Antonio Cândido da Cruz Machado

Antonio Cândido é meu tetravô: Antônio Cândido da Cruz Machado, Arthur Carneiro da Cruz Machado, Átila Brandão da Cruz Machado, Jayr Lacerda Cruz Machado, Attila Augusto Cruz Machado e Alexandra Witte  Cruz Machado.

Foi o Visconde de Serro Frio e levou a Lei Áurea ao Paço Imperial para a assinatura da Princesa Isabel (!!!). E se você passar por Salvador, vá até um açougue e peça um peso de carne (uma espécie de lagarto) denominado de “Cruz Machado”, consumido por Antonio Cândido quando foi Presidente da Província da Bahia (1873 – 74). 

Por sua causa, há uma Rua Cruz Machado em Curitiba e uma cidade de mesmo nome no Paraná. Declinou de pensão de senador oferecida pela República, vivendo modestamente.

Esse tetravô não foi pouca coisa não, hein!?

Antônio Cândido, foi senador vitalício do 2º Império e Visconde, com Grandeza, do Serro Frio.

Nascido em Ouro Branco, MG, 11.03.1819 e falecido no Rio de Janeiro, RJ, 12.02.1905, era filho do tenente-coronel das Ordenanças Antônio da Cruz Machado e de Maria José de Velasco (Molina); casado no Serro [Serro do Frio], MG, 25.02.1843 com Josefina Cândida Ferreira Carneiro, filha natural do comendador José Ferreira Carneiro e de Josefina Cândida da Conceição (viúva), a qual foi legitimada, em testamento, em 1865.

Era pai de Júlia (casada com Miguel Augusto do Nascimento Feitosa), Artur, médico (casada com Maria Amélia da Silva Brandão), Ibrahim, advogado (casado com Lídia Cerqueira Lima), Antonio, Augusto, Pedro (médico) e Amélia Carneiro da Cruz Machado (falecidos crianças e/ou solteiros).

Professor Público de Latinidade, Promotor Público, Advogado Aprovisionado e indicado para a direção da justiça na repressão da Revolta Liberal (tudo isto em 1842).

Deputado à Assembleia Geral Legislativa, na 8ª Legislatura, por MG, de 01.01.1850 a 04.09.1852.

Idem, na 9ª Legislatura, por MG, de 03.05.1853 a 04.09.1853.

Presidente da Província de Goiás, nomeado em 25.02.1854 (exercida de 08. 05.1854 a 28.09.1855).

Oficial da Ordem da Rosa por Decreto de 02.12.1854.

Presidente da Província do Maranhão, nomeado em 16.06.1856 (exercida de 10. 12.1856 a 24.02.1857).

Deputado à Assembleia Geral Legislativa, na 10ª Legislatura, por MG (5º Distrito), de 03.05.1857 a 16.09.1860.

Idem, na 11ª Legislatura (6º Distrito), de 03.05.1861 a 12.05.1863 (dissolvida pelo Decreto de 12.05.1863).

Comendador da Ordem da Rosa em 25.04.1868.

Deputado à Assembleia Geral Legislativa, na 14ª Legislatura, por MG (6º Distrito), de 13.05.1869 a 22.05.1872 (dissolvida pelo Decreto de 22.05.1872).

Idem, na 15ª Legislatura, por MG (6º Distrito), de 21.12.1872 a 08.05.1874.

Presidente da Província da Bahia, nomeado em 01.10.1873 (exercida de 22. 10. 1873 a 23.06.1874).

Senador (vitalício), nomeado em 09.05.1874 (exercido de 15.07.1874 a 15.11. 1889).

19º Presidente do Senado, de 08.05.1888 a 03.05.1889.

Coronel da Guarda Nacional.

Visconde do Serro Frio, com honras de Grandeza, por concessão da Princesa Isabel, Regente do Império, em 16.05.1888.

Autor de:

1 – Memória relativa ao projeto de uma nova divisão administrativa do Império do Brasil;

2 – Construção de estradas-de-ferro na Província do Rio Grande do Sul;

3– Criação da Província de São Francisco.

Responsável pela criação da Província do Paraná, separada da de São Paulo pela Lei nº 704, de 29.08.1853; há um município no Paraná – Cruz Machado, ex-colônia agrícola, em sua homenagem e uma avenida Cruz Machado em Curitiba, PR.

Nas sessões para a aprovação da Lei Áurea presidia o Senado, como 1º Vice-Presidente e levou a Lei ao Paço Imperial para a assinatura da Princesa Isabel.

