Entenda EPI como Equipamento de Proteção Individual, como os capacetes, luvas, óculos, botas etc. Em ambiente de trabalho eles são a última linha de proteção do trabalhador e não devem ser a primeira nem a única. Tais equipamentos devem ser usados quando outras medidas não consigam mais reduzir os riscos.
Como as artes marciais são um esporte de contato, o risco também é constante. Para mitigá-lo, existem os EPIs específicos, como luvas de boxe e protetores bucais. No Muay Thai, além das luvas, são adicionadas caneleiras e, eventualmente, cotoveleiras. Outros estilos incluem até mesmo a coquilha, um protetor genital. Para reduzir os riscos, é possível utilizar luvas maiores e mais acolchoadas, assim como capacetes durante as atividades de treinamento. Não encontrei regulamentação sobre o assunto, mas aceito sugestões se alguém descobrir.
A primeira justificativa para se cuidar é a simples e pragmática questão de que gente machucada não treina ou treina menos. Mas para quem pensa que o principal risco é um olho roxo, é importante lembrar que a demência do pugilista ou encefalopatia traumática crônica é uma doença real, incurável e cumulativa provocada por golpes ou mesmo sacudidas violentas na cabeça com frequência. Praticantes de esportes de contato como lutas, rugby ou mesmo futebol estão no grupo de risco. Isso sem esquecer dos inúmeros problemas causados por outros tipos de lesão, como fraturas, ligamentos rompidos e etc..
No caso das artes marciais filipinas, ou FMA em inglês, essa necessidade de usar proteções é ainda maior devido ao uso de armas brancas desde o início do treinamento. Bastões e facas produzem mais impacto com menos força. Assim, as proteções funcionam em dois aspectos:
- Protegendo os alvos, como cabeça, mãos, articulações ou
- reduzindo o dado provocado pelas armas, como lâminas sem fio, bastões revestidos com espuma etc. O uso dos EPI variam muito de acordo com a situação e o estilo.

Tudo tem vantagens e desvantagens: mais proteções também costumam a pesar, cansando o usuário e também limitando a agilidade e a percepção visual. O capacete pode reduzir a visão periférica ou piorar um pouco a percepção de profundidade (tem uma grade de radiador na sua cara).
Seguindo essa linha, o estilo Dog Brothers, advoga que quanto maior o contato maior a consciência, incentivando o mínimo de proteção possível em lutas de contato. Ainda assim, alguma proteção acaba sendo usada. Geralmente reduzida às mãos e cabeça (com o uso de capacetes de esgrima, por serem mais leves) e usando armas sem revestimento. As regras também são mínimas. Pelo que entendi não há pontos ou tempo e as lutas continuam até alguém desistir ou não puder continuar.
E vale o risco?
Acho que essa é uma pergunta que vale para qualquer arte marcial. Uma vez ouvi o Ricardo Nakayama do Sotai comentando sobre o treinamento em defesa pessoal. Um dos pontos que eu entendi foi que para um treinamento ser efetivo o exercícios e a repetição são fundamentais, mas não são suficientes. Para um aprendizado mais profundo é preciso lidar com situações não cooperativas, em que a pessoa que está treinando vai resistir ativamente a você. Situações mais intensas, em que a interação é imprevisível e a velocidade é maior. Como diz o guro Adam Ainsley é preciso se acostumar ao desconforto.
Essas situações são necessárias para se ganhar reflexo, o timing certo para entrada de defesas e golpes e um certo calejamento físico e mental para lidar com a situação (detalhe, não existe calejamento ósseo). E para se fazer isso com menos risco de lesão os equipamentos de proteção se tornam essenciais, eles não são limitantes, muito pelo contrário. Acredito que a grande vantagem do uso de EPI´s é permitir um treinamento com mais intensidade, constância e segurança.
Claro que nem tudo são flores, Em termos de aprendizagem o uso exagerado pode criar uma falsa sensação de segurança porque o equipamento reduz o feedback doloroso (sim, uma dor moderada e sem lesão pode ser um recurso didático útil) e o aluno começar a ficar descuidado. A solução é usar o EPI mas não se tornar dependente dele. É preciso ter em mente que, por mais agressiva que uma luta de academia seja, ainda é uma simulação com fins de aprendizagem em ambiente controlado e não é algo tão arriscado quanto um conflito real. Treino duro aumenta a chance de tornar o combate real fácil, mas ainda é um treino.
Experimentação
O mestre de Arnis Kali Dada Inocalla já ensina artes marciais desde os anos 70 e viu a demanda por equipamentos de proteção e sua evolução ao longo do tempo. Ele sempre incentiva que os alunos comprem e usem equipamento de proteção. Ele chegou até mesmo a propor, criar e experimentar diversos equipamentos e combinações para seu treinos. Ele conta que nos anos 80 ele experimentou com capacetes de moto e bastões de madeira, mas viu em primeira mão a demanda por material mais especifico. A variedade na foto dos capacetes demonstra a evolução desse processo e as diversas demandas de treinamento.
Em um treino de mãos limpas, sem armas, um grande capacete fica desnecessário, mas o treino passa a envolver o uso de bastões uma grade pode ser bem útil. No caso das luvas as coisas também variam muita. Um treino com mãos limpas ou facas de treino pode demandar luvas pequenas como as de MMA. Enquanto situações com bastão ou facão podem demandar mais proteção. O preço pode ser a capacidade de segurar ou a agilidade de movimento. Muito usuários estrangeiros usam luvas de hockey ou lacrosse (esportes que usam tacos de madeira)
Risco x proteção, qual opção é mais correta?
Essa é uma decisão dos praticantes, uma questão de gerenciamento de risco e varia de acordo objetivos de aprendizagem de cada aula. Enfim, vai variar de acordo com a situação. Por exemplo, treinos de faca com lâminas sem fio podem render contusões se a lâmina for de metal e o risco de uma pancada no olho aumenta porque o alcance da faca é menor, é preciso se aproximar mais e o tempo para reagir ou se esquivar diminui. Mesmo usando uma faca de EVA, macia, existe o risco de se acertar o olho. Eu mesmo já acertei e levei no olho por acidente algumas vezes. E, lamento dizer, olho não fica mais musculoso ou calejado e continua funcionando.

Assim, mesmo em treino com facas de EVA ou outro material eu acho interessante se usar óculos de proteção, como aqueles usados em paintball ou airsoft. Mesmo usando facas macias, o uso de luvas também podem ser bom, porque há uma desagradável tendência a se bater punho com punho, e uma pancada de uma faca de metal, mesmo sem fio, pode fazer estrago.
Outros estilos

Outro gênero de luta com armas brancas que também rende experimentos interessantes é a HEMA ou Artes Marciais Históricas Européias que usa armas e está resgatando técnicas medievais antigas e encara demandas e experimentos similares aos do Arnis. O Kendo japonês conseguiu manter suas raízes tradicionais aproveitando os materiais moderno e tem um longo trabalho no desenvolvimento de equipamento para sua prática, na qual não falta intensidade. Mesmo usando espadas sem fio creio que o equipamento grande e complexo descreve muito bem a força dessa arte.
Seja qual for sua preferência recomendo a prática equilibrada e cuidadosa. Eu sou fã dos equipamentos de proteção, não que eles sejam perfeitos, mas porque muita mais gente sofre com sua ausência do que com seu uso. É verdade que é muito improvável que eles tenham uso numa situação real (se você não for um policial anti-tumulto) mas o uso deles vai permitir um treinamento mais constante e aprofundado.


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