Introdução
Em 2018 fui convidado pela Dra. Kathia Sonoda para participar da produção de um livro infanto-juvenil sobre insetos aquáticos. Ela foi líder em um projeto de popularização da ciência participante da Semana Nacional de C&T de 2018 sobre insetos aquáticos nas escolas. Segue um relato sobre a pequena parte que me coube nesse trabalho com suas surpresas e importância. O texto abaixo reflete somente a minha opinião pessoal e não a da Embrapa.
O livro
O primeiro item foi um livro infanto-juvenil que seria um material de apoio ao projeto, que acabou virando uma co-autoria na forma de um material de educação ambiental paradidático sobre insetos aquáticos para mostrar sua importância como indicadores de qualidade água, os bioindicadores. Enquanto um livro didático ensina um conteúdo passo-a-passo o paradidático é um complemento que serve para dar aprofundar conceitos de um determinado assunto e despertar o interesse do aluno. No caso, sugeri um livro paradidático porque acredito que esse material oferece mais liberdade para o autor, sem a exigência formal do livro didático tem. Assim, a estratégia foi criar uma história envolvente para o leitor, uma pequena aplicação do mito do herói (se preferir veja em vídeo) onde uma criança conhece o mundo do insetos aquáticos e acaba descobrindo que pode ter um papel muito importante no futuro desses insetos e do ambiente. Esse segundo aspecto é particularmente importante para superar abordagens obsoletas da educação ambiental, lá dos anos 60, que acreditavam que a mera difusão de informação científica seria o suficiente para fazer as pessoas assumirem comportamento pró-ambiental. Porém, se observamos casos como os terraplanistas e a negação ao aquecimento global fica claro que essa estratégia não é exatamente eficiente. Assim, é preciso que mostrar para as pessoas que suas decisões e omissões tem impacto ambiental, um principio que norteou o trabalho em outros momentos.
Definida a história seguimos para a preparação do livro em si, onde eu trabalhei na editoração e no contato com a ilustradora. Orientar outro designer na execução do trabalho é sempre uma experiência interessante. O erro mais comum dos autores e editores é achar que o ilustrador é uma impressora de imagens e deve colocar no papel o que está na mente do autor. Na verdade o processo começa a seleção de um ilustrador confiável e que trabalhe com a linguagem visual desejada para o trabalho, o que conseguimos com a Luana Santa Brigida. A segunda parte é um processo de negociação entre o entendimento do ilustrador e os objetivos dos autores com texto. Um bom ilustrador com espaço para trabalhar pode te trazer boas surpresas e um autor que negocie bem pode extrair o melhor das ilustrações. A vantagem de se falar a mesma língua do ilustrador é que o trabalho fica muito mais ágil, sem contar que ela me deu boas sugestões para o livro. Como já havia enviado uma versão inicial do livro diagramado ela já tinham uma noção clara de onde as imagens iriam se encaixar e qual o seu tamanho, o que facilitou o trabalho dela. Por outro lado, eu tive o trabalho de diagramação de livro mais gostoso dos últimos anos devido tranquilidade para encaixar das imagens e a exuberância visual que o livro ganhou. Outro ponto em que a Luana foi ótima foi em oferecer seus estudos de desenho para as ilustrações, que foram aproveitados na diagramação e deram outro colorido ao trabalho. Com eles pude criar uma diferença visual entre o mundo da imaginação com os insetos e o mundo real, com os adultos.
Com o trabalho do livro encaminhado surgiu uma questão, o lançamento do livro. Um dos dilemas do lançamento foi o que eu gosto de chamar de: “O dilema entre ser cabeça de sardinha ou rabo de baleia”. A Embrapa lança livros toda a semana, e lançar mais um não rende muito mais que uma notícia local ou uma cerimônia de 5 minutos, esse é a cabeça de sardinha. A outra opção, o rabo da baleia, é inserir o lançamento dentro de um evento muito maior, o que atrai muito mais atenção, com o livro sendo quase um detalhe do evento, mas com muito mais gente sabendo de sua existência. Confesso que essa última era a minha preferida e acabamos optando por ela. Assim, após a fase de diagramação e revisão o livro foi lançado em 24 de abril de 2019 dentro do aniversário de 46 anos da Embrapa, graças ao apoio do setor de comunicação com o Tiago Coelho e ao programa Embrapa Escola com a Ana Carla.
O livro interativo

Esse foi um bônus, uma oportunidade aproveitada: a Ana Szerman, à época coordenadora do site infanto-juvenil da Embrapa Contando Ciência na Web, procurava algumas opções interativas para renovar o site. Inicialmente pensamos em jogos, mas considerando as demandas envolvidas e os recursos disponíveis sugeri trabalharmos com um livro interativo na forma de uma história em hipertexto. A maioria dos sites da web que acessamos todo o dia funciona assim. O que tornava a produção barata e abre a possibilidade de se escrever histórias com mais de um final, criando diferentes opções de acordo com as decisões do leitor.
Aproveitando o tema dos insetos aquáticos eu criei um fluxograma para definir os diferentes caminhos que o leitor podia tomar, com consequências diferentes e, junto com a Kathia, escrevemos outra história aproveitando personagens já existentes no Contando Ciência na Web. Em termos didáticos a idéia era mostrar que a tomada de decisão de pessoas, ou a ausência delas, tem consequências ambientais. O que rendeu três finais diferentes. O que remete aquela questão anterior da educação ambiental sobre o papel das pessoas em relação ao meio ambiente.
As ilustrações e webdesign ficaram a cargo da Ana, o trabalho de revisão de português da Elijani e a revisão didática da Rúbia melhoraram ainda mais o produto final. A história Quem Mexeu no Córrego foi planejada para o público-alvo de ensino fundamental e serve como protótipo para iniciativas mais complexas no futuro.
As palestras
A outra parte do trabalho foram as palestras para escolas públicas de periferia, na verdade elas são a espinha dorsal do projeto. Em 2018 e 2019 Kathia rodou o país, percorrendo milhares de quilômetros para levar a palestra e suas experiências para escolas públicas de periferia. Até maio de 2019 já eram mais de 30 escolas. No caso eu aproveitei minha experiência e fiz articulação com escolas do Distrito Federal.
O objetivo do projeto é falar sobre a importância dos insetos aquáticos como indicadores de qualidade da água e também descrever a vida de cientista e serve especialmente para inspirar os estudantes para a carreira científica. Isso pode parecer algo banal para quem vive numa bolha de classe média/alta mas quem já viu a realidade de escola pública de periferia no Brasil sabe muito bem a diferença que esse tipo de trabalho pode fazer.
Ir para escolas é sempre interessante para se entender como o Brasil é diverso. Existem escolas públicas ruins, mas também existem escolas ótimas, com professores competentes praticamente tirando leite das pedras para fazer a educação funcionar. Dentre as boas surpresas tivemos o CED Agrourbano Ipê, no Riacho Fundo, uma escola premiada por seus projetos em sustentabilidade e sempre aberta à novidades. Na verdade, muitas escolas supostamente de elite teriam muito a aprender com eles. Outra experiência legal foi a da Escola Classe 115 Norte. que está fazendo desenvolvendo um método de ensino próprio bem legal, inspirado no trabalho da escola da ponte de Portugal, entre outros. A palestra foi apresentada numa sala de aula em vez de um auditório, como usual. Era uma turma mista de alunos de quarto e quinto ano, com uma atenção e desempenho melhor do que eu já havia observado em alunos mais velhos. Eles já haviam lido sobre o assunto e a professora avisou que eles já deviam ter em mente suas questões para perguntar para a pesquisadora após a palestra, o que me lembrou o conceito de sala de aula invertida. Me parece que havia uma preocupação dos professores em preparar os alunos para aproveitar o melhor da palestra antes e conectar o conteúdo às aulas posteriores. A participação dos alunos é incentivada e eles tem até um espaço para dizer para a turma e os palestrantes o que acharam da palestra.
Conclusão
Para mim, como designer é uma experiência importante sair do escritório e ver como o material que produzimos funciona no mundo “real”.
Levar o conhecimento para as escolas, especialmente as públicas e periféricas é importante. Não é uma questão de privilégio, mas de necessidade. Além do aspecto técnico, falando sobre insetos, ecologia, qualidade da água e ciências, o projeto é uma forma de mostrar aos alunos como o estudo pode mudar suas vidas e inspirar eles para algo além do cotidiano em que vivem a ansiarem por algo melhor. O que bate com a proposta da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia de 2018 que teve como tema a redução das desigualdades e o papel da mulher na ciência e foi uma das vantagens em se ter uma líder de projeto apresentando as palestras.
Um projeto desse tipo é trabalhoso, o impacto demora para ser observado e é de difícil mensuração, mas ainda assim seus objetivos e resultados valem a pena.
Depoimento lindo, Renato, obrigada por participar do projeto, enriqueceu muito!!
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