O Sama Sama de 2019


O termo Sama Sama vem do tagalog e significa encontro, nesse caso um evento de Artes Marciais Filipinas (FMA) ocorrido no final de 2019. Um evento que comentei em sua edição de 2015. Esta descrição não será cronológica mas apenas um apanhado de aspectos que eu pude observar. Nesse ano foram comemorados os 43 anos da academia Magka Isa, que sedia o sistema de Arnis Kali Maharlika e boa parte das atividades foi conduzida por seus fundadores.

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Aniversário da academia. Foto: Dada Inocalla.

Foi uma oportunidade de encontrar gente com os mesmos gostos estranhos que você, como passar uma manhã de sábado usando bastões, tentando acertar essas pessoas enquanto elas tentam fazer o mesmo com você e todo os presentes achando isso extremamente interessante. O que é ótimo pois se pode treinar com gente diferente, a diversidade aumenta e isso ajuda na aprendizagem. Treinar com alguém novo ou diferente do tipo físico ou habilidades que o usual é sempre uma forma saudável de sair da zona de conforto. Um evento como esse também um daquelas situações em que você entra acreditando que sabe muito e ao longo do processo vai descobrindo que ainda há muita coisa para ser explorada, o que é muito bom.

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foto: Paulo Catanhede

Boa parte das atividades foi conduzida pelo Datu Shishir Inocalla e os movimentos que ele mostrava, ainda que sejam  os mesmos que já vimos nas aulas de sempre, tinham uma abordagem tornava tudo diferente. Normalmente trabalhamos em movimentos fundamentais, o que não é ruim, afinal são manobras essenciais. Porém Shishir focaliza no fluxo de movimentos. A palavra-chave me parece ser “conexão”. Não existe mais início ou fim das sequências. Elas simplesmente se conectam num fluxo único. Os movimentos começam mas parecem não terminar, o ataque é seguido pelo bloqueio, que leva ao contragolpe, o colega de treino entra com outro ataque e o ciclo continua. As separações entre os movimentos somem é possível ver que os mesmos movimentos que funcionam com bastões, são similares às facas e mãos livres, é possível perceber uma base comum, mesmo com as devidas adaptações. O foco parece ser na dinâmica do movimento e na capacidade de conectar um movimento no outro.

Um exemplo dessa diferença de abordagem pode ser observado no Sinawali. O termo significa “tecer” é uma série de exercícios com 2 bastões que é muito útil para desenvolver coordenação motora. No método do Shishir essa “trama” se torna mais densa, o número de golpes aumenta e o espaço entre um golpe e outro diminui. Apesar de praticar já há alguns anos, certos aspectos do sinawali ficaram mais claros durante essa aula.

Também tivemos um exame de faixa. O que foi interessante por incluir um exame para faixa preta. O que significa a oportunidade de ver várias partes do currículo, como os desarmes (agaw), derrubadas (dumog) e cia. Mesmo sem estar sendo examinado é sempre bom participar para fazer sparring para os colegas participantes de exame e ter a chance de lutar e arbitrar lutas. Atuar como arbitro é interessante para se educar a visão, aprendendo a ver a luta com um olhar mais criterioso e neutro.

Outro momento foi uma oficina com a Dra. Marilou Inocalla. Onde ela trabalhou o corpo, mente e espírito através da prática da meditação como uma forma de se purificar de pensamentos negativos e desenvolver uma atitude mais positiva.

Um bônus do evento foi uma conversa que tive com o mestre Ricardo Nakayama, uma sumidade brasileira em termos de defesa pessoal armada e desarmada, sobre a preparação mental para situações de violência. Ele comentou sobre como a maioria das pessoas não está acostumada a lidar com situações de violência e como o treinamento em artes marciais deve considerar esse aspecto. Portanto é preciso aceitar que existe uma inibição na maioria dos seres humanos atacar outros. Um exemplo documentado que ele citou, na segunda guerra mundial apenas 20% dos soldados americanos realmente atiravam para matar, o que não era covardia, mas reflexo dessa inibição. Como consequência  os treinamentos mudaram, tanto que o índice já estava em mais de 90% na época da operação Tempestade no Deserto. Assim, seria preciso também se fazer um treinamento para lidar com a idéia de se machucar e, especialmente, de machucar outra pessoa para fins de autodefesa. Segundo ele, uma das formas de fazer isso é se buscar treinos de luta tão próximos do real quanto possível, especialmente treinos não-colaborativos, em que a outra pessoa resiste ativamente. Assim, é preciso equilibrar o realismo e a integridade física. O que se torna ainda mais complicado com o uso de armas brancas. Um modo de se obter isso sem muito estrago, especialmente se você já passou dos 40, é treinar com proteções como capacetes e luvas ou usando armas que façam menos dano. Por exemplo, os Dog Brothers, trabalham nessa linha. A questão é o equilíbrio entre realismo e evitar ferimentos que incapacitem o treino. As soluções são bem pessoais.

O final do evento foi coroado com um almoço em que conversei com o Ricardo e mais dois colegas, um policial e outro coordenador de segurança. O almoço foi mais uma aula informal onde pude aprender com a experiência real dos colegas. Foi possível entender melhor os limites do equipamento menos letal, como tasers, spray de pimenta, ver como diversas situações de defesa pessoal podem ser imprevisíveis e ressaltar a importância do treinamento constante.

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