muito danoso para todo o grupo. Grupos de interesse também se formam e podem manipular os processos decisórios a seu favor e em detrimento do resto do grupo. Algo que algumas pessoas chamariam de politicagem. É preciso cuidado, especialmente em instituições maiores. Escolas pequenas com poucos alunos me parecem mais fáceis de serem administradas que as grandes, as quais vão precisar de um corpo profissional para fazer assessorar a administração da escola.
Conclusão
Enfim, nesse embate entre público x privado acredito que uma das soluções está em reforçar esse caráter comunitário em ambos os modelos. Não precisa se criar uma escola comunitária do zero, mas reforçar esse aspecto nas escolas já existentes.
Em seus erros e seus acertos acho que um arranjo mais comunitário, aumentando a participação dos pais, seria muito benéfico para o sistema educacional brasileiro. Isso equilibraria a atual lógica de prestação de serviço com famílias mais engajadas na educação dos filhos, eventualmente até reduzindo a pressão em cima das escolas e levando a resultados melhores no longo prazo, não apenas em notas mas também em termos de cidadania e saúde mental dos estudantes.