A atualmente a provocação entre crianças tem uma reputação ruim devido a sua associação com o bullying, que tem efeitos negativos largamente documentados por casos de suicídio, tiroteio em escolas e etc. Porém, será que toda a provocação necessariamente é bullying? Será que a provocação entre crianças é ruim e deve ser evitada.
De acordo com o Dr. Gray a resposta seria: não necessariamente. Segundo ele, no saldo geral a provocação entre as crianças teria mais resultados positivos que negativos. Assim, segue mais uma resenha, com muito da tradução descuidada, do artigo do Dr. Gray em defesa da provocação explicitando suas funções sociais e educacionais, uma análise com uma leve dose de antropologia.
Definindo provocação
Segundo Dacher Keltner [1], psicólogo da UC Berkeley e um dos grandes pesquisadores do mundo sobre o assunto, a provocação envolve dos três elementos:
- uma afirmação verbal ou não verbal planejada para provocar outra pessoa
- a ação acompanhada por um ou mais indicadores de que é uma brincadeira ou de que é algo que não deve ser levado a sério, como um sorriso, risadas ou voz diferenciada;
- chama a atenção ou comenta sobre algo relevante para a vítima, seja algo relacionado à personalidade, físico, atual estado emocional ou motivação.
A provocação pode ser totalmente não verbal. Por exemplo pais podem provocar uma criança oferecendo um doce para então rir e levar o doce embora. O alvo aqui é brincar com o desejo da criança por doces. Isso pode soar cruel para alguns, mas em algumas culturas provocações desse tipo são usadas como um treinamento de autocontrole. De forma análoga uma mulher pode provocar um homem aparentando estar sexualmente disponível e então deixar claro que não está. Assim, a provocação existe, faz parte do cotidiano e cumpre algumas funções sociais.
1 – Expressão de aceitação
Esse é um tipo de provocação muito comum no ambiente familiar, numa família saudável, diga-se de passagem. Como um bom ser humano o autor aproveita para demonstrar isso com um exemplo pessoal: Sua família, amigos próximos e, especialmente, sua esposa são bem conscientes de seus defeitos e não hesitam em brincar com eles. Por exemplo, eles sabem que ele é distraído, fica desconfortável em festas, ignora várias coisas da cultura popular, é mais frugal que o necessário e leva muito a sério jogos que deviam ser apenas diversão. Uma falha que parece óbvia para alguém que escreve sobre a natureza não competitiva do brincar. Ao implicar sobre essas coisas seus familiares demonstram que esses elementos de sua personalidade são visíveis e que não é preciso se preocupar com isso. Essas pessoas já sabem dessas características e o aceitam apesar de suas desvantagens. Conhecer alguém bem significa aceitar suas forças, fraquezas e a provocação pode ser um modo leve e divertido de reforçar vínculos afetivos e amizade. Defeitos, para um bom amigo podem ser até cativantes, contanto que não sejam escandalosos.
2 – Um modo de promover a humildade
Outra das funções primárias da provocação é abaixar o ego. A aversão à arrogância é parte da natureza humana. Pessoas arrogantes são uma ameaça por se acharem melhores que as outras e se colocarem acima do grupo. Elas pensam que tem o direito de impor sua vontade e chegam a pensar que o propósito de outras pessoas na terra é servi-las. Arrogância é uma desvantagem que não é cativante e se desejamos uma amizade verdadeira com uma pessoa que tende para a arrogância seria saudável fazer o possível para minar o ego dessa pessoa. Eventualmente, todos nós eventualmente temos o potencial de nos tornarmos arrogantes e a provocação ou deboche de outros pode controlar essa tendência.
Portanto, quando amigos provocam sobre os defeitos de alguém eles não estão apenas expressando que o aceitam, mas também estão lembrando que esses defeitos existem. Ao fazerem isso estão auxiliando a pessoa a se manter humilde. No caso do Dr. Gray, quando sua esposa ou ele concordam que outra pessoa está certa sobre algo que eles discordam frequentemente eles diriam algo como “Oh, como você é esperto.” em tom de ironia. É um provocação comum entre crianças que significa que a pessoa está certa, mas que ela não deve se achar melhor por saber algo que os outros não sabem.