Chefe influente no partido Conservador do 2º Império, exímio latinista, excelente orador, considerado um especialista em administração pública, se não era abolicionista combatente, não tinha escravos e libertou todos os que vieram de herança de sua mulher, mantendo três – Cezarina, Celestino e Olímpio, não como escravos, mas como amigos livres e fiéis.

De elevada estatura e proporcionada corpulência, louro e muito branco, tinha aparência anglo-saxônica; declinou de pensão de senador oferecida pela República, vivendo modestamente.

Curiosidade: Ainda hoje, em açougues de Salvador, existe um peso de carne (uma espécie de lagarto) denominado de “Cruz Machado”, consumido por ele quando Presidente da Província da Bahia (1873 – 74).

José Alexandrino Villas Boas Coutinho

Esse é a primeira história da família da minha avó materna, Graciema Côrtes Witte. Vovó Graci, como os netos se referiam a ela, morreu em 2002, no mês de julho, quando faria 102 anos. Participou ativamente da minha criação e dos meus irmãos e não faltam histórias sobre ela. Quem sabe ainda escrevo algumas por aqui?…  José Alexandrino era  meu 4º avô (ou tetravô), como meu pai, autor das pesquisas e relatos, registra a seguir. 

Alexandra Witte Cruz Machado – fª de Maria Helena Côrtes Witte c.c.Attila Augusto Cruz Machado – fª de Graciema Côrtes c.c.Gustavo Guilherme Witte – fª de Sebastião Martins Vilas Boas Côrtes c.c.Alexandrina Amélia Domingues – fº de Manuel Gonçalves de Figueiredo Côrtes c.c.Inácia Alexandrina Vilas Boas Coutinho –  fª de José Alexandrino Vilas Boas Coutinho c.c.Lourença Emília Jorge.

Nascido em Tiradentes [São José do Rio das Mortes ou São José del Rei], MG, 1779 e falecido em Ouro Preto [Vila Rica], MG, 28.12.1844 (?); casado no Rio de Janeiro, RJ, 20.07.1826 com Lourença Emília Jorge, foi pai de Inácia Alexandrina e de Josefina Emília. Era filho de Sebastião Martins Coutinho e de Inácia Quitéria de Almeida e Gama.

Como militar do Exército, serviu à Colônia, ao Vice-Reino, ao Reino e aos 1º e 2º Impérios brasileiros; esteve em Minas Gerais, em Pernambuco, no Pará, no Rio Grande do Sul e na Côrte.

Sentou praça, como soldado, em 15.09.1803 no 1º Regimento de Cavalaria de 1ª Linha da Província de Minas Gerais, sendo reconhecido como Cadete em 28.03.1805. Em 18.05.1818 passou ao 1º Regimento de Cavalaria da Côrte (futuro Dragões da Independência). Promovido à Alferes, por d.João VI, em 03.05.1819, à Tenente em 16.04.1823 e à Capitão em 12.10.1826 (ambas por d.Pedro I). Promovido à Major antes de 01.12.1841 (Decreto nº 260, de d.Pedro II).

Sendo cadete do 1º Regimento de Cavalaria de MG e se achando em diligência na vila de Campanha, foi encarregado da segurança do ouro de uma das lavras da vila, para não se extraviar o Real Quinto, desempenhada com satisfação.

Realizou diligência à Província de MG, em abril de 1822.

Em 1824, comandando a 2ª Companhia do Esquadrão da Côrte, marchou unido à 3ª Brigada Expedicionária à Pernambuco, que fez parte do Exército Cooperador da Boa Ordem; participou do ataque da ponte dos Afogados; se portou sempre com amor, zelo, honra e atividade; participou do sanguinolento ataque da Boa Vista, onde o seu cavalo foi morto por uma bala.

Como capitão foi transferido para o Estado-Maior do Exército e designado para ajudante-de-ordens (ajudante-de-armas) do Comandante (ou Governador) das Armas da Província do Pará [João Paulo dos Santos Barreto].

Foi um dos oficiais mais bravos que denotadamente prestou serviços em 26.04.1827, rebatendo e aniquilando o motim dos presos rebelados no Trem da Província do Pará. Elogiado, por bravura, por Aviso de 20.09.1827.

Por Decreto de 06.09.1831 passa para o 1º Corpo de Cavalaria de 1ª Linha de MG.

