Jogamos comida fora e é melhor que seja assim?


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Antes de mais nada, atirem na mensagem e não no mensageiro. Admito que até escrever o título provocou um certo incômodo. A cena de produtos agrícolas sendo jogados é, sem sombra de dúvida, deprimente.

Geralmente são toneladas de alimentos em bom estado que são jogados fora porque o valor da venda é mais baixo que o de produção, até mesmo o transporte não compensa.  As cenas de comida  geralmente são seguidas por uma revoada de gente questionando por que isso não é crime ou por que os governos não impedem isso. Porém, apesar da cena ser triste, ou ultrajante, existe uma lógica nesse tipo de decisão.

O economista Rodrigo Zeidan apresentou no twitter a lógica econômica por trás dessa decisão e ainda adiciona mais força à polêmica: de que seria DEVER jogar essa comida fora. É possível adiantar que a resposta demonstra que o mundo não é simples e ele funciona melhor assim.

Anos atrás fiz uma resenha sobre sua visão inusitada, porém lógica, sobre a educação no Brasil.  Ele tem uma sólida carreira de pesquisa em economia pragmática e finanças sustentáveis e observou que o conceito sustentabilidade vai muito além da esfera ambiental. Nos últimos anos ele desenvolveu um gosto por popularizar as ciências econômicas, trabalhando especialmente exemplos que contrariam o senso comum.

O argumento de um economista

Como o twitter é horrendo para recuperar informações editei apenas o suficiente para ficar menos estranho como texto corrido.

É preciso entender a política de preços mínimos na agricultura, que funciona como um seguro para os produtores agrícolas.  Na época do plantio, o governo determina que produtos receberão esse seguro. Por exemplo, em 2012 foram café, arroz, fécula e feijão. É um seguro porque o preço mínimo é determinado ABAIXO do preço esperado de mercado.

Como todo o bom seguro ele não é planejado para ser usado em condições normais. No  mercado normal os, produtores venderiam ao mercado e o governo não compraria nada. Por isso que é um seguro, como um de carro: o ideal é não ter sinistro. Por que o governo faz isso? Porque a produção agrícola é incerta. Isso significa que: Produtores agrícolas decidem o que vão produzir, mas não sabem quanto vão colher.

Sabem o preço do produto na época de plantio, mas não de colheita. O preço mínimo funciona exatamente como um seguro: o “sinistro” só acontece se o preço cair demais.  Por exemplo, se o preço de mercado esperado é de R$50 por tonelada, o governo poderia colocar preço mínimo de R$40. O produtor teria a garantia que não venderia sua safra por menos de R$40, não importa o que acontecesse. Obviamente, a preferência é por vender por R$50.

Na maioria dos anos, o governo não se mete. Para qualqer preço, na época de colheita, acima de R$40, vende-se no mercado. É como um seguro de carro: o melhor é não usar! O governo também não determina preço mínimo para todos os produtos. Basta alguns.

A razão pra isso é simples: se o produtor quiser alguma garantia, use parte sua terra para produzir algo com preço mínimo. Se quiser produzir soja, por exemplo, vai vender ao preço de mercado, seja qual for.

Nesse exemplo, nos EUA, não há preço mínimo para o leite (há para outros produtos) e produtores jogam fora.  O que acontece quando há algum problema de demanda ou excesso de oferta e o preço despencaria (por exemplo, para R$10). Aí entra o governo. Ele compra o “excesso” de produção até o produto chegar, no mercado, a R$40. Mas o setor público é passivo nessa história! Ele anuncia que compra a R$40 e os silos estão lá. Na maioria dos anos, não aparece ninguém. Tudo bem! Mas se começarem a aparecer produtores, os silos vão enchendo até o preço bater R$40. Ou seja, seja vendendo pro mercado ou pro governo, o produtor recebe R$40 por tonelada.

Os benefícios do seguro são simples: impedir quebradeira do setor agrícola, limitar a volatilidade de preços, e impedir o êxodo rural. Basicamente, TODOS os países fazem isso! Os benefícios são claros. Os custos dessa medida são: (11/n)

E então. O que vcs acham da política? É o MELHOR exemplo de uma política bem desenhada. É um seguro, não incentiva distorção de produção (ninguém quer vender a R$40 e sim a R$50 ou mais), limita falências no setor rural e tem custos baixos. Os benefícios da política são claros, assim como os custos. Mais importante, o benefício social líquido da medida INDEPENDE do que acontece com os produtos comprados pelo governo. Mas e aí? O que o governo faz com a comida que compra?

