
Nossa espécie é o homo sapiens sapiens, o homem que sabe e tem consciência do que sabe. Assim, o estudo da mente humana sempre foi uma fonte de interesse, especialmente dos seus aspectos mais sombrios. O que pode ser demonstrado pelos livros sobre psicopatas, séries e filmes sobre criminosos. Tanto que um dos grandes filmes do ano de 2019 foi Coringa. Essa atenção talvez seja reflexo de uma tendência muito humana a se concentrar em coisas que devem ser “resolvidas”. Dessa forma, a ciência se dedicou muito a estudar o lado sombrio da natureza humana, agrupado no que foi conhecido como a Tríade Sombria (dark triad em inglês):
- psicopatia (que surpresa não?);
- maquiavelianismo e
- narcisismo.
O tipo de gente que tem essas características em alto grau quebram normas sociais em benefício próprio, podem ser imprevisíveis e são consideradas tão fascinantes quanto assustadoras e perigosas.
Porém, a natureza humana é muito variada e existem outros aspectos dignos de nota. Para mostrar isso segue uma resenha, com muito de tradução, de um artigo de Christian Jarrett na revista Psychology Writer sobre o lado bom da humanidade. Representado por aquelas pessoas cuja compaixão e abnegação são exemplares. Os pesquisadores estudaram o altruísmo, perdão, gratidão e outras jóias do nosso comportamento porque acreditam que o lado bom da personalidade humana não mereceu a mesma atenção dada ao nosso lado sombrio.
Assim, Scott Barry Kaufman e um grupo de pesquisadores da Universidade de Colúmbia, estudou o assunto, propondo que os vários estudos sobre a tríade sombria acabam criando um retrato enviesado da humanidade. Assim, eles levantaram as características “boas” da personalidade humana e os resultados psicológicos associados a aspectos positivos e criaram um instrumento de pesquisa que eles chamam de “Tríade da luz”.
Os pesquisadores tomaram o cuidado de que seu novo instrumento não seja simplesmente o questionário para a Tríade do Mal ao contrário e também procuraram ajuda de especialistas em psicologia da personalidade para ajudá-los a criar esse novo instrumento. Os participantes da pesquisa consideraram diversos indicadores de personalidade, resultados psicológicos, valores e bem-estar, entre outros.
Depois de eliminar redundâncias, os pesquisadores definiram uma nova escala, baseada em três características:
- Kantianismo – Tratar as pessoas como um fim em si mesmo e não como ferramentas para um propósito, medido pela concordância com afirmações como “Eu não me sinto confortável manipulando abertamente as pessoas para fazerem o que eu quero”;
- Humanismo – Valorizar a dignidade e valor de cada individuo, medido pela concordância por declarações como “Eu tenho tendência a tratar outras pessoas como valiosas;
- Fé na Humanidade – Acreditar na bondade fundamental das pessoas, medido pela concordância com afirmações “Eu acredito que a maioria das pessoas é boa”.
Participantes que marcaram alta pontuação nos itens da Tríade da Luz tiveram resultados apenas um pouco mais baixos nos itens da Tríade Sombria. O que deixa claro que uma não é necessariamente o oposto da outra e, como esperado, todos nós temos níveis variáveis de bondade e maldade. Algo inspirador observado por Kaufman e a equipe foi que as pontuações dos participantes eram mais inclinadas para pontuar na Tríade da Luz do que na Sombria (veja abaixo). Nas amostras estudadas a Malevolência extrema, pontuação alta na Tríade Sombria, foi algo raro. Um dado que mostra que no geral a humanidade pode ser melhor que as redes sociais mostram. Lembrando que um bom questionário é feito para superar a questão da aceitabilidade social: as pessoas falarem o que acham que seria socialmente aceitável.

No geral, e consistente com outras pesquisas, os participantes mais jovens, do sexo masculino, motivados por poder, sexo e ambições egoístas, tinham tendência a pontuar mais alto na Tríade Negra. Ao mesmo tempo que também tenderam a pontuar mais baixo em satisfação com a vida, simpatia, nos valores autotranscendentes (um traço de personalidade que envolve a expansão de limites pessoais, incluindo, experiências de ideias espirituais, como considerar-se parte do universo), compaixão, empatia e crença no bem da humanidade. Pessoas com o seguinte perfil tendem a pontuar melhor na Tríade da Luz
- mais velhos;
- mulheres;
- gente que teve uma infância estável (e provavelmente feliz);
- os mais espirituais .
Essa pontuação foi associada com algumas “sequelas” como mais satisfação com a vida, com os relacionamentos, compaixão, empatia, mente aberta, humildade e fé na bondade dos outros.
Para mostrar que o mundo não é um fla x flu do bem contra o mal, em certos contextos, os pontuadores mais altos na Tríade do Mal também indicaram:
- mais parceiros sexuais casuais,
- maior criatividade,
- bravura,
- assertividade
- liderança.

O aspecto bravura me lembrou uma frase do Benjamin Disraeli sobre a coragem dos canalhas. Também foram observadas as possíveis desvantagens em ser um “santo” como elencado abaixo:
- pouca motivação para a realização e o auto-aperfeiçoamento;
- propensão à culpa;
- confiança e compaixão excessivas que poderiam expor a pessoa à exploração.
No geral, Kaufman e seus colegas acreditam que as pessoas que pontuam mais na Tríade da Luz tendem a ter maior qualidade de vida. Essas pessoas seriam mais agradáveis para se relacionar e provavelmente exercem influência positiva no mundo à sua volta.
Sobre as limitações do estudo, os pesquisadores enfatizaram que esse é um trabalho exploratório, algo inicial que ainda pode ser expandido e pode ser melhor validado. A maioria dos participantes era dos EUA e do Reino Unido e a maioria dos dados veio de auto identificação. A única exceção foi um jogo de economia usado na avaliação em que as pessoas que tendiam mais para a Tríade da Luz mostraram ser mais generosas que outras.
Kaufman, acredita que a análise da Tríade da Luz ajuda a observar um visão de mundo humanista, que inclui uma crença na bondade humana e a motivação para tratar outras pessoas como importantes independente dos benefícios que elas possam nos trazer. Segundo o autor vivemos num mundo onde todo mundo coloca seus problemas e causas em primeiro lugar, o que nos leva a perder a noção da dignidade e importância fundamental de cada um.
Em termos terapêuticos o Dr. Kaufman sugere trabalhos para mudar as perspectivas atividades como meditação ou mesmo contato com pessoas muito diferentes com racionalidade, compaixão, gentileza e curiosidade (como o trabalho de Paul Bloom). Aumentar a auto-compaixão (self-compassion) seria outra opção: os pesquisadores encontraram uma forte correlação entre se considerar bom e pensar que os outros também sejam.
Conclusão
Kaufman e seus colegas David Yaden, Elizabeth Hyde and Eli Tsukayama esperam que seu trabalho incentive mais investigações acerca dos efeitos que as características observadas na Tríade a luz podem produzir. Para os falantes do idioma bretão é possível fazer o teste das tríades em Take the new Light Triad test. Claro, quem tiver disposição para encarar o outro lado também pode fazer o teste da tríade sombria.
Referências
O artigo do Jarret – Psychopaths And Narcissists Have Hogged The Limelight, Now It’s Time To Explore The Saintlier Side Of Human Personality, Say Researchers, As They Announce A Test of The “Light Triad” Traits
O paper original de Kaufman et al, publicado na revista Frontiers in Psychology. – The Light vs. Dark Triad of Personality: Contrasting Two Very Different Profiles of Human Nature