Um pouco de contexto
“Saúde mental é importante” é uma frase que pode soar óbvia, mas até isso já representa um avanço considerando que antigamente o assunto era um tabu social. Hoje é possível discutir abertamente, o que é benéfico para a qualidade de vida de todo mundo.
Acredito ser um ponto pacífico que dentre as várias opções está a psicoterapia. Segundo o senso comum, os tratamentos psicoterápicos geralmente envolvem conversa: uma pessoa falando de seus problemas e outra ouvindo, analisando e comentando. Um desabafo com um ouvinte especializado que oferece conselhos. Algo como uma conversa com um amigo treinado que vai te ajudar a entender a si mesmo de forma protegida de julgamentos e exposição. Lembrando que, por mais legal e inteligente que seja um amigo, sempre vão faltar o rigor técnico, compromisso de sigilo e a neutralidade do profissional de saúde mental. Para mim é como a diferença entre um medicamento e um bom chá, cada um tem seu momento.
O que vem a seguir são minhas leigas opiniões e experiências sobre uma abordagem terapêutica e os benefícios que pude observar.
Um pouco de história
A teoria da bioenergética começou no encontro do psicanalista (e também psiquiatra, biólogo e físico) austríaco Reich, o americano Lowen ( doutor em medicina e psicoterapeuta) e com o grego Pierrakos (psiquiatra, Ph.D em medicina e psicoterapeuta), a partir dos anos 40. Para Reich, os fenômenos físicos e psíquicos são reflexos de um mesmo tipo de energia vital, por isso o termo bioenergia. A formação variada deles rendeu o que chamaram de terapia bioenergética: uma psicoterapia corporal que trabalha com a tensão, relaxamento muscular e usa a expressão emocional através do corpo como uma forma de apoiar a elaboração racional.

Instituto VitaleOs limites do intelecto
Muita gente já se viu na situação: “Ok, eu entendi os meus problemas, sei o que preciso fazer, mas simplesmente não consigo mudar”. Saber realmente ajuda — identificar fatos e emoções é um começo — mas racionalizar sobre seus problemas, especialmente os mentais e emocionais, está longe de ser suficiente.
Um dos desafios está no fato de que arrumar a mente com a própria mente é algo complicado, para dizer o mínimo. Existe uma coisa chamada dissonância cognitiva: o desconforto mental provocado pela distância entre o que pensamos ser, ou o achamos que devemos ser, e quem realmente somos. A depender da nossa rigidez ou do tamanho desse incômodo somos capazes de qualquer pinote mental e retórico para manter as coisas como estão, mesmo que elas sejam ruins. Somos uma espécie com alta capacidade de adaptação, inclusive ao que nos faz mal. Essa rigidez mental pode se refletir na tensa rigidez do corpo, como uma armadura que deveria proteger e se torna uma prisão.
A racionalização e elaboração sobre os próprios problemas, ainda que importante, é simplesmente limitada a uma certa profundidade. Para ir mais longe outras ferramentas são necessárias.
Quando o corpo toma a palavra

Existem diversas formas de tratamento e uma das minhas preferidas foi a análise bioenergética. Sua diferença é ser uma terapia corporal. O que pode soar estranho, usar o corpo para tratar a mente, se torna mais claro quando pensamos que somos um todo.
Quando estamos irritados o maxilar trava, quando nervosos os pés balançam. Já é aceito que o estado mental influencia a imunidade e que a prática de exercícios ajuda a prevenir e tratar a ansiedade. O físico mexe tanto com o nosso mental que já foi observado que exercícios físicos podem provocar orgasmo. Afinal, sexo é uma atividade física que também envolve um turbilhão de emoções.
Assim, a terapia bioenergética é uma abordagem que considera tanto a mente como o corpo. Existe a conversa, mas também os exercícios que podem servir para se aprofundar além dos limites impostos pelo racional.
Da poltrona ao movimento
Uma sessão começa de forma bem comum, terapeuta e paciente sentados conversando. A conversa gira em torno dos pensamentos e sentimentos do paciente. Me parece que quando chegamos num certo ponto em que a conversa chegou a um certo limite o bom terapeuta vai dizer algo como “ok, agora vamos para o corpo”. Os exercícios geralmente começam com alongamentos, controle da respiração e movimentos específicos, que vão variar de acordo com as necessidades do paciente. Eles podem passar por dançar algo parecido com punk rock e até por bater em coisas, aos berros, para liberar a raiva. Sim, gritar de forma orientada pode ser um exercício terapêutico, ajuda a liberar a raiva, ansiedade, medo e permite acessar experiência difíceis trancafiadas na memória. Uma vez minha terapeuta pegou um aparador para um exercício com chutes. Eu obviamente fiquei constrangido e inseguro até ela me avisar que eu não precisava me preocupar, ela era faixa marrom em karatê.
Segundo a teoria, as experiências, que temos, boas e, especialmente, as ruins, podem levar a reações de defesa física e psíquica que resultam em tensões crônicas e bloqueios em nosso corpo. Como se a tensão nos desconectasse e a bioenergia deixasse de fluir pelo corpo. Essa “couraça corporal” pode até ter servido para nos proteger em determinados momentos mas tende a nos aprisionar em neuroses, fobias e raivas na vida adulta. Não é questão de destruir essa estrutura, mas através das conversas e exercícios torná-la mais flexível e menos restritiva.
