Leituras de quarentena: 10 sugestões para conhecer autores nacionais


Uma polêmica que vi no twitter um dia desses foi sobre a suposta ausência de histórias de fantasia e ficção no Brasil. Foi um desses momentos em que fiquei feliz em discordar. Especialmente porque um dos efeitos da pandemia em mim foi justamente a necessidade de ler, e muito, como forma de manter a saúde mental. Assim, fiz bom uso dos algoritmos da Amazon e várias sugestões do twitter para mergulhar no mundo de promissores e  pouco conhecidos escritores de ficção científica, fantasia e terror que trabalham com a nossa Terra Brasilis, como tema, contexto e cenário. Em comum a maioria são produções recentes.

Eu tenho uma certa curiosidade por histórias fora do eixo EUA-Europa de longa data. Não tenho nada contra os dois, mas já estão muito bem representados na indústria cultural e acredito que existem muitas outras histórias interessantes em outros países também. Algo já demonstrado no cinema, especialmente pelos canais de streaming.  Creio que essa abertura para outras produções é justamente um dos bons efeitos da globalização.

Assim, apesar do nosso mercado editorial em crise, como todo o resto, existe uma leva de autores e editoras trabalhando duro para oferecer gêneros literários variados com um tempero e ambientação fortemente nacionais. E é um investimento promissor, os jovens já lêem mais que os velhos no Brasil, com uma ajudinha da providência divina, diga-se de passagem. Abaixo seguem algumas das minhas leituras de 2020. Assim, eu posso dividir minha empolgação com mais alguém além de minha querida esposa, que certamente não aguenta mais me ouvir falando de um livro que gostei. Segue abaixo minha pequena celebração ao dia do escritor e, 25 de julho.

  1. 51-tapzud8lPorém Bruxa, de Carol Chiovatto: Ler essa história e lembrar de Gaiman e J. K. Rowling foi algo inevitável, acredito que ambos achariam o livro inspirador. Porém, é uma obra que anda com as próprias pernas, sem estar à sombra de ninguém. É feminista mas sem cair no panfletário e o uso de tecnologia é característico de uma nativa digital. A construção da magia dentro do cenário é ampla, com soluções elegantes e descreve religiões com um respeito capaz de agradar gregos e troianos. Os personagens são fantásticos, com heróis multifacetados e vilões que dão vontade de espancar. Tudo isso num cenário que transpira à São Paulo, em suas qualidades e defeitos. 
  2. O Lobo de Rua, de Jana P. Bianchi: Essa é uma história curta, mas também uma excelente releitura do mito do lobisomem para o nosso tempo e realidade social. Uma história mais pesada, com algo de punk, com forte crítica social e sobre visões de futuro. Tudo numa São Paulo retratada com excelência. O final deixa um certo vazio, mas é algo bem coerente com o enredo.
  3. 516yx3j7ylRani e o Símbolo da Divisão, de Jim Anotsu: Foi uma leitura instigante em uma história onde seria fácil cair na armadilha do clichê, especialmente com tipos como lobisomens, fantasmas, xamãs, vampiros e cia. Dentre as várias formas de escapar desse risco, uma das soluções está na qualidade dos personagens. A protagonista ficou tão convincente e carismática que só no final da história percebi que o livro tinha um autor e não autora. Outro ponto legal foi a caracterização do cenário, a interiorana cidade de Graúna. Considero um triunfo tornar uma cidade interiorana declaradamente chata para uma cantora de punk em um cenário tão cativante, algo feito com louvor. É um livro juvenil, porém uma obra excelente no que o autor se propôs a fazer.
  4. A Coleção Carcarás, editora Corvus: são diversos contos curtos de diferente autores, variando de 15 a mais de 50 páginas e formam uma boa amostra do nascente gênero Sertãopunk, que produz histórias de ficção científica, distopias, fantasia e terror baseadas no Nordeste.
  5. 51i9wevsvblO Auto da Maga Josefa, de Paola Siviero: Um livro divertido, curto, àgil e com forte tempero regional. Quem gostava de Buffy a Caça Vampiros ou Supernatural vai se sentir representado. O relacionamento entre os protagonistas é áspero e endurecido, mas algo afetuoso e bem-humorado como o clima do sertão. Vale uma continuação.
  6. Rio 2054, de Jorge Lourenço: uma convincente distopia no Rio de Janeiro. Após uma revolta sobre os royalties do petróleo a cidade é devastada por uma guerra civil. A cidade dividida entre a Rio Alfa e Rio Beta, ou “escombros”, fica marcada por uma desigualdade ainda mais profunda e cruel que a atual diferença entre o morro e o asfalto.
  7. 41ilfvw-hlBSS Mariana, de Lady Sybilla: escrito por uma fã ardososa de Star Trek, o que não reduz sua capacidade crítica com a série e a ficção científica em geral. O livro, apesar de curto é interessante e revela um Brasil muito interessante numa história com uma bela reviravolta final. Nunca pensei que seria tão saboroso finalmente ler sobre personagens, naves e estações espaciais com nomes tipicamente brasileiros. É parte da série Universo Desconstruído.
  8. Deixe as estrelas falarem: de Lady Sybilla também. Uma saudável quebra de clichês de ficção. A nave não é de exploração ou militar, mas o prosaico, simpático e comercial cargueiro Amaterasu, parte de uma série de mesmo nome. Personagens bem-construídos e um cenário bem montado.
  9. 51ro0s8sm6l._sy346_A Feiticeira de São Judas Tadeu dos Milagres de Isa Prospero: ainda que seja um conto, admito tem que mandar muito bem para escrever uma história onde a protagonista é uma simpática vozinha de cidade de interior que descobre ser uma bruxa aos 83 anos. A força da história está justamente na inteligência, ternura e qualidade da construção dessa protagonista. Um belo passeio pelo realismo fantástico.
  10. Vilãs, organizado por Clara Madrigano: uma antologia de contos descrevendo diversos tipos de vilãs. Como é escrito por diversas autoras os resultados variam um pouco, mas é uma seleção interessante. Pode ser uma excelente fonte de referência para criação de personagens femininos. Recomendaria para aulas de redação. Meu preferido foi “Abandonada”, justamente o primeiro.

Se você sempre sentiu falta de ler como seria uma distopia, ficção científica ou história de fantasia no Brasil e com personagens que seriam seus conterrâneos, esse é o seu momento. Pode não ser “alta literatura”, mas são livros como esses que fazem as pessoas, especialmente as mais jovens, gostarem de ler. Conhecer e divulgar esses trabalhos também é valorizar a cultura, educação e, em última instância, o país.

8 comentários em “Leituras de quarentena: 10 sugestões para conhecer autores nacionais

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    1. Considerando que geralmente você é a minha fonte eu fico lisonjeado. Mas realmente são autores poco conhecidos, muitos estão nos primeiros livros e estão em editoras pequenas que não podem arriscar grandes investimentos em divulgação.

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      1. Conhecer poucos autores nacionais ainda é um dos meus vários “problemas literários”, aí conheço muito pouco dos autores brasileiros contemporâneos.

        Mas, de fato, como são obras publicadas por editoras pequenas é meio difícil conhecer por causa da divulgação limitada. O que farei já é seguir essas editoras para saber os lançamentos futuros, haha

        Curtido por 1 pessoa

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