Envelhecer é um processo inevitável, mas existe um razoável esforço da ciência para lidar com o processo e, possivelmente, torná-lo mais lento. A prática de artes marciais por pessoas de quarenta anos ou mais está entre elas.
Dentre os efeitos inevitáveis da idade no cérebro estão: perda de memória de curto-prazo, redução de capacidade muscular (incluindo a cardiorespiratória) e redução de velocidade no processamento cerebral. O processo de envelhecimento é complexo e muda de acordo com a pessoa. Alguns permanecem como eram quando jovens enquanto outros demonstram um certo declínio. Tais diferenças seriam causadas por diferentes níveis de saúde, com um grande impacto do estilo de vida. Porém memórias já internalizadas, como se lembrar como nadar ou falar parecem ser menos afetadas pelo envelhecimento. Ao mesmo tempo seria possível compensar essa perda de capacidade, o que os neurologistas chamam de plasticidade cerebral. Algo especialmente importante para quem é mais velho e pensa em começar algo.
É algo aceito na comunidade científica que a prática de atividades físicas em geral reduz o risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares e neurodegenerativas. Ela não apenas aumenta seu tempo de vida como melhora sua qualidade. Pessoas mais velhas que tem estilos de vida mais ativos e praticam atividades regulares geralmente tem memória e habilidades de aprendizagem melhores do que pessoas sedentárias da mesma idade.
Os estudos afirmam que atividades que envolvem coordenação motora e exercícios aeróbicos, algo básico na maioria das artes marciais, são as mais efetivas para combater os efeitos do envelhecimento. Essa combinação demonstra ser mais efetiva do que exercícios simples, especialmente no aspecto cerebral. Outras atividades que oferecem ganhos próximos seriam dança e, por incrível que pareça, video games com exercício físico, os exergames. A prática contextualizada parece fazer a diferença.
O Medical News Buletin publicou um ótimo artigo mostrando um pouco sobre a prática de artes marciais como forma de lidar com a idade. O site Evolve MMA também é otimista ao considerar que artes marciais podem ser algo próximo a uma fonte da juventude. A prática, além de tornar as pessoas mais saudáveis, também atrasa o processo de envelhecimento. Dentre esses o meu preferido foi o de Paul Zehr na Psychology Today, por melhor apresentar referências, quase uma revisão de literatura. Uma das razões para eu gostar tanto do site.
Os Estudos
Estudos usando neuroimagem indicam que, em pessoas mais velhas, a prática de artes marciais melhora a velocidade de reação, raciocínio espacial e visão periférica, melhorando a capacidade de perceber objetos se movendo rápido. Uma revisão de literatura sobre neurologia pedagógica sugere uma impacto positivo da prática de capoeira.
Outro estudo comparou pessoas que treinam karate ou judo e pessoas sedentárias da mesma idade. Os que treinam mostraram mais habilidade para observar detalhes em objetos em movimento e, como outros estudos, melhor visão periférica. Um estudo neurológico taiwanes observou que Praticantes de Tai Chi demonstraram melhor maior ativação do córtex-pré frontal do cérebro e maior habilidade para analisar figuras complexas do que sedentários da mesma idade.
Outro, da Universidade Otto-von-Guericke publicado em 2016 observou que 5 meses de karatê praticado duas vezes por semana em sessões de 60 minutos melhorou a capacidade fazer de tarefas múltiplas e andar entre homens e mulheres com idade de 62 a 86 anos. Essa capacidade pode parecer usual mas é preciso considerar que quedas são um risco para idosos e melhorar essa capacidade pode significar um ganho de longevidade.
Uma vantagem cognitiva é que o aprendizado de uma arte marcial muito variado. E um bom aprendizado é essencialmente um desequilíbrio cognitivo controlado, a novidade mantém o cérebro atento. Assim, sempre existe uma coisa nova para aprender. Para um praticante dedicado é uma nova experiência a cada aula, o que também exercita a capacidade cerebral e física. Outro ganho é o da socialização dentro das aulas: um ambiente de treino saudável funciona como uma comunidade de aprendizado conjunto. A simples mudança de parceiro de treino ou mesmo uma sessão de sparring, um treino de luta com semi-contato, já oferecem novas e estimulantes situações de aprendizagem. O que também rende um ganho de autoconfiança para o praticante, sem contar que esse fator somado à socialização reduz o risco de depressão.
Qual a melhor arte?
Essa pergunta tem uma resposta bem pessoal, cada um vai ter uma solução diferente. Dentre as várias opções estão Muay Thai, Jiu-Jitsu, Aikido, Karate, Judô. Minha preferência seria para as lutas com menos impacto, com manipulação de articulações, como o Jiu-Jitsu, Aikido, Suai Jiao, Systema russo e Judô. Eu também recomendo as artes armadas filipinas como o Arnis Kali, ou a japonesa Kobudo. O uso de armas brancas compensa a questão da força muscular e os ganhos de reflexo, autoconfiança e coordenação motora são similares. Inclusive, as vantagens do Arnis para os idosos são semelhantes às vantagens para mulheres. Como esse tipo de treino costuma a usar proteções, como luvas, capacetes e armas de sparring, o risco de dano físico é reduzido.
O principal é encontrar um professor que se adeque às características de alguém mais velho. Alguém mais focado em performance ou que não esteja atento as peculiaridades de cada aluno pode ser um risco de lesões. Professores mais velhos podem ter essa percepção ou mesmo aqueles que tenham experiência em massagem, fisioterapia ou medicina. O professor-curandeiro é meu estereótipo preferido. Assim, é importante que alguns praticantes mais velhos considerem 5+1 recomendações para praticantes com mais de 40 anos.
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