A ideia é essencialmente, alcançar as emoções através de exercícios físicos e com eles ressignificar certas memórias que nos definem. O que bate com a ideia que nossas memórias não são estáticas, conforme apresentado pela neurocientista Bruna Dimantas, quando comenta que podemos reforçar ou requalificar memórias. Não podemos mudar os fatos, mas podemos mudar o que eles significam para nós e com isso ganhar flexibilidade mental suficiente para ter uma vida melhor.
Alguns podem entender como indutor para aquela mega catarse, a experiência libertadora que vai te mudar. Lamento, mas está longe de ser tão simples. Muitas vezes é preciso primeiro criar uma estrutura para lidar com certas tensões antes de acessá-las. O processo de cura frequentemente passa pela dor, assim como aprender passa pelo desconforto de enfrentar o desconhecido. Expor alguém a certos sentimentos ou situações sem preparação prévia, sem a construção de uma estrutura mental e emocional, pode reforçar um trauma mais do que resolvê-lo.
A ideia de superar as tensões pode ser tentadora, mas com o tempo é possível perceber que ela também é necessária, seja para superar desafios ou lidar com situações. A falta de estresse também pode ser depressiva.
Esse me parece um dos pontos importantes para avaliar uma terapia séria: é melhor procurar quem vai te dar instrumentos para lidar com a vida de forma mais equilibrada do que alguém que te ofereça “um novo eu”. O que bate com a ideia de vida plena que li em uma certa resenha.
As classes de exercício
Além das sessões de terapia individual existem sessões de exercícios de bioenergética em grupo. As classes de exercício também tem um ou mais terapeutas conduzindo. As que eu vi trataram desde sentimentos específicos como forma de nortear o processo, como raiva, prazer, alegria, medo, tristeza, ou mesmo conceitos mais amplos vitalidade e flexibilidade. Acho um tanto sintomático dos nossos tempos atuais que as classes sobre raiva costumem a ser as mais cheias.
Voltando a questão das catarses, estar em grupo pode ser uma influência muito forte ou certas experiências podem ter impactos diferentes nas pessoas, alguns bem fortes. Essa é uma das razões para terapeutas treinados conduzirem as classes e observarem e orientarem as pessoas. Já vi pessoas fazendo movimentos mecanicamente que subitamente tiveram crises de choro. É preciso orientação e habilidade para que uma oportunidade de melhoria não se torne um problema.
Geralmente as classes começam com uma apresentação pessoal da pessoa e de como ela vê o tema daquela classe, para depois entrar nos exercícios em si. Participar das classes dá uma dimensão social ao processo terapêutico que Vygotsky ia adorar. É possível ver como outras pessoas reagem e lidam de forma similar ou muito diferente da gente. Como somos uma espécie social também é interessante ver como podemos nos conectar com outras pessoas através da emoção. Se conectar por meio da alegria ou do amor parece fácil e óbvio, mas fazer isso por meio da tristeza ou da raiva e de forma equilibrada já é mais complicado. Ainda assim é muito útil para ensinar sobre formas de lidar com esses sentimentos nos outros e especialmente criar empatia por pessoas que tem sentimentos que podem nos despertar antipatia.
Conclusão
Acredito que o termo “bioenergética” ficou datado e soa um tanto alternativo demais para os mais rigorosos. Ainda assim, acho que os ganhos do processo compensam e que no futuro teremos instrumentos melhores para observar e mensurar os efeitos neurológicos descritos nos fundamentos teóricos da análise bioenergética, além da observação empírica.
Uma coisa que se aprende é que sentimentos e reações não são coisas boas ou ruins, é preciso aceitar que elas simplesmente existem. Entender como elas são e o que as aciona pode ajudar a pessoa a reagir de forma melhor e trabalhar com suas emoções, mas percebendo que controle sobre emoções é um termo muito simplista. Mesmo emoções “ruins” como raiva e tristeza tem sua serventia, até mesmo as tensões são necessárias.
Pessoalmente uma das vantagem na bioenergética que vi foi instrumental. Você passa a ter instrumentos melhores para lidar com as situações. Já me senti à beira de crises de ansiedade no trabalho e consegui me centrar e recuperar o foco com um exercício de tensionamento e respiração. O efeito foi como um cavalo de pau na minha mente que a colocou de volta nos eixos. Eu até poderia explicar em detalhes, mas acredito que só funcionou comigo por já ter um contexto prévio de terapia e entender como e quando ele poderia funcionar. Não desejo detalhar para não ser encarado como uma fórmula pronta.
Enfim, fiquei muito satisfeito com minha passagem pela terapia. Em alguns momentos pode ser duro fazer contato com partes desagradáveis da própria história, pode soar como algo lento ou mesmo esotérico demais. Dias bons e ruins vão continuar existindo e certos hábitos e comportamentos são tão arraigados que sempre estarão a um passo de eclodir. A terapia não vai te dar superpoderes nem deixar invulnerável aos problemas da vida. Porém, independente da abordagem escolhida, acho a terapia um caminho útil se garantir uma vida mais equilibrada e feliz.
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