Creio que foi impossível ficar tranquilo durante a apuração do concorrido segundo turno da eleição presidencial de 2022. Além da pequena diferença entre os candidatos, menos de 2% de diferença, também foi a primeira vez que a abstenção reduziu no segundo turno, quando geralmente as pessoas preferem não votar em nenhum dos concorrentes. Um dos efeitos desse processo foi mostrar uma série de cortes existentes no Brasil, como as diferenças de voto por idade e gênero, mas parece que a diferença por região rendeu sua própria cota de polêmica.
Nesse ponto, o nordeste do Brasil foi considerado um dos grandes diferenciais e isso ficou bem demonstrado por memes (exemplo ao lado) e rompantes de apoio ou xenofobia em relação ao povo nordestino. Como a região tinha uma forte tendência favorável ao candidato Lula, houve um interesse “especial, como o desmonstrado pela ação de agentes PRF para dificultar a movimentação dos eleitores na região demonstrou esse “interesse”. Soube de casos de eleitores da região que caminharam por quilômetros para poder votar. O que ocorreu com muito mais raridade em outras regiões do país. A ex-primeira dama Michelle Bolsonaro trabalhou especificamente na região nos últimos dias do segundo turno. Vi gente dizendo que o povo nordestino salvou o país, outros xingando o nordeste e dizendo que nunca mais voltariam lá e tecendo explicações eugenistas para explicar o voto dos nordestinos com uma virulência que deixaria um nazista constrangido.
As regiões do Centro-Oeste e Sul, que foram mais favoráveis ao candidato Bolsonaro, em menor grau também tiveram sua cota de estereótipos. Variando de ser um oásis de civilização até um berço de células nazistas. Em ambos extremos o espectro eleitoral foi possível ver uma imensa quantidade de memes e comentários separatistas. Os comentários variavam do ridículo ao racismo e também refletem a polarização do período, que parece apontar para um desnecessário e perigoso separatismo.
Os mapas eleitorais sob a lupa
Porém, como mostra a figura. Simplificações são imprecisas e levam a entendimentos errados. Se analisarmos os dados de apuração por estado, realmente essa diferença para cada candidato fica bem visível. Os votos por estados dão uma perfeita impressão de separação. Porém, se aprofundarmos a visão para os municípios esse retrato, mais nítido, fica um tanto diferente.

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Reparem como no segundo mapa a situação é muito menos homogêna e existem bolsões onde Lula venceu concentrados no extremo sul. Ao mesmo tempo, os estados onde as cores são mais claras significam que a diferença entre os candidatos são menores, como aparece em parte expressiva do Centro-Oeste. Mesmo que Bolsonaro tenha vencido em 14 estados enquanto o Lula venceu em 13 é possível ver que essa diferença não foi tão “resoluta”. É possível ver que uma eventual separação seria muitíssimo mais complicada do que sugere o mapa por estado.
Para ressaltar essa diversidade, como sugerido pelo Carlos Goes, que também discorda dessa ideia de separar os eleitores por região, se forem observados dados em termos de bairros a diferença fica ainda maior, como é possível ver numa imagem da apuração por bairros de São Paulo.
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Não somos os Estados Unidos
Eu entendo essa preocupação em observar regiões para quem está trabalhando em estratégias eleitorais, mas essa tentativa de colar estereótipos por estado ou região me parece muito mais um viés de análise. Estão tentando analisar as eleições brasileiras como se fossem as americanas, que usam uma lógica bem diferente da nossa. O sistema eleitoral americano incentiva o bipartidarismo e é uma votação indireta. O sistema deles foi planejado para que estados menos populosos podem tenham o mesmo peso dos mais populosos. Porém, uma consequência é os votos individuais não tem o mesmo valor e certos eleitores valem mais que outros, a depender do estado em que estão. Creio que nem preciso falar sobre o risco e o caos que é o sistema de apuração por lá. Cada estado vota de um jeito.
Enquanto isso, no Brasil o voto do megaempresário de São Paulo vale tanto quanto o de um pescador no meio do Amazonas. Como disse o presidente de TSE Alexandre de Moraes, somos a única grande democracia do mundo que entrega os seus resultados em questão de horas. O processo é tão rápido que até uma fraude na apuração se torna difícil e altamente detectável.
Conclusão
Como observado pelos Carlos Goes, apesar da intensa polarização dessa eleição, não existe um Brasil bolsonarista e outro lulista. O país não está geograficamente dividido. Na verdade, os pólos opostos estão altamente entrelaçados na sociedade, chegando até o nível familiar. Portanto, delírios separatistas por política são não apenas inviáveis como perigosos. É preciso recuperar a sanidade e tolerância e aprender a conviver com a diferença.
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