Povo, Nação e Literatura Fantástica


Dentre as inúmeras atividades que fazem parte da criação de um filho, uma das que mantive ao longo dos anos foi a de leituras na hora de dormir. O processo evoluiu, passamos das histórias curtas, avançamos pelo reino de Harry Potter e eu aproveitei para exercitar meu apetite por ler escritores nacionais dos gêneros infanto-juvenil e jovens adultos. Dentre os livros que me chamaram a atenção nos últimos tempos eu também incluo (e recomendo a leitura):

  • Ouro, Fogo e Megabytes, de Felipe Castilho, o primeiro da trilogia O Legado Folclórico. A história de um menino da pequena e fictícia cidade mineira de Rastelinho, levado para São Paulo e envolvido numa trama com organizações secretas, uma megacorporação e entidades folclóricas;
  • A Arma Escarlate, de Renata Ventura, também é o primeiro uma trilogia. Sobre um jovem morador da comunidade do Morro Dona Marta em fins dos anos 90 (a mesma época em que ocorre o filme Tropa de Elite e é lançado o primeiro Harry Potter). Ele não tinha muitas perspectivas de futuro até descobrir que existe um mundo bruxo paralelo ao nosso. Sim, as referências são claras, mas a história consegue ir além e andar por si mesma ao longo do livro. O que eventualmente rende uma relação de amor e ódio ao protagonista.
  • O serviço de Entregas Monstruosas, de Jim Anotsu, está na fila de leitura, mas tive boas referências de trabalho anteriores. É sobre uma Belo Horizonte onde o mágico faz parte do cotidiano e um garoto trabalha com a entrega de itens mágicos.

Para o grande público (ou senso comum, se preferir), a maioria das histórias de fantasia se passa em cenários “tradicionais” como Europa, América do Norte ou mesmo versões um tanto “assépticas” do Brasil, como um cenário com nomes em português e sem muito detalhamento.

Porém, nas obras acima vi a busca por um olhar diferente sobre a brasilidade. Algo diferente da polarização entre o ufanismo raso e a pobreza romantizada. Por exemplo, o folclore observado por Felipe tem raízes históricas, aborda referências indígenas e africanas que vão além dos estereótipos. A meu ver, o mundo mágico de Renata Ventura está conectado ao mundo real de uma forma muito mais profunda do que o mundo bruxo de J. K. Rowling (eu adoraria saber o que ela achou de A Arma Escarlate). São histórias em que os autores fizeram um esforço claro e sincero para conectar suas fantasias ao país em que vivem e ilustram bem como colocar esses gêneros no cenário brasileiro está longe de ser algo trivial. Esses livros mostram um contraponto interessante à uma crítica recorrente ao gênero fantasia, considerado apenas como escapismo. Na verdade, o gênero sempre foi pródigo em obras que questionam a realidade por meio do fantástico.

Seria possível dizer que esse tipo de literatura fantástica é regionalista, um estilo de 150 anos atrás que rendeu clássicos como Sagarana ou Grande Sertão Veredas? Eu diria que a resposta vai além do simples “sim ou não”. De fato, existe a busca do genuinamente brasileiro, mas acredito que com menos idealização.

Essa fantasia atual fala de um país, desigual, com pobreza, crime, elites com uma ambição insaciável, degradação ambiental e como esses fatores moldam os conflitos e desafios do enredo. Os autores descrevem um Brasil que não é “cordial”, não minimiza nem joga seus problemas para debaixo do tapete. No entanto evitam a armadilha do complexo de vira-latas.

Os autores colocam suas personagens em um país que precisa superar desafios imensos, mas não se furtam a enfrentá-los. Não é um povo com dor de cotovelo de não ter nascido Europa ou EUA, como costumo a ver em certos conservadores. Não me parece ser aquele Brasil de antigamente, os problemas escondidos, execuções extrajudiciais e que preza por manter uma aparência de alegria e verniz civilidade enquanto manda as periferias pobres cada vez mais para longe do centro. Eles falam do país onde, por exemplo, os ritmos da periferia como samba, funk ou rap não se resumem aos seus nichos e tomam o centro.

O interessante é que essa nova visão de Brasil me lembrou um corte demográfico que vi no livro A Cabeça do Brasileiro. A grosso modo, pode se dizer que o autor observou uma tendência nas pessoas mais jovens e e habitantes dos grandes centros urbanos a serem menos tolerantes à corrupção, porém mais abertos a diversidade e a viver em uma sociedade menos hierárquica.

Creio que a visão de Brasil que vi nesses livros de fantasia reflete um pouco a busca por uma brasilidade que me parece mais promissora do que a dos últimos 500 anos. Não que ela deva ser hegemônica, pelo contrário. A diversidade pode criar conflitos, mas também é uma força e é um dos motores da tão desejada inovação.

Acredito que esse seja uma contribuição essencial para as mudanças necessárias para esse país: inspirar a imaginação dos seus habitantes, mostrando que outro país é possível, com o mesmo povo.

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