Pesquisas sobre a cultura ocidental sugerem que nas últimas décadas, a América do Norte tem sofrido um contínuo aumento no narcisismo, que podemos entender como uma forma patológica de arrogância. É possível supor que várias democracias ocidentais sigam a mesma tendência, especialmente na classe média e alta. Nesse aspecto Gray se pergunta se essa ascensão do narcisismo pode ser ligada ao declínio da provocação, especialmente entre crianças. O crescente esforço em prol da autoestima, como visto no mercado de livros de auto ajuda considera que todas as formas de se colocar alguém para baixo são ruins e vão contra a autoestima, que se tornou praticamente um dogma. Mas talvez a provocação seja justamente um mecanismo de equilíbrio para controlar o narcisismo. Asiáticos e habitantes do pacífico geralmente valorizam a humildade mais que os ocidentais e costumam a provocar suas crianças de um modo que os ocidentais considerariam insensível, como a brincadeira com a balinha.
Assim, a provocação pode ser gentil ou mesmo rude, mas também é um modo de incentivar os outros a mudarem seu comportamento. Entre crianças e adolescentes isso ocorre com frequência, é um modo de ser crítico, um aviso de que alguém está passando dos limites, de modo que a pessoa criticada possa refletir sobre o assunto sem necessariamente ser ofendida publicamente.
3 – Um meio de controle social
Antropólogos sugerem que grupos caçadores-coletores usam a provocação como forma de manter a harmonia do grupo, o que reforça o item 2. Eles evitam a crítica direta pois acreditam que as pessoas devem tomar suas próprias decisões sem obedecerem ordens. Assim, a provocação é uma forma de crítica indireta. De certa forma, a provocação, a piada é considerada uma forma mais leve que a crítica direta. Por exemplo, Elizabeth Marshall Thomas [3] descreveu um caso em que duas mulheres de um grupo que ela estava pesquisando discutiam frequentemente de um modo que perturbava todo o bando. Isso parou apenas quando o inventou um canção sobre as brigas delas e passou a cantar toda a vez que elas discutiam. A canção deixava ela envergonhadas e elas pararam de discutir. Nem sempre a vergonha um emoção ruim, o caso descreve perfeitamente seu uso didático.
Keltner e seus colegas observam que a provocação geralmente aborda sobre características incomuns do alvo. que o “alvo” não pode alterar, como raça. Quando essa diferença é sobre algo que a pessoa não pode mudar, não deveria ser obrigada a mudar e essa provocação é rude é provável que seja bullying. Porém se a provocação é sobre algo que o alvo pode mudar, em benefício do grupo ou de si mesmo, então essa provocação tem uma função útil.
A provocação desse tipo não apenas é mais aceitável que a crítica direta, mas também mais efetiva, até mesmo no ocidente. A crítica direta tende a provocar discussões, reações exageradas e colocar a pessoa numa situação muito defensiva, a necessidade de não parecer fraca na frente de outras pessoas. Assim, a provocação atua em um nível emocional de contorna nossas defesas verbais an nos dá a escolho sobre como responder. Sempre é possível rir junto com o provocador, o que pode significar que a crítica foi aceita ou não provocou dano. Também é possível expressar vergonha, o que pode indicar a intenção de mudar, responder com ressentimento, que eventualmente vai passar, ou simplesmente sair discretamente de um grupo que não recebe bem certos comportamentos. .
4 – Um teste social
A provocação pode ser até mesmo um sinal de afeição, um forma construtiva de crítica, ou mesmo algo cruel para desmerecer o seu alvo. Também pode ser algo como um jogo verbal semi-competitivo em que os participantes testam o autocontrole e capacidade de criar respostas espertas por meio da provocação.
Eventualmente, o intento da provocação é ambíguo até na mente do provocador. Em um artigo sobre o assunto Miller [6] oferece um bom exemplo: Uma garota da escola foi provocada pelos colegas no refeitório por estar no programa de almoço grátis, um sinal de pobreza. A piada poderia ser um exemplo de bullying ou apenas um teste, um desafio verbal para a agora. Na cabeça dos provocadores provavelmente era um pouco de ambos. E a garota escolheu encarar como um desafio e respondeu com algo como: “Não fique com ciúmes porque eu ganho de graça e vocês não, a comida é ótima e eu espero que você também esteja gostando do sanduíche velho que sua mãe fez para você”. Até os funcionários da escola riram. Com essa resposta a garota virou o jogo e talvez tenha até elevado seu status dentro da escola.
Então o que você acha? O mundo seria um lugar melhor ou pior se fosse possível proibir qualquer tipo de provocação. Quais foram as experiências, boas ou ruim, com a provocação?
