O campus da Escola Preparatória dos Cadetes-do-Ar e a família Cruz Machado

Artigo escrito em 2010 por Attila Augusto Cruz Machado e publicado na Carta Mensal  do  Colégio Brasileiro de Genealogia nº 109 – ago – set 2012.

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Há tempos atrás o  Tenente-Brigadeiro-do-Ar Reformado João Soares NUNES, conversando comigo sobre genealogia, sugeriu que eu fizesse um artigo sobre esta especialidade para a Revista AERONÁUTICA.

Pensei: uma matéria sobre genealogia talvez não desperte a atenção da maioria dos leitores. Surgiu-me então uma ideia: se os Cruz Machado, há cinco (5) gerações em  Barbacena,  MG,  têm  estreita ligação com a Aeronáutica, em especial com a Escola Preparatória de Cadetes-do-Ar – EPCAr, por que não elaborar um resumido trabalho sobre aquela família e a sua presença, num período de cerca de noventa (90) anos, quase sem solução de continuidade, naquilo  que  denominarei  de  “campus  da EPCAr” ?

Assim foi feito e, em consequência, veremos uma amostra do que se pode fazer garimpando dados genealógicos, biográficos e históricos, ilustrando o trabalho com alguma iconografia.

Comecemos pelo prédio do Comando da Escola:

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O imóvel foi sede da chácara de Herculano Ferreira Paes, falecido em Barbacena a 15 de outubro de 1869 e vendida pelos seus herdeiros, em 1873, para a  criação  do  Colégio  Providência. Ainda no século XIX, foi sede do Colégio Abílio (1883), do Ginásio Barbacenense e do Internato do Ginásio Mineiro (1890). De 1913 até 1923, sediou o Colégio Mi-litar de  Barbacena;  em  1926  voltou  ao Ginásio Mineiro, em 1943, ao  Colégio  Estadual  de  Barbacena   e,  finalmente,  de 1949 até os dias atuais, a Escola Preparatória de Cadetes-do-Ar – EPCAr.

E agora vejamos os CRUZ MACHADO

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O primeiro CRUZ MACHADO a trabalhar no “campus” foi Átila Brandão da CRUZ MACHADO (Barbacena, 1888 – 1921), filho de Artur Carneiro da Cruz Machado (Serro, MG, 1853 – Barbacena, 1925), médico, e Maria Amélia da Silva Brandão (Itaguaí, RJ, 1860 – Barbacena, 1925); era cirurgião-dentista formado pela Escola Americana d’O Granbery, em Juiz de Fora, MG, e preparador das cadeiras de Física, Química e Ciências Naturais no Colégio Militar de Barbacena.

 

 

 

 

 

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Concomitantemente, o seu filho mais velho, Moacyr Lacerda CRUZ MACHADO (Barbacena, 1909 – Porto Alegre, RS, 2000), juiz de direito no Rio Grande do Sul, ingressou como aluno  (nº 380) do Colégio,  pedindo desligamento com o prematuro falecimento do pai.

 

 

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Passam-se os anos e, em 1947, um filho de Átila – Carlos Mário Lacerda CRUZ MACHADO (Barbacena, 1915 – 2000), ingressa na Força Aérea Brasileira (FAB), no 1º Concurso para o Quadro  de Oficiais Farmacêuticos, obtendo a 1ª colocação. Ao ser criada a EPCAr, servindo o Hospital de Aeronáutica de Canoas, RS, solicita (e é atendido) transferência para a Escola, onde permanece, como major e professor de Química, até 1961 (quando requer passagem para a reserva remunerada) e, após, de 1961 até o final da década, como professor civil contratado.

 

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Um sobrinho do Major – Rafael Domingues da CRUZ MACHADO (Leopoldina, MG, 1944 – 64), filho de Átila Lacerda Cruz Machado e Herondina Gomes Domingues, serviu na Escola como S2 (Soldado de 2ª Classe), lá falecendo, em decorrência de acidente de tiro, em 1964.

 

 

 

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Em 1986, é a vez de um filho do Major CRUZ MACHADO – Carlos Vinicius Costa da CRUZ MACHADO (Barbacena, 1959) ingressar, por concurso,  no corpo docente da Escola como professor de Matemática, sendo hoje o decano dos mestres da Instituição.

 

 

 

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Em 1995, outro filho do major CRUZ MACHADO   –   José Maria  Costa  da CRUZ MACHADO (Barbacena, 1966), médico, presta o serviço militar como 2º tenente-médico da Reserva de 2ª Classe (R2) convocado.

