Meu relacionamento com uma escola comunitária continua, o que já me rendeu várias atividades, essa foi uma especialmente marcante.
O mutirão
Uma iniciativa eventual da escola que oferece o material, enquanto pais e funcionários formam a mão de obra para diversas reformas do espaço físico da escola.
O processo envolve desde atividades de acabamento, como pintura, limpeza e organização; até quebra de piso, aplicação de cimento etc. As atividades são definidas entre a organização do evento, a comissão interna que cuida do espaço físico e os pais e professores interessados em determinada reforma, como a da sala de uma turma.
Por exemplo, no meu caso trabalhei na reforma de um pequeno parquinho próximo as salas da educação pré-escolar.
Nas semanas anteriores discutimos sobre quais brinquedos gostaríamos de fazer com a habilidade, conhecimento e recursos disponíveis. No dia pegamos as ferramentas disponíveis, juntamos os materiais e colocamos os planos em prática.
Certas coisas foram mais rápidas que o esperado, não achava que retirar um piso de cimento fosse tão rápido, nem tão divertido. Em outras foi preciso se adaptar: toras que poderiam ser cortadas com uma motosserra foram cortadas por uma combinação de serra circular, cinzel, martelo e força bruta bem usada. Já havia disputa entre os pais para quebrar as paredes.
Aqui abro um parênteses para comentar a surpresa com o trabalho de um ortopedista habilidoso. Suponho que são esculpir madeira entra na lista de habilidades-bônus ganhas por alguém que arruma ossos como ganha-pão. Enfim, trabalhar em comunidade também é bom para perceber a diversidade de competências.
Outras atividades foram mais lentas e trabalhosas. A mudança de um brinquedo de parquinho demandou muita gente e várias horas de trabalho. Quebrar fundação de brinquedo de criança dá trabalho.
Nesse meio tempo, outras equipes espalhadas pela escola trabalhavam em outras atividades: paredes foram pintadas, jardins foram limpos, a biblioteca reorganizada, cortinas costuradas e, claro, alguém cuidava das crianças e garantia que elas não pegassem marreta e picareta para brincar. Alguém para cuidar do lanche também é muito útil.
Os efeitos
Apesar do foco ser trabalho físico da construção e reforma, os efeitos comunitários e educativos também são claros. O exemplo e a prática sempre são argumentos poderosos.
Por exemplo, creio que uma das melhores formas de uma criança ver que todo o trabalho honesto é justo e digno de respeito está nessa criança ver seu pai, que geralmente passa a semana de terno, passar um sábado descalço, de bermudas, com areia até o joelho e cavando buracos para um novo brinquedo do parquinho.
O que é confirmado ao ver outras crianças ajudando a carregar pedaços de cimento para uma caçamba de entulho enquanto seus pais batem marretas e picaretas para quebrar um piso (fui desses).
Me pergunto se existe forma melhor para derrubar preconceitos de classe social na perspectiva de uma criança do que ela ver os pais, alguns com mestrado e doutorado, seguindo instruções de um auxiliar de serviços gerais, de nível médio, que é o único que sabe como misturar cimento e tem os conhecimentos e habilidades mais relevantes para aquele trabalho? Ver pais e mães cavando, batendo, pintando juntos, ou mesmo se alternando para cuidar das crianças, também deve ser excelente para complementar qualquer palestra sobre questões de gênero.
O empreendedorismo tão elogiado em artigos da web encontra muito mais eco entre os adolescentes que se organizam para vender pizza e arrecadar dinheiro para sua viagem de fim de ano. Os mais novos, do jardim e do maternal, ficam muito mais inspirados vendo os adolescentes das séries finais fazendo isso
Em termos de convivência em comunidade, a opinião sobre uma pessoa que geralmente encontramos por 5 minutos por dia, ou falando algo que eu discorde no grupo da turma, muda muito depois de passar algumas horas com ela construindo algo. A convivência e o trabalho conjunto forjam os laços mais fortes que assistir uma palestra ou mesmo opinar em uma reunião com dezenas de pessoas.
Durante o mutirão ninguém quer se visto como preguiçoso ou pouco envolvido com o trabalho. Todo mundo está fazendo alguma coisa e contribuindo independente da habilidade ou conhecimento. Vi gente que queria simplesmente fazer algo, mesmo que tivesse que aprender na hora. A atitude de querer fazer é a mesma, mesmo que seja em atividades completamente diferentes. E nas assembleias futuras, certamente será muito mais fácil ouvir opiniões e negociar compromissos com alguém que suou junto contigo para levantar um parquinho.
Pessoalmente, vejo algo quase terapêutico nesse tipo de trabalho. É algo com objetivo e resultados claros, bem diferente do ambiente corporativo, que é cheio de relatórios e projetos. Eventualmente feitos para atender demandas de uma chefia distante, com impactos nem sempre visíveis e resultados a perder de vista. Se nada mais der certo pelo menos descobrimos que somos capazes de tirar o piso do chão.
Conclusão
É possível que um trabalho feito por profissionais seja mais rápido e até mais eficaz. Porém, o foco do mutirão não é apenas o resultado, mas também o processo. E esse processo conjunto envolvendo pais, professores e funcionários é realmente um momento importante, que vai além das oportunidades de aprendizagem citadas acima. É o momento de se reforçar o ethos da escola. É de momentos como esse que sai o concreto que une os tijolos (famílias) que formam uma comunidade coesa.
Seria muito bom para a qualidade da educação nacional se momentos como esse fossem mais comuns em escolas do Brasil. Ainda que seja algo difícil de mensurar eu aposto que o efeito seria muito positivo no longo prazo. O exemplo para os alunos e o envolvimento dos pais na vida escolar dos filhos é um incentivo importante, com um detalhe: em vários países desenvolvido essa prática de trabalho beneficente para a escola é algo comum. O que também deve ajudar a explicar seus resultados em testes como PISA e etc.