Conclusão
Assim, acredito que o exemplo mostra o aspecto social que uma brincadeira pode ter, tanto como um regulador de tensão como uma forma de aprendizagem coletiva. Não é questão de toda a provocação ser benéfica mas de observar que, em doses aceitáveis, ela também cumpre uma função social que pode estar sendo solapada por nossa obsessão por controle. Um exagero politicamente correto que pode render mais efeitos negativos que positivos, ainda que seja bem-intencionado. Antes de tudo a provocação tem um propósito de diversão, é feita para render uma reação da audiência. Pessoalmente, eu acredito que as vezes o provocador tem mais um preocupação estética, a piada é simplesmente boa demais para deixar passar, mas ela também pode ser um regulador social e um incentivo ao autocontrole.
Qualquer semelhança com alunos do ensino fundamental, em diante, não é mera coincidência. Talvez seja por essas e outras que o Xadrez Verbal se refere ao parlamento britânico e seus comportamentos similares a uma grande 5a. série. De qualquer forma, o assunto afeta as crianças em ambiente escolar e certamente vai influenciar seu comportamento futuro, o que justifica a importância do assunto.
Referências
[1] Keltner, D., Capps, L., Kring, A. M., Young, R. C., & Heerey, E. A. (2001). Just teasing: A conceptual analysis and empirical review. Psychological Bulletin, 127, 229-248.
[2] Gray, P. (2009). Play as the foundation for hunter-gatherer social existence. American Journal of Play, 1, 476-522.
[3] Lee, R. B. (2003). The Dobe Ju/’hoansi, 3rd edition.
[4] Gray, P. (2011). The decline of play and the rise of psychopathology in childhood and adolescence. American Journal of Play, 3, 443-463.
[5] Schieffelin. B. B. (1986). Teasing and shaming in Kaluli children’s interactions. pp 165-181; in B. B. Schieffelin & Elinor Ochs (Eds.), Language socialization across cultures. Cambridge University Press. Also: B. Campos, D. Keltner, J. M. Beck, G. C. Gonzaga, & O. P. John (2007). Culture and teasing: The relational benefits of reduced desire for positive self-differentiation. Personality and Social Psychology Bulletin, 33, 3-16.
[6] Miller, P. (1986). Teasing as language socialization and verbal play in a white working-class community; in B. B. Schieffelin & Elinor Ochs (Eds.), Language socialization across cultures. Cambridge University Press
Pois é! Essa superproteção desde a infância explica porque as pessoas de hoje já não entendem uma provocação de forma sadia. Todo o pensamento crítico pode apenas ser construído através de provocações. Muitas vezes, nas redes sociais, eu toco em alguns pontos que as pessoas não entendem como provocação e pensam que estou dando uma “opinião” (o que também faço). É um processo natural e é bastante conhecido que se contrapor à opinião de alguém, ainda que você pense o mesmo que ela, faz os dois pensarem melhor. Isto é, a dialética. E até sozinho, é necessário provocar-se.
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Agradeço pela participação e concordo com você até certo ponto. Porém, a coisa não é tão simples, especialmente no caso de redes sociais: Consideremos as definições de provocação, especialmente a número 2: “a ação acompanhada por um ou mais indicadores de que é uma brincadeira ou de que é algo que NÃO deve ser levado a sério”. Um indicador como risada ou voz diferenciada não vai funcionar via internet. Uma série de informações sobre linguagem corporal, entonação de voz e contexto em que a provocação foi feita se perdem nesse meio.
Para piorar ainda temos esse agravante do contexto, a rede social é um meio público, a difusão é imensa. Uma coisa é uma provocação no meio de um grupo pequeno e com vínculos, como uma tribo de caçadores-coletores, uma turma de escola ou a galera conversando no bar. Redes sociais estão muito longe desses grupos, mesmo que tentem simular esse tipo de relação. Como observado no exemplo 4, do teste social, a provocação não é compartimentalizada: as intenções podem ser ambíguas e o alvo da provocação irá reagir de acordo com o que perceber. O que pode resultar numa reação exagerada.
Assim, concordo que estamos perdendo o uso saudável da provocação, como já perdemos o da competição. A “arte” da provocação, como forma de promover mudança de forma mais suave que a crítica direta demanda um bom grau de competência, de ambos os lados: provocados e provocadores.
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