Memórias da Quarentena


quarentenaO Ano de 2020 tornou-se inesquecível devido à pandemia de Covid-19, também conhecido como coronavírus. O que rende aquela sensação estranha de ser parte de um evento histórico de impacto mundial e isso não ser nada agradável. Em alguns anos certamente vão haver conversas do tipo. Onde você estava durante a pandemia? Até porque devido ao isolamento social, a pessoa certamente ficou no mesmo lugar por um bom tempo.

As mudanças na escola

Uma das primeiras coisas a parar foram as aulas. Diversas escolas passaram a enviar as aulas pela web para os pais aplicarem em casa. O que para vários pais está sendo um inferno pois além de fazer teletrabalho ainda precisam desenvolver habilidades pedagógicas que não tinham para ensinar as crianças. Por um lado isso pode ter um efeito interessante de valorização do trabalho do professor, muita gente está descobrindo na pele que a vida desses profissionais nunca foi mole. Espero que ao menos isso resulte numa valorização dos professores.

A maioria das escolas está fazendo um ensino a distância (EaD) de emergência. Algumas estão querendo contar os dias letivos durante a quarentena e outras estão com o assunto em discussão. Já trabalhei com EaD e creio que é preciso definir quanto seria um dia letivo na situação atual. Não ficaria surpreso se for necessário algo como 3 a 5 dias para fazer 1 dia letivo normal (em um chute grosseiro). Os pais não são profissionais, nem o ambiente, muitos estão afogados em teletrabalho e o tempo de aula e atenção necessários aos alunos estão longe do ideal. Sem contar que eu, pelo menos, não sei de estudos sobre EaD para crianças. Já vi até ensino de artes, mas para adultos. Ead é muito mais exigente em termos de planejamento. Especialmente por que o professor não tem um feedback direto das crianças para poder fazer um ajuste de curso se for necessário. Em muitos casos os resultados só serão avaliados no final da quarentena.

Quem vai poder avaliar isso seriam os professores. No momento, se as crianças não retrocederem pelo simples fato de estarem praticando algo já me parece um resultado razoável. Mas sei que várias escolas estão pressionando para considerar os dias letivos e compensar custos. Nesse ponto, fico feliz com a nossa escolha de escola, especialmente por ser uma escola comunitária waldorf: os professores tem sido claros em dizer que a saúde mental das crianças é prioritária frente ao conteúdo anual.

Quando conhecimento é tão útil quanto angustiante

Anos atrás eu trabalhei na Anvisa e fiz uma especialização em Saúde Pública. Uma das coisas que estudei foi história das epidemias, pois uma das funções da vigilância sanitária é a vigilância de portos, aeroportos e fronteiras para monitorar e prevenir doenças entrando em países e cidades. Como minha área de trabalho era na comunicação eu me lembro dos vários plantões que passei preparando relatórios sobre a situação, alguns iam para o público e outras autoridades. Foi quando vi como a comunicação em saúde é um assunto espinhoso. Por exemplo, durante um surto de febre amarela no DF houve casos de gente que ficou doente por overdose de vacinação. Pessoas desinformadas burras demais para entender e foram à diferentes postos para se vacinarem várias vezes. Como diria Willy Wonka é por causa de pessoas assim que o Xampu vem com instruções.

Para aqueles que acreditam que nós, os mais novos, emburreceram ou esqueceram experiências anteriores aviso que as polêmicas contra as medidas de saúde são antigas. Aproveitei as brigas em redes sociais para fuçar nas referências da minha monografia em Saúde Coletiva e descobri alguns exemplos deprimentes:

O que as pessoas não percebem é que, no longo prazo, o estrago de omitir essas medidas  é ainda maior.  É verdade que quarentena, isolamento social e outras medidas sanitárias afetam a economia e isso é um problema sério. Porém a história ensina: cidades que usaram de mais isolamento social durante a epidemia de gripe espanhola se recuperaram mais rápido. São medidas danosas no curto prazo mas que compensam no médio e no longo. O estrago econômico é ainda maior se as medidas tomadas forem muito fracas. A solução adotada pela maioria dos governos do mundo tem sido gastar como se não houvesse amanhã, inclusive para manter empregos e negócios abertos. Como disse o empresário Daniel Castanho, é preciso entender que todos fazemos parte do mesmo ecossistema. Como disse o economista Rodrigo Zeidan o PIB no momento não importa. De fato, a queda do PIB demonstra o quando o governo de um país se dispôs a sacrificar a economia para salvar pessoas.

avenida_w3_sul_praticamente_vazia_na_manha_de_3a_feira2403209961
fonte: Revista PEGN

O dia-a-dia

Um efeito da situação são os novos rituais que adquirimos. Comecei como a maioria, no grupo dos que acha graça de quem usa tanta coisa, mas de acordo com a subida do número de infectados nos gráficos fui para o grupo dos que ouve as risadas. Efeito angustiante do conhecimento. Por outro lado além da experiência profissional eu trabalhei como voluntário no Hospital da Criança. A ala de internação tinha vários casos de crianças com baixa imunidade, então passei por um curso bem básico de boas práticas hospitalares. Uma experiência que foi bem útil para os atuais rituais. Eu passava uma parte razoável do meu tempo no hospital higienizando o meu material de trabalho. Em certos casos era preciso até usar equipamentos de proteção, e trocar todos eles entre um quarto e outro, para proteger os pacientes.

