O Passado conversando com o Presente: Lições de Paper Girls


Dentre as várias séries que começam e não continuam, uma que me chamou a atenção foi Paper Girls, que durou uma temporada e foi transmitida no Amazon Prime. Baseada nos quadrinhos de Cliff Chiang, a série junta drama suburbano, ficção científica e o fim da infância contando sobre quatro adolescentes entregadoras de jornal vivendo nos anos 90 que acidentalmente caem numa guerra temporal e são transportadas para os anos 2010.

A parte da série que realmente me marcou foi o diálogo de uma delas, a menina asiática Erin Tieng, com a sua versão adulta. Suponho que muita gente já teve esse sonho de poder dialogar com sua versão passada ou futura. Porém, nesse caso específico, a adolescente ficou muito decepcionada com sua versão adulta, para me manter educado.

Suponho que era objetivo dos autores levar quem assiste a se perguntar: “Como o meu adolescente olharia para o adulto que me tornei?”. Achei o exercício de reflexão bem legal após o horror inicial: imaginar como seria a conversa entre o eu passado e o presente. Um diálogo entre quem fomos e quem nos tornamos.

No meu caso, foi um alívio perceber que a minha versão adulta não passaria vergonha e teria o que contar. Posso não ter ficado rico ou famoso, mas certamente fiz coisas que eu achava muito improváveis para o eu adolescente:

  • Falar com mulheres que eu considere atraentes um dia será algo normal, até divertido.
  • Consegui morar sozinho por um tempo, vivendo às minhas custas, e posso fazer isso novamente.
  • Me casei por escolha e não por acidente.
  • Consigo criar e sustentar uma família de classe média.
  • Morei algum tempo fora do país e fui para países que sequer conhecia quando novo.
  • Existem revistas, folders e cartazes que foram feitos por mim.
  • Não apenas aprendi a diagramar livros como também escrevi alguns. Eu teria que explicar que isso não foi algo planejado. Pessoas me sugeriram tentar e simplesmente funcionou.
  • Aprendi artes marciais e, nesse meio, fiz amigos entre pessoas que têm o uso da violência como parte do trabalho e são pessoas muito legais.
  • Nesse meio também experimentei o fato de que perder não é uma vergonha e vencer não te torna melhor; tudo é aprendizado.
  • Cheguei a ser professor, o que certamente vai chocar meu eu mais novo. Especialmente considerando como eu detestava a escola.
  • Descobri que posso trabalhar com educação sem estar numa escola. E ainda participar de um trabalho de impacto imenso. O que certamente vai deixar o garoto aliviado.

Me conhecendo, terei que explicar que ser piloto de avião pode ser legal, mas não é a única coisa legal que existe e que heróis de ação não existem no mundo real, não importa o quão convincentes sejam os filmes. Na verdade no mundo real eles geralmente morrem cedo.

Como todo adulto adora ser “palestrinha”, eu não iria me segurar e daria alguns conselhos:

  • As coisas vão melhorar.
  • Você não é especial e nem precisa ser. Mas estar em paz com isso será libertador.
  • É importante diferenciar quem você realmente é de quem você acha que deveria ser. Além de ser uma frase estranha, tem gente que vai passar a vida inteira fracassando nisso.
  • Aprender é desconfortável e demanda esforço, por isso os inícios geralmente serão uma bosta. Mas o feito será sempre melhor que o perfeito.
  • Errar faz parte do jogo.
  • Algumas das melhores coisas da vida podem demorar para render, dar um trabalho do cão, serem arriscadas ou todas as alternativas anteriores.
  • Criatividade é seu diferencial, mas inovar é um processo arriscado que demanda aprendizado. Nunca haverá condições perfeitas e, reforçando o tópico anterior, o “bom o suficiente” já pode ser muita coisa.
  • Tenha mais compaixão por si mesmo; você é mais capaz do que imagina.

No geral, acredito que meu eu mais novo sairia satisfeito. Recomendo o exercício, como seu eu passado e atual se veriam? O que diriam? Mesmo que eventualmente não saia satisfeito com a conversa, lembre-se que estar vivo e vivendo o tempo presente é o fator fundamental para se acertar.

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