Introdução

Uma das (várias) exigências para o avanço dentro do sistema Inocalla de arte marcial filipina Arnis Kali é um tanto inusitada: ler um livro chamado Guia para a Conduta Humana, de Prabhat Ranjan Sarkar pela Editora Ananda Marga Yoga e Meditação. O livro não ensina nenhum golpe, movimento ou respiração. Na verdade, seu foco é algo bem diferente, ele versa sobre a moral, descrita como uma boa conduta. No caso, essa moral não é vista como o ponto culminante de uma caminhada espiritual mas seu início, a base das práticas espirituais. Assim, ela está além da mente ou do ego e não deve ser “enganada” ou torcida pela retórica racional. Se por um lado esse caminho exige algo do indivíduo por ou ele também ajuda a construir o equilíbrio mental útil para superar os instintos humanos mais básicos, como ódio, inveja ou medo.
Portanto, o guia não é um conjunto de leis e regras imutáveis escritas em pedra, uma fórmula a ser seguida com precisão. O guia trabalha com princípios e admite que o contexto variado exige entender a moral como uma força dinâmica, o resultado de uma batalha interior constante contra forças como a mesquinhez ou o desejo de prazer fácil e instantâneo. É uma construção constante que pode ser desfeita de repente: “A moral de uma pessoa ética pode desaparecer a qualquer momento”(2011, p 12). Assim como lutas são fluídas e imprevisíveis a construção dessa moral é algo que não pode ser garantido por certificados ou faixas, mas um processo constante do qual não se deve descuidar ou tomar como assunto resolvido.
Dessa forma, não seria possível a evolução espiritual sem a busca desse fundamento de conduta moral. Porque pode ser suplantada pelos desejos materiais ,colocando esse avanço em risco e até mesmo causando danos. Assim, o guia não trabalha com leis, mas com princípios, que devem ser aplicados de acordo com a situação. O primeiro grupo tem como objetivo ensinar o autocontrole físico e psíquico, o Yama, que se desdobra nos princípios abaixo.
Os Princípios
Ahimsá: não ferir nem prejudicar qualquer um por pensamentos, palavras ou ações. Pode soar óbvio, mas já nas primeiras páginas é livro mostra como uma interpretação exagerada desse princípio é absurda: animais morrem quando nos alimentamos, assim como morrem quando aramos a terra para o plantio. Assim, a idéia do Ahimsá não anula o direito e a necessidade de defesa e autopreservação. Nesse ponto surgem algumas sutilezas interessantes: É aceito que o conflito e o uso da força para superar obstáculos fazem parte da vida. Esse princípio me parece estar mais ligado ao sentido de não produzir sofrimento de forma deliberada e, principalmente, evitável. A violência deve ser evitada tanto quanto possível, mas existem possibilidades em que seu uso é aceitável ou mesmo necessário. Usar a força contra um agressor é coragem, fugir dele pode ser simplesmente covardia disfarçada de pacifismo e perdoar sem tentar corrigir a natureza do erro é encorajar a injustiça. Em uma situação onde o combate é inevitável é melhor lutar. Um exemplo de pacifista que provavelmente entenderia esse princípio de forma confortável é o autor (e ex-soldado) israelense Amos Oz que ao mesmo tempo que buscava a paz apoiava do direito de autodefesa israelense.
Em termos de defesa pessoal, considero esse o princípio mais importante e só entendi ele bem depois de um comentário do Guro Miguel. Afinal, soa um tanto contraditório não ferir quando o assunto envolve aplicação de violência, mas é preciso estar em paz para aplicá-la. Parafrasendo o Jordan Peterson uma pessoa inofensiva não é uma boa pessoa, a boa pessoa é perigosa mas voluntariamente escolhe ser pacífica. É aquela que vai usar de violência para proteger a si e aos outros e não por autoafirmação, medo descontrole emocional ou sadismo. Violência não deveria ser praticada por amadores.
Se considerarmos características como altruísmo, narcisismo e psicopatia como escalas, um nível adequado de psicopatia significa coragem, uma pessoa boa nos moldes propostos por Peterson teria um alto grau de altruísmo, um grau razoável de psicopatia e pouco de narcisismo. Descrevo melhor o assunto em um texto sobre as tríades da psicologia.
Acho que o aprendizado do Ahimsá deveria ser fundamental na formação de forças de segurança em geral. Uma pessoa que segue esse princípio, mesmo que não tenha sido formalmente apresentada a ele, seria o agente de segurança perfeito. Alguém em paz, isento o suficiente para diferenciar alguém desagradável do perigoso, capaz de evitar a violência, mas de aplicá-la apenas na medida necessária. Já vivemos em tempos narcisistas e ter gente da área de segurança, como policiais e militares, caindo no canto de sereia moderno da celebridade leva a um coquetel perigoso de agressividade e vaidade que poderia ser compensado pelos princípios aqui propostos.