Por Aviso da Repartição da Guerra, de 02.02.1841, é mandado servir, como voluntário, na Província do Rio Grande do Sul.

Observações: 1824 – Confederação do Equador, em Recife e Olinda, Pernambuco; 1841 – Revolução Farroupilha no Rio Grande do Sul. A incorporação na Classe para Oficiais em 12.04.1834 deve significar o seu enquadramento no Exército, na reforma realizada durante a Regência.

Cavaleiro da Ordem de Cristo por Decreto de 04.04.1821.

Em 1824 recebe a medalha conferida aos que integraram o Exército Cooperador da Boa Ordem, do comando do Brigadeiro Francisco de Lima e Silva (Revolução Pernambucana de 1824) (medalha criada pelo Decreto de d.Pedro I, de 20.10.1824) [deve ter recebido à concedida aos mais bravos da Divisão: fita metade verde e metade amarela].

Cavaleiro da Imperial Ordem do Cruzeiro, por Decreto de d.Pedro II, de 02.12.1841.

José Alexandrino Vilas Boas Coutinho

Major de Exército José Alexandrino Vilas Boas Coutinho [Foto de retrato à óleo, pintado em 1875, pertencente ao seu trineto Antônio Luís Borges Côrtes.] Medalhas da esquerda para a direita: Ordem de Cristo, Imperial Ordem do Cruzeiro e Medalha do Exército Cooperador da Boa Ordem (Revolução Pernambucana de 1824)

Maria de Araújo Lacerda

A história dessa tia-bisavó me encanta. Foi uma mulher inspiradora, (bem) à frente do seu tempo. Sinto um respeito enorme por suas atitudes, por seus pensamentos tão atuais. Morou em uma “comunidade” muitos anos antes de começarmos a falar nas ecovilas. Escreveu vários livros e virou tema de outra obra literária. Fico imaginando, nos idos de 1900, quantas centenas de pessoas impactou e influenciou com suas ideias. Também fico matutando que meu avô Jayr foi criado por ela. Não o conheci, morreu quando meu pai era um rapazote. Mas como será que essa criação influenciou sua personalidade? Como isso interferiu na maneira como conduziu sua vida? Muitas perguntas… Aos poucos, as respostas vão aparecer. Enquanto isso, transportem-se para o início do século XX e situem a história abaixo em sua época. Eram outros tempos…

Maria Lacerda de Moura, “Tia Mariazinha” (corruptela de mãezinha, tratamento dado por Jayr, meu pai e seu sobrinho), nasceu em ° Simonésia (ex-São Simão do Manhuaçu), MG, 16.05.1887 e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, 20.03.1945, filha de Modesto de Araújo Lacerda e de Amélia Dias Toledo; era irmã de Clariêta de Araújo Lacerda.

Casou-se em Barbacena, MG, 14.01.1905 com Carlos Ferreira de Moura (tio Palinho, corruptela de paizinho – tratamento dado pelo meu pai), funcionário público, nascido ib, 13.10.1880 (?) e + ib., 19.03.1958, filho de José Vicente Moura e Ana Carolina Ferreira, s.s. Separou-se em 1925, mantendo uma amizade duradoura até a morte.

Formada em professora, lecionou e praticou Pedagogia, Psicologia pedagógica e Higiene infantil na Escola Normal Municipal de Barbacena, onde sofria discriminação pelo seu comportamento intelectual revolucionário e ser de família espírita-kardecista; foi para São Paulo, SP, em 1921 onde continuou a elaborar artigos para a imprensa, fazer conferências, escrever livros, etc.

Professora, escritora, articulista, conferencista, feminista, anticlerical, antifascista, enfim uma mulher intelectual que era perseguida e combatida, pois sua postura, como tal, era inconcebível para os homens da época (pós 1ª Guerra), como hoje ainda o é.

Intitulava-se bolchevique (se bem que seus escritos e ações eram, se não erro, anarquistas) e, John W. Foster Dulles Jr., autor de um livro sobre o seu pai, afirma que o Partido Comunista do Brasil nunca a conseguiu cooptar para o comunismo.

A maioria de seus livros foi editada em países sul-americanos, face à perseguição política sofrida, principalmente após o Estado Novo; combatia denodadamente o fascismo, atitude perigosa num estado com uma grande e influente (inclusive financeiramente) colônia italiana que desfilava livremente pela capital com suas “camisas pretas”.

