A Sutil arte de Discordar do Seu Superior de Forma Segura


Como observado por Yuval Harari, foi nossa capacidade de cooperação que fez a raça humana prosperar. Ainda que a moda seja falar de empreendedorismo e sucesso individual, certas coisas só podem ser construídas com a cooperação de muita gente. É por isso que a maioria das pessoas trabalha em organizações. Quanto maior o trabalho, mais gente e organização são necessárias e a demanda por burocracia e hierarquia se torna inevitável.

Na esfera corporativa resultante, habilidades socioemocionais, as que empregamos para lidar com pessoas e sentimentos, podem ser tão importantes quanto as técnicas. Sobre essas habilidades, Amy Gallo escreveu um artigo sobre uma questão eventual: como discordar dos superiores sem colocar em risco o seu emprego.

Ela começa observando que é algo natural não querer contradizer um superior. Como somos evoluímos cooperando e essa habilidade nos tornou bons em sobreviver, existe uma tendência muito natural em evitarmos nos colocar em situações arriscadas colocando essa cooperação, ou hierarquia em risco. Obviamente, decisões que afetam nosso ganha-pão entram nessa lista. Uma discordância com o chefe pode ser vista como uma supresa ou uma ameça, tudo depende da forma como é apresentada.

Alguns dos pontos que ela propõe para discordar de forma eficaz e segura:

1 – Avalie os riscos

Esse primeiro ponto descreve a máxima brasileira “manda quem pode e obedece quem tem juízo” em toda a sua glória. Porém, a autora observa que temos uma tendência a superestimar os riscos da discordância. A percepção do risco envolvido não é um mau sinal. Talvez o poderoso de plantão fique surpreso ou mesmo irritado.

Porém, há uma segunda questão: os riscos de não falar. Ninguém quer se o portador de más notícias. Mas os problemas resultantes podem compensar os riscos impopularidade inicial. Muitas equipes são multidisciplinares, às vezes só uma pessoa vai perceber um problema porque está na sua área de conhecimento e não na do resto do grupo. Quando isso acontece, acredito que não apenas vale o risco discordar, mas certamente é esperado que isso seja feito. Ser omisso vai ser bem mais impopular.

2 – Preparação

Discordar dentro de um grupo é como nadar contra a corrente. A exigência sobre quem discorda é maior. Pode não soar justo, mas aceitar isso é fundamental. É preciso ter bons dados ou uma preparação prévia. O argumento fica muito mais forte com dados que mostrem que não são meras opiniões. A autora até sugere que pode ser melhor esperar o momento certo para estar bem preparado. Sugiro balancear com os riscos.

3 – Começe assoprando

A autora chamou esse ponto de “identificar objetivos em comum” e eu concordo que essa é uma boa estratégia, mas acho a minha escolha de título mais direta. Começar falando dos objetivos em comum é uma maneira de sinalizar que você não está simplesmente desafiando o chefe em público. Essa é uma interpretação possível se o superior em questão for inseguro. A autora até sugere pedir licença para discordar, para garantir que o chefe não se sinta ameaçado, e permanecer humilde, demonstrando que você reconhece a hierarquia. Também é preciso também tomar cuidado com os adjetivos, especialmente os pejorativos. Eles podem ser tentadores numa discussão, mas os resultados não compensam. Chamar uma proposta ou alguém de “ingênuo” ou “raso” não vai ajudar muito, criando uma impressão de arrogância e desviando o foco do mérito da questão para a forma de expressão.

Deixar claro que você não é uma ameaça aumenta as chances de ser ouvido. Não adianta ter razão se ninguém te escutar porque soou pedante.

4 – Permaneça calmo

Ainda que necessário, o dissenso pode ser desagradável para quem ouve e para quem fala. Levantar a voz ou demonstrar raiva pode derrubar a argumentação, independente do mérito. Como observa a autora: se o seu discurso diz uma coisa e sua atitute diz outra o ouvinte pode ficar tentado a ouvir apenas a parte que o interessa reforçando impressões erradas. A calma te faz parecer focado e confiante, mesmo que não esteja.

5- Seja impessoal

Os passos 3, 4 e 5 funcionam em conjunto para mostrar que você não é uma ameaça. Significa que seu foco é discordar de uma ideia, não do dono dela. Isso é especialmente importante no cenário brasileiro e nossa tendência de levar tudo para o lado pessoal.

6- Não bata contra as certezas, foque nas dúvidas

Essa eu aprendi com um amigo que tem uma longa carreira em ciência e artes marciais. Em discussões ele evita fazer afirmações. Sua discordância é expressa na forma de perguntas cuidadosamente apontadas para instigar a dúvida. Algo que me lembra o ideia da falsificação de Popper, também conhecida como o advogado do diabo da igreja católica.

Levantar pontos que o chefe precisa responder vai colocar a ideia à prova e mostrar que o seu foco é impessoal. Se as perguntas forem boas as dúvidas certamente irão surgir, aumentando a chance de sucesso. O foco deve ser a qualidade das perguntas: se as respostas vierem facilmente, a ideia vai ser reforçada. Muitas vezes o resultado não vai surgir na hora. Certas ideias precisam ser digeridas.

Nesse ponto, a humildade se torna importante. Eventualmente, seu trabalho não será reconhecido, raros são os prêmios para problemas evitados. O ser humano tem dificuldade em abstrair riscos, mas o problema evitado pode já ser recompensa o suficiente. O “eu avisei” não é exatamente popular.

Um checklist

A autora finaliza com uma pequena lista do que fazer e do que evitar.

A fazer:

  • Explicar sua discordância e pedir para apresentá-la
  • Reapresentar a ideia inicial da qual se discorda para deixar claro que ela foi entendida
  • Demonstrar calma e humildade para não soar como uma ameaça.

A evitar:

  • Assumir que o dissenso vai prejudicar sua carreira ou imagem. As consequência podem ser bem menos dramáticas do que parecem.
  • Não ter dados e apresentar suas opinião como fatos. Apenas expresse seu ponto e esteja aberto ao diálogo. É exatamente o que você espera do superior.
  • Se empolgar em adjetivos pejorativos que podem irritar ou instigar o ouvinte contra você. Seu objetivo não é aparecer, é evitar um problema.

Passei por uma situação desse tipo nos últimos tempos. Tive que discordar de alguém uns dois degraus acima de mim. Era necessário, pois a ideia proposta prometia criar um problema imenso. Demorou, mas no final consegui me fazer ouvir. Eventualmente, um funcionário precisa salvar um gestor de si mesmo. É justamente para isso que existe o trabalho em equipe.

Deixe um comentário

Blog no WordPress.com.

Acima ↑