Satya: a ação mental e uso de palavras para proporcionar o bem estar social. Como o uso benevolente da verdade. A verdade a qualquer preço que machuca as pessoas de forma desnecessária não é benevolente. Pensando assim, aquele argumento comum em redes sociais sobre grosseria como sinceridade estaria mais ligado à arrogância ou inépcia social do que à honestidade. Por exemplo, uma omissão de informação pode ser um exemplo de Satya, a depender da situação. Essas ações são meios importantes para a elevação espiritual.
Asteya: respeito as posses alheias. Basicamente é um não roube, porém é preciso considerar 4 modalidades de roubo:
- O roubo físico, de objetos.
- O processo mental, o planejamento do roubo mesmo que não seja executado. Acredito que pode ser entendido como cobiça.
- Ser responsável por privar alguém do que lhe é devido. Como, por exemplo, não pagar um funcionário devidamente, corromper alguém para deixar de pagar algo que é devido ou enganar alguém para obter ganhos.
- O planejamento ou desejo de privar outra pessoa ou corrompê-la.
Brahmacarya: a mais importante de todos os Yama, é a nossa conexão com Brahma (o criador do universo). Seria a capacidade de sentir essa conexão. Sua prática seria algo como um tipo de foco, considerando os objeto materiais como uma forma de conexão com Brahma, mas evitando o materialismo e focando suas tarefas em algo maior. Segundo o texto, a inspiração por ideais espirituais desenvolve a racionalidade. E esse foco em práticas elevadas também é positivo ao ser humano e está ligado ao Satya, descrito acima.
Aparighaha: Poderia ser entendido como um voto de pobreza ou simplicidade, mas essa me parece uma interpretação simples demais estando também ligado a austeridade, considerando o supérfluo como uma tentação, algo que nos afasta do aparighaha. Pode ser mais corretamente entendido como o controle sobre a tentação dos bens e confortos supérfluos da vida. Viva com o que precisa de acordo com suas necessidades, nem menos, nem mais. O que significa que pessoas diferentes podem ter conceitos de supérfluo e necessário diferentes. O que é excelente para evitar a tentação de se comprar com outos e reforçar o asteya, o respeito a posse alheia.
Já a segunda parte, o Nyama, se refere ao desdobramento externo. Como observado pelo Mestre Dada: o Yama se refere seriam coisas a serem evitadas em contraste com o Nyama, que fala em práticas a serem observadas ou incentivadas.
Shaoca: a limpeza ou pureza pessoal. Ele não se reflete apenas no aspecto físico, como o corpo e a casa, mas também no aspecto espiritual, mais interno, que significa evitar a armadilha do egoísmo.
Santosa: um estado de contentamento que não vem da satisfação dos desejos mundanos. Na verdade, a busca por atender esses desejos primitivos, como a recompensa imediata, até afastam as pessoas desse estado e prejudicam a paz mental.
Tapah: se refere ao serviço social, à ajudar a sociedade com um certo grau de sacrifício pessoal. Esse princípio se conecta ao Shaoca se considerarmos que o serviço para outros, com esforço e sacrifício, é uma forma de evitar o egoísmo e a autopromoção ao deslocar o foco de si mesmo para os outros.
Svadyaya: se refere ao estudo espiritual, suponho que se conecta ao Santosa à medida que esses estudos nos afastam dos desejos mundanos. Suponho que a prática é muito benéfica, só demanda um especial cuidado com a vaidade, claro.
Iishvara Pranidhana: creio que é o mais místico e elevado dos princípios, se refere a ter compreensão clara e estabelecer o Iishvara como ideal de vida. Confesso que ainda estou muito mundano para isso.
Conclusão
É possível perceber que os princípios se conectam, a prática de um auxilia a de outro, mais do que uma receita ou programa a ser seguido à risca é uma proposta para um modo de vida menos influenciado por paixões ou desejos imediatos. Acredito que o o uso do Guia foi considerado necessário ao Arnis Kali porque o poder de inflingir dano a outra pessoa a.ka. quebrar a fuça alheia deve ser balanceado com o aprofundamento e equilíbrio mental e espiritual. É o que vai definir quando e se as técnicas marciais devem ser usadas. Citando Paulo Freire, não há liberdade sem disciplina, é ela que liberta dos desejos primitivos e prazeres rápidos. Ao mesmo tempo que alguém ganha autoridade, deve equilibrar isso com a disciplina para se autolimitar e superar a vaidade, prazeres mundanos e momentaneos, é o que os diversos princípios trabalham.
O conhecimento sobre o livro é o primeiro item exigido nos exames da faixas mais avançadas (verde em diante). Assim, considere esta pequena resenha como um incentivo à leitura para praticantes de Arnis Kali e de outras de artes marciais.
Atualização: sugestão do Mestre Dada, o Svadyaya se refere a ler e, principalmente, compreender textos e discursos sagrados