Agora há uma roupa de saída separada, máscara, luvas e eventualmente um casaco com capuz dependendo da aglomeração. Como aquela inevitável do mercado. Eu prefiro usar logo as luvas e não ter que ficar usando álcool ou lavando as mãos o tempo todo. Gasto menos em álcool, preocupação e evito sair com a pele da mão ressecada de tanto lavar. Sair com a mão ferida e mais arriscado que sair sem luvas. A volta para casa envolve tirar os sapatos e deixar numa “área suja” separada. Limpar todas as coisas, da carteira às compras, retirar as roupas, colocar para lavar ou esterilizar, tomar um banho e só depois disso dar o trabalho por terminado. As saídas são raras e o ritual de antes e depois ajuda a mantê-las assim.

Livros

Para manter a sanidade e usar o tempo confinado uma boa opção tem sido os livros. Há varios contos de ficção e fantasia disponíveis na Amazon, de autores criativos e pouco conhecidos que merecem mais leitores. Li “Lobo de Rua” de Jana Bianchi; “A feiticeira de São Judas Tadeu dos Milagres” de Isa Prospero; “Deixe as estrelas falarem” e “BSS Mariana” de Lady Sybylla e o “Auto da Maga Josefa” de Paola Siviero. Em comum são histórias de fantasia e ficção científica com um tempero brasileiro, do tipo que só alguém  que viveu no Brasil poderia contar.

TV

Inevitável nesse período, ao menos estou aproveitando para rever os desenhos do estúdio Ghibli. O consumo de serviços de streaming tem sido alto, mas tentamos conter o uso para manter a saúde mental.

Trabalho

Ainda que reduzido o trabalho continua, mas ainda que a tecnologia tenha avançado muito, tornando ele possível, em alguns momentos as coisas ficam bem mais lentas. Especialmente em termos de consulta e tomada de decisão. Fica um tanto mais penoso usar o equipamento de casa e concorrer com a atenção do filho, esposa trabalhando também e etc. Acredito que meu confinamento torna a vida mais segura para aqueles que não tem essa opção. Mas ao contrário do que dizem o confinamento está longe de ser um conforto ou bônus para a produtividade.

Família

Estar em confinamento é um teste de relacionamento, mas até que estamos sobrevivendo razoavelmente bem. A ausência de privacidade pode ser cansativa. O filho sem relacionamento social além da família e confinado em poucas dezenas de metros quadrados também. Mas, sem dúvida nenhuma, são as melhores pessoas que tenho para me acompanhar confinado.

Perspectivas

Ruins. O país está no meio de uma pandemia global e o país é governado por um presidente que não está a altura do desafio. Independente da ideologia ele me parece estar apresentando um caso de punção de morte, tanto que até governadores de direita estão adotando suas medidas e o presidente ataca seu ministro da saúde. Eu vejo pessoas preocupadas com a recessão que virá com a quarentena, mas elas ainda não entenderam que, ainda que seja um problema sério, essa é a MELHOR das hipóteses. As alternativas são ainda piores.

Em abril de 2020 os Estados Unidos, o país mais poderoso do mundo, está batendo em meio milhão de infectados e soltando um pacote de ajuda de uns 2 trilhões para salvar a economia. Não acho que o presidente Trump virou esquerdista. Um porta aviões deles está sendo evacuado, um dos navios mais poderosos do >mundo inutilizado por um vírus.

Me pergunto o que nos espera no próximo mês e só me resta torcer para estar errado. Olho para as pessoas elogiando médicos e faxineiros ao mesmo tempo que desdenham a quarentena. E me lembro que o ministério começou a procurar veterinários e biólogos, não ficaria surpreso se uma das razões seja se preparar para o momento em que os médicos e enfermeiros começarem a adoecer em grande número.

Se eu estiver errado eu vou ficar feliz, já imaginou o estrago se o erro não for meu? Pelo que entendi, o isolamento social está abaixo do necessário, o mínimo seria algo em torno de 70% e os dados do google sugerem algo por volta dos 50%.

Imagino o estrago que um surto pode provocar num grupo que não pode ficar em casa, como os policiais. Se um porta-aviões parou imagine uma delegacia, um quartel? Alguém vai botar a cara na rua quando eles ficarem doentes? Na verdade vai ser rua ou selva?

Agora é torcer para estar errado e que as próximas semanas sejam melhores do que eu temo.

Deixe um comentário

Blog no WordPress.com.

Acima ↑