Por que o governo não distribui para os pobres?  Porque o governo não tem estrutura de distribuição e mesmo que essa comida chegasse aos pobres, isso diminuiria a demanda pelo produto, o preço cairia e o governo teria que recomprar o alimento.

E por que o governo não doa pra escolas? Porque escolas compram aquela comida. Se receberem de graça, a demanda pelo produto cai, o preço cai abaixo de R$40 e o governo tem que recomprar o produto que deu. Fora os custos de distribuição.

Por que o governo não doa pra outros países? Voltando ao ponto anterior, por que o governo não tem estrutura pra fazer isso (nem deve contratar gente pra ficar sentada na maioria dos anos). A ideia é ter o mínimo de custos. Silos e estrutura administrativa enxuta! Na maioria dos anos não se compra nada.

Não há solução! Se essa comida voltar ao mercado, os preços baixam, e o governo tem que recomprá-la! Nos EUA, a solução é um pouco diferente. O governo paga pros agricultores NÃO COLHEREM. A comida estraga, mas sem custos de colheita e distribuição até o silo.

No Brasil, isso não daria certo. Os agricultores receberiam a grana, fariam a colheita e tentariam vender no mercado. De qualquer forma, se você é a favor ou contra essa política, o que acontece com os alimentos comprados é IRRELEVANTE!

O que nos leva a última observação. Ninguém no planeta terra morre de fome por falta de comida. Morre por falta de dinheiro. Isso vale no Brasil, na África, na Ásia ou em qalquer outro lugar do mundo. Mas termino com o exemplo da China, onde produção era feita sem preços. De 20 a 40 milhões de pessoas morreram de fome, porque o sistema de quantidades comunista, sem preços, levou a distorções de produção, que somadas a problemas climáticos, gerou a grande fome no país em meados do século XX.

No final, você tem duas opções: ou concorda com o sistema de seguro ao produtor agrícola através de preços mínimos, ou não. Mas se achar que é um bom sistema, como eu acho, TEM QUE ser a favor de jogar comida fora. Quer resolver a fome? Aumente o valor e amplie o Bolsa Família! Nada diminuiu tanto a fome no Brasil quanto esse maravilhoso programa. Além disso, dá autonomia às pessoas. Não forçam elas a ter acesso à comida que elas podem não querer. Jogue-se comida fora. É bom. Fim.

Conclusão

É importante observar que a existência do desperdício não foi negada. É até possível discordar, mas o cerne do argumento é que jogar o alimento fora é a opção menos ruim comparada com as alternativas. Como o autor disse, a produção agrícola é um empreendimento e, como tal, tem seus riscos. É uma solução dura mas o objetivo é evitar problemas maiores. Felizmente o extremo do excesso de oferta não é algo comum.

Há quem considere o desperdício um efeito perverso do sistema, especialmente da industrialização da agricultura e de monopólios, ou que isso só acontece dentro da lógica do sistema capitalista. Mas o ponto aqui me parece ser pragmático, ninguém disse que o sistema é perfeito.  As medidas para evitar esse desperdício envolvem controlar os preços ou dizer o que e quanto os agricultores devem plantar em suas propriedades. Precedentes históricos ocorridos a União Soviética e a China que acabaram com a livre iniciativa e propriedade ilustram como a emenda pode sair pior que o soneto.

Por outro lado, para a tristeza dos defensores do estado mínimo a qualquer custo, esse é um exemplo claro das limitações da “mão invisível do mercado” e demonstra como a intervenção do estado no mercado é realmente necessária em alguns momentos. Como observado em “Porque as nações fracassam” a simples existência do mercados não é uma garantia que eles sejam inclusivos e abertos a inovação.

Como economia é ciência e melhora com o dissenso eu adoraria ver um debate sobre o assunto com outro bom economista. Lembrando que a economia não flutua no vácuo, não existe ciência absolutamente neutra. De qualquer forma, o caso me parece um daqueles que justifica a divulgação científica.  Serve para mostrar como uma decisão tão contrária à intuição ou o mais básico senso senso comum tem sentido.

Como dizia o jornalista H. L. Mencken “Para todo problema complexo existe sempre uma solução simples, elegante e completamente errada”. Observar esse tipo de fenômeno é uma das razões de ser da ciência.

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