Alguns títulos de suas obras já dão uma ideia do seu pensar e agir: “A mulher e a maçonaria” (1922), “A mulher é uma degenerada?” (1924), “Religião do amor e da beleza” (1926), “Han Ryner e o amor plural” (1934), “Clero e fascismo” (1935), etc.

Em São Paulo, promovia saraus, os quais eram frequentados pela nata dos intelectuais, brasileiros ou não, além de políticos; neles tocava piano e, seu marido, flauta.

Mantinha correspondência com inúmeros intelectuais estrangeiros em vários idiomas (era poliglota), discutindo ideias políticas, filosóficas, comportamentais, anticlericais, etc.

Quando descobriu que o meu pai e seu sobrinho, criado por ela desde os quatro anos de idade – Jayr Lacerda Cruz Machado (nascido em 15.08.1910), pertencia ao Partido Integralista, na década de 30, rompeu com ele e o admoestou, publicamente, em uma carta aberta a um jornal por ter abandonado os princípios nele inculcados (anticlericalismo e convivência em meio a revolucionários autênticos – operários e intelectuais livres), enquanto o criou, em Barbacena (desde 1914) e em São Paulo – no período 1921 – 1929 (Nunca soube por que a polícia política getulista não o prendeu após a Intentona Integralista em 1937). Só reataram a amizade poucas semanas antes de sua morte, a qual passou em branco pela imprensa carioca.

Infelizmente, a seu rogo, o marido queimou todos os seus escritos, correspondências e fotografias após a sua morte e, os direitos autorais de seus livros, foram doados à Fraternidade Rosa Cruz do Brasil; esta nunca se preocupou em republicá-los.

Sua memória foi resgatada em 1984 em um ensaio de autoria da dra.Mirian Lifchgitz Moreira Leite, do Centro de Apoio à Pesquisa em História da USP, sob o título de “Outra face do feminismo: Maria Lacerda de Moura” (São Paulo, Editora Ática, 1984); recomendo a sua leitura.

Este escrito é um grão de areia na vastidão de seus quase quarenta anos de produção intelectual; não me considero apto a ser seu biógrafo.

Modesto de Araújo Lacerda

Nasceu em Santo Antônio do Monte (freguesia de Tamanduá), MG, 11.06.1859 e faleceu em Belo Horizonte, MG (insuficiência cardíaca), 08.06.1916, filho de   Manuel Francisco de Araújo e de Maria Inocência de Lacerda; casou-se em  Simonésia (ex-São Simão do Manhuaçú), MG, 22.05.1886 com Maria Amélia Dias de Toledo (Consta que Maria Amélia, com estudos muito além de sua época teria, durante um baile, sentido atração por Modesto: atravessou o salão e o tirou para dançar!?), sendo pais de duas filhas – Maria e Clariêta de Araújo Lacerda.

Advogado provisionado (considerado grande conhecedor de leis e muito competente teve, inclusive, funções como tabelião do judicial), maçom militante (chegou a fundar loja maçônica em Barbacena), político republicano (foi vereador em Manhuaçu e se correspondia com figuras republicanas da época), espírita kardecista, intelectual, tenente-coronel da Guarda Nacional, etc.

Segundo sua filha Clariêta, Modesto teria fugido de Paracatú, MG, com 10 anos de idade (ca.1869), acompanhando uma tropa de muares, a fim de não conflitar com o padrasto, o qual maltratava sua mãe; foi para Barbacena, procurando o Padre-Mestre José Joaquim Correia de Almeida (Tio Filó), seu parente (?), para estudar.

Vereador (1884 – 1892) na Câmara Municipal de Manhuaçú (São Lourenço do Manhuaçú), MG, no ano de 1892, quatro anos antes da Revolta de Serafim Tibúrcio, de cunho exclusivamente partidário, deu-se grave alteração da ordem e, em consequência, deportados o Juiz de Direito, dr.Cristiano de Castro e os serventuários da Justiça, senhores Modesto [de Araújo] Lacerda, etc.

Vovó Clariêta me relatou que os quatro permaneceram numa trincheira, debaixo de fuzilaria, durante a revolta e que as duas irmãs viajaram para Barbacena, quando vovô Lacerda foi deportado de Manhuaçú, dentro de dois jacás, cada um de um lado do burro, para manter o equilíbrio.

Infelizmente, seus escritos se perderam: em 1997: tio Carlos Mário [Lacerda Cruz Machado], seu neto, declarou que presenciou sua avó Amélia atear fogo em papéis de vovô Lacerda, guardados numa canastra, após sua morte.