 

 

 

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Em 2010, um neto do   major   CRUZ  MACHADO – Ângelo CRUZ MACHADO Borgo (Barbacena, 1978), filho de Mauro  Borgo  e cirurgião-dentista  como   o bisavô,    está prestando  o  serviço  militar como Aspirante- à- Oficial  Dentista R2 Convocado.

 

Outrossim, as três filhas do Major CRUZ MACHADO se casaram com dois ex-alunos e um militar que passaram pela Escola. Vejamos:

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Alcione Costa da Cruz Machado, com Mauro BORGO (Barbacena, 1947, filho de Fortunado Borgo e Laura Sogno), neurocirurgião, que serviu como Soldado de 1ª Classe do Quadro de Infantaria de Guarda Polícia Militar (S1 Q IG PM), em 1966.

 

 

 

 

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Ieda Letícia Costa da Cruz Machado, com Ian Araújo BESCHOREN (Cruz Al-ta, RS, 1955, filho de Otto Beschoren e Iracema Araújo), Coronel-Intendente da Reserva de 1ª Classe (EPCAr 1971).

 

 

 

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Cléia Beatriz Costa da Cruz Machado, com Ângelo Moacir dos Santos Guido (Itápolis, SP, 1958, filho de Antenor Guida e de Idalina Jacinta dos Santos), que solicitou desligamento da AFA como Cadete do 2º ano (EPCAr 1975  e hoje, 3º Sargento de Infantaria Reservista).

 

 

Mais duas curiosidades:

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Na década de 30, um outro filho de Átila Brandão da CRUZ MACHADO – Oswaldo Lacerda CRUZ MACHADO (Barbacena, 1914 – Porto Alegre, 1992) prestou o serviço militar no Exército, na Aviação Militar, como cabo telegrafista de vôo (quando se criou o Ministério da Aeronáutica, passou para a FAB como 3º sargento Telegrafista Reservista), sendo o pioneiro da família nas atividades ligadas à aviação militar.

 

 

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O autor, no final de 1955  solicitou transferência do Colégio   Militar   para   a EPCAr, sendo reprovado por  apresentar “pés chatos”; recorreu, foi considerado apto, porém desistiu da matrícula. A seu pedido, seu tio, o Major CRUZ MACHADO, havia ponderado ao Diretor de Ensino que mantivesse o regime de transferência do Colégio Militar para a EPCAr (em 55 eles passariam a prestar concurso), justificando  terem ótimo desempenho escolar. O diretor aquiesceu e, assim, entre outros, dois atuais coronéis-aviadores reformados – Antônio Carlos de Freitas PEDROSA (Asp.61) e Jorge LONGUINHO (Asp.62) se beneficiaram da nova medida.

Em 1969, o articulista ingressou na FAB como voluntário à Asp.- Of. Médico R2 e, em 1971, entrou para a carreira, passando à inatividade em 1993.

Assim, noventa (90) anos depois de um cirurgião-dentista – Átila Brandão da CRUZ MACHADO – ser o primeiro CRUZ MACHADO no “campus da EPCAr”, um seu bisneto – Ângelo CRUZ MACHADO BORGO, também cirurgião-dentista, presta serviço militar voluntário como Dentista R2 Convocado, sendo o primeiro representante da quarta geração de CRUZ MACHADO a trabalhar naquele “campus”.

 

Antonio Quintas Maia

Meu pai Attila Augusto Cruz Machado me surpreende com essa história dos Maia. Essa é a família da Cláudia Maia, mãe das queridas sobrinhas Deborah e Sabrina, filhas do meu irmão Guilherme Augusto Witte Cruz Machado. Vamos juntos conhecer um pouquinho desse antepassado das minhas meninas.

Antônio Quintas Maia foi bisavô das minhas netas Deborah e Sabrina Maia Cruz Machado: Cláudia Maia c.c.Guilherme Augusto Witte Cruz Machado – Argemiro Maia c.c.Myrtes Marques – Antonio Quintas Maia c.c.Ana Lourença dos Santos.

Nascido em Maceió, Alagoas, 04.10.1891 (no casamento é 1893) e falecido em São Bento do Sul, SC (sepultado em Itajaí, SC), em 15.10.1954, filho de Antonio Quintas Maia e de Adelina Santos Freire. Casado primeiro em Blumenau, SC, 04.10.1822 com Ana Lourença dos Santos e, depois, em Itajaí (25.07.1935), com Maria Dolores Palumbo. Ao falecer, deixa quatro filhos do primeiro matrimônio.

Militar do Exército, reformado como 1º Tenente da Arma de Infantaria Comissionado, chegou, em 1932, durante as operações de guerra (Revolução de 1932), a ser comissionado como capitão e, após, a major.

Seu histórico militar (Arquivo Histórico do Exército – Palácio Duque de Caxias, RJ, RJ, acrescido de outros dados pesquisados), é o seguinte:

“Data de Praça: 09.01.1912 (5ª Companhia de Caçadores de Maceió, AL) [5ª Cia.Caçadores, Maceió, AL – passou a 42º Batalhão de Caçadores – extinto pelo Dec.11.497, de 23. 12. 1915].

Promoções: Anspeçada: 25.12.1913 – Cabo: 10.05.1913 [Obs.: a data deve estar trocada.] – 3° Sargento de Infantaria (por concurso): 04.01.1919 – 2º Sargento (1922 ?) – 2º Tenente da Arma de Infantaria Comissionado: 14.11.1924.

Cursos: Escola Regimental: …03.1920 – 04.05.1921 (3° grau). Obs.: Em 01.07.1931 declara não desejar ser matriculado no Curso de Formação de Oficiais.

Condecorações: Medalha Militar de Bronze (10 anos de serviço): 1922.

Tempo de Campanha: Contestado: 04.01 – 01.07.1914 e 03.10.1914 – 15.05.1915. Revolução de 1924: …

Reserva remunerada (R/1): Decreto de 03.09. 1931.”

Serviu em Alagoas, Rio de Janeiro, Itajaí, Blumenau, Pelotas, Brusque, Nova Trento, Curitiba, etc., além da participar da Campanha do Contestado (em 1914 – 15) e nas Revoluções de 1924 e 1932.

Teve importantes funções políticas, sociais e policiais em Itajaí: foi prefeito provisório em 1930, de 14.10 até 02.11 e Delegado de Polícia por várias vezes, inclusive durante a 2ª Guerra. Em sua homenagem, existe uma rua “Tenente Antonio Quintas Maia” nesta cidade.

Carlos Mário Lacerda Cruz Machado

O texto abaixo é cópia de um artigo escrito pelo pai Attila Augusto Cruz Machado (sobrinho de Carlos Mário) e publicado na Revista AERONÁUTICA, nº 254, edição de jan – fev 2006. Tio Carlos Mário era meu tio avô e morava em Barbacena/MG. Possivelmente, me conheceu pequena, mas minha primeira lembrança dele é de 1980, quando passamos alguns dias de férias em Barbacena. Um homem alto e magro, cheio de histórias, inclusive muitas de assombrações… Lembro de conhecer e ficar impressionada com o salão da Maçonaria de Barbacena. Tio Carlos Mário era uma presença forte na família e muito admirado por meu pai. Hoje, pelas histórias contadas pelo meu pai, vejo a forte influência que teve na sua formação. Um tio que deixou saudades e um texto que me emocionou. Tio Carlos Mário merece um outro post, pois não faltam “causos” a serem contados.

“Major CRUZ  MACHADO, professor da EPCAr

Attila A.CRUZ MACHADO – Cel.Méd.RR

 Se vivo estivesse, o Major-Farmacêutico Reformado Carlos Mário Lacerda CRUZ MACHADO estaria completando oitenta e nove anos em 15 de março deste ano [2006].

Nascido em Barbacena, MG, caçula dos cinco filhos, todos homens, de Átila Brandão da Cruz Machado, cirurgião-dentista e preparador do laboratório de química do Colégio Militar de Barbacena (onde veio a se instalar, mais tarde, a EPCAr) e de Clariêta de Araújo Lacerda, professora e pedagoga, ficou órfão aos seis anos, quando o pai, vítima da gripe espanhola, faleceu aos trinta e três anos.

Realizou os estudos primários e secundários na cidade natal e, após concurso, se matriculou na Escola de Farmácia de Ouro Preto, MG, onde se diplomou em 1° lugar da turma, com distinção em todas as matérias, com apenas dezoito anos (não pode comparecer à formatura, por não possuir um terno decente; também não teve dinheiro para pagar a confecção e o registro do diploma, só o fazendo anos depois).

Dos 18 aos 32 anos rodou boa parte do país, trabalhando como farmacêutico e como professor, inclusive da Universidade do Brasil.

Morando na cidade do Rio de Janeiro, ao sair o edital para o 1º concurso para o Quadro de Farmacêuticos da Aeronáutica, foi convencido pelo irmão (pai do articulista), a se inscrever; assim o fez, obtendo a 1ª colocação (surpreendeu a banca examinadora pelo brilhantismo e sua prova prática-oral foi assistida pelo então Diretor de Saúde, Brigadeiro-Médico Ângelo Godinho dos Santos, hoje Patrono do Serviço de Saúde da Aeronáutica).

Após o Curso de Adaptação para o Quadro de Oficiais Farmacêuticos, realizado no Hospital Central da Aeronáutica, foi servir no Hospital de Aeronáutica de Canoas, em Porto Alegre, RS, onde residiam dois irmãos.

Em 1949 é criada a Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAr) e CRUZ MACHADO solicita transferência para a Escola; o pedido é deferido.

Curiosamente, como ex-professor, inclusive da Universidade do Brasil, foi autorizado pelo Brigadeiro Eduardo Gomes, após ser apreciado por banca especialmente designada para o examinar, a lecionar Química na Escola sendo, na época, ao que se saiba, o único militar professor na FAB.

Como barbacenense, teve também a oportunidade de ajudar os diversos comandantes da EPCAr, quer aparando arestas com os políticos da cidade (alguns batalhando pelo fechamento da Escola devido as desavenças dos alunos com os jovens de outros colégios, durante a década de 50), quer mediando gestões para a aquisição de terrenos suplementares para a necessária expansão da Escola.

Em 1961, transferido para o Rio de Janeiro e lotado na Diretoria de Saúde (sem função), pede passagem para a reserva remunerada e, ao regressar à Barbacena, é contratado pela EPCAr como professor civil, nela permanecendo até o fim dessa década.

CRUZ MACHADO, detentor de vasta cultura, professor brilhante e humano (porém rígido na avaliação dos pupilos) lecionou, também, em escolas civis e na Faculdade de Farmácia de Barbacena, trabalhou até o final da vida no laboratório de análises clínicas “Santa Lúcia” (era um dos sócios) e nas atividades de difusão e doutrinação do Espiritismo Kardecista; grande orador, era Maçom Grau 33 e Grande Benemérito.

Muitas gerações de jovens foram seus alunos nos 20 anos de magistério na EPCAr e, em diversas oportunidades, oficiais ao perguntarem o meu parentesco com o major, me confessavam ter seguido a carreira (alguns até cursaram o ITA) por incentivo deste professor.

Assim, o major CRUZ MACHADO, por seu perfil de mestre e cidadão, tornou-se uma figura inesquecível para todos os que tiveram a oportunidade de o conhecer e privar de sua amizade.”

“Histórico Militar:

N.: Minas Gerais (Barbacena) – 16 mar 1915.

Identidade: M.Aer.3.962.

Data de Praça: 17 mar 1947 – 1ª Praça: 01 ago – 14 dez 1933  (Tiro  de  Guerra nº 107, de Ouro Preto, MG)

Promoções: 2º Ten.-Farm.Estagiário 02 abr 47 – 1º Ten.-Farm.FAB 17 dez 47 – Cap.-Farm. Graduado 31 jan 51 – Cap.-Farm.07 jun 51 – Maj.-Farm.Graduado 31 ago 53 – Maj.-Farm.(Merecimento) 15 abr 56.

Cursos: Farmácia (1933) – C.Esp.S.Aer (Curso de Especialização de Saúde da Aeronáutica – CAFAR (Curso de Adaptação de Farmacêuticos da Aeronáutica – 1º lugar – 1947).

Condecorações: 1º Congresso de Medicina Militar (1954) – 1º Congresso Nacional de Hospitais (1955) – Medalha Militar de Bronze (03 out 1957) – Medalha Santos Dumont – Gov.MG (23 out 59) – Medalha do Mérito Santos Dumont (17 jun 1957) – Medalha do Mérito Aeronáutico (Grande Oficial – 01 set 1987).

Tempo de Serviço: 27 anos.

Unidades em que serviu: Hospital de Aeronáutica de Canoas (Porto Alegre, RS) – Escola Preparatória de Cadetes do Ar – EPCAr (Barbacena, MG) – Diretoria de Saúde (Rio de Janeiro, RJ).

Situação: Reserva Remunerada (10 ago 61) – Reforma (16 mar 80).”

Uma curiosidade: Em seis (6) anos foi, em função da legislação da época, de 2º ten.à major!

